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DIÁLOGO

CUT, COPY AND PASTE

Uma conversa escrita entre Nelson Guerreiro e DJ Next Track

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©José Luís Neves, Lado C [foto promocional da 3.ª parte da trilogia “Vou A Tua Casa”], Lisboa, 2005.

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Nota preliminar: este texto é a concretização de um plano C. O plano A foi descartado por razões que não cabem aqui. Já o plano B abortou devido a uma série de desencontros entre mim e o “escritor de cidades” Malek Abbou, comprometedora da exequibilidade de uma colaboração desejada. Após acordo mútuo, acompanhado de uma projecção de outra oportunidade, encetei outra colaboração com o DJ Next Track que, olhando para o resultado e para a forma como se processou, me deixa muito satisfeito por tudo aquilo que sucedeu ao longo de quatro meses, entre encontros numa Lisboa por mim redescoberta e por ele vivenciada pela primeira vez, numa Berlim calcorreada da noite para o dia sem planos, numa Capri — homenageando Godard — acolhedora dos nossos corpos amorosamente desgostosos e geradora de uma amizade que vai ficar para a vida e, finalmente, numa Barcelona celebrada com flûtes de Cava.

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Nelson Guerreiro — Neste tempo de reprodutibilidade técnica que promove o acesso supostamente total ao que acontece no mundo, dada a enxurrada de informações obtidas a partir de cliques, o embate com uma entidade misteriosa é desafiador. Por isso, ou melhor, apesar disso, e antes de começarmos, preciso de saber mais coisas sobre ti. A começar pelo teu verdadeiro nome. Não sei se importa. Talvez isto seja uma estratégia para conseguir o que ninguém almejou, mas gostava de saber mais. Conta-me lá a tua história, ou melhor, conta-me lá uma história. Sou todo olhos.

DJ Next Track — Sabes, é por isso mesmo que eu não dou entrevistas. Invariavelmente começam todas sempre por querer saber mais sobre mim do que sobre o meu trabalho, o que na verdade me incomoda, porque eu não gosto de falar nem de mim nem do meu trabalho, gosto de trabalhar e provocar coisas boas às pessoas para quem trabalho, é nisso que me realizo. Em ouvir as pessoas a fazer tchururuus, uhhooo-uhoooo e ohohohs-ohohohs-ôôôs. Em sentir o chão a tremer e a imaginar os copos a partirem e as bebidas a serem derramadas nos braços de desconhecidos. Mas não havendo problema nenhum. As pessoas no universo da electrónica são verdadeiramente gentis. [Rio-me. Pausa para ir beber água.] Eu nunca soube para onde ia ou de onde vinha: eu apenas existo num presente abstracto com uma descontracção existencialista em relação ao futuro. E mesmo que me digam “sim, mas o passado já foi presente”, eu digo: “está bem, então fica a viver esse eterno presente e nunca passes o dia do calendário na parede e depois diz-me se continuas feliz!” Sou um sobrevivente, é por isso que me considero um bocado amanteigado. Depois do corte, deixo-me verter por onde existir superfície. Eu sou o primeiro a duvidar do sítio onde chego. Sempre que me perguntam quem sou, hesito. A minha voz mostra inquietude. E atrasa-se. Sempre o primeiro a duvidar do sítio onde cheguei e quando começo a falar sobre isso sou o primeiro a ficar boquiaberto e a olhar para nowhere! A todo o momento sinto que estou a despertar de um sonho, sem sequer saber que estou a sonhar. Bueno, e mais não consigo dizer! E tu? Conta-me lá tu uma história.

Nelson Guerreiro — Percebo a tua relutância em seres entrevistado ou em falares de ti e do que fazes. Antes de te falar de mim, uma pergunta: já alguma vez pensaste em construir a tua apresentação, a tua nota biográfica, a partir de uma operação cut-and-paste, com partes de histórias de outras pessoas? A apropriação parece-me ser, no teu trabalho, uma ferramenta tão útil.

DJ Next Track — Não tenho nada contra as entrevistas. Pelo contrário, gosto imenso de ler entrevistas. Dizem-se coisas que não se dizem quando estamos a escrever. Eu acho é que não tenho nada de interessante para dizer (ao mundo). Quando leio outras entrevistas, existem sempre frases, opiniões, excertos que me fascinam, arrebatam e iluminam e pergunto-me: “Porque é que não me aproprio desta parte, já que me revejo tanto naquelas palavras? De certeza que não vou conseguir dizer melhor”. A ideia é reorganizar algo que já lá está, reapresentar alguma coisa que já existe. Dentro do arquivo, existem imensas possibilidades, é só ir lá e seleccionar o que queremos usar. Há algum tempo que ando concentrado nesse modus operandi e tenho chegado a resultados muito satisfatórios. É uma espécie de fusão de ideias: entrar na cabeça das pessoas, já que está tudo lá. Experimentar a mesma sensação física de um gesto, de um movimento. Sem preocupação de fazer ciência. De diagnosticar química.

Nelson Guerreiro — Eu também gosto da técnica do remake! Há tanta gente a trabalhar sobre as mesmas coisas e a dar-lhes nomes diferentes. A sensação de originalidade é uma coincidência. Nós nunca vamos saber tudo o que já foi feito, quem fez primeiro, quem teve a ideia. Nunca! É impossível. Há uns anos, isso era para mim um factor-obstáculo. Força de bloqueio. Agora, quando me confronto com ideias semelhantes que gostaria de trabalhar, vejo isso como algo que me dá a sensação de não estar sozinho no mundo. Quantas vezes nós não sentimos que já vimos isto nalgum sítio, que já escutámos isto em algum lado, que já vivemos esta situação. Estamos sempre pendentes de uma primeira vez que, ao longo do tempo, resultará num dejá vu eterno. Não há primeira vez como não há nada de novo, apenas formas diferentes de fazer o mesmo, de fazer algo parecido que resultará sempre, e de cada vez, em algo diferente. O Borges, perdão, Jorge Luis Borges, no seu conto Aleph, recorda-nos que há um lugar em que, permanente e eternamente, se está a dizer todas as coisas que já foram ditas durante a história da humanidade. Sempre, de forma constante, ouvindo o que já ouvimos, dizendo o que já foi dito. Isto justamente também já foi dito. Foi e pode ser tão bom ser-se pós-moderno (t’be post-modern’s so nice…). Sobretudo quando, hoje em dia, toda a gente quer voltar a ser moderno ou ultra-moderno.

DJ Next Track — É por isso que eu não estou nada interessado em falar de mim enquanto assinante do individualismo. Sempre que solicitado a tal, prefiro fazer uma selecção de coisas já ditas com as quais me identifico e utilizá-las com a certeza de que nunca conseguiria dizer melhor. É por isso que me escuso a marcar presença em instâncias de afirmação da individualidade, como é o caso sério dos média e, em particular, das entrevistas. Ao abdicar de pulverizar o espaço público com as minhas palavras, não pactuo com esse sistema de afirmação. Quem precisar de falar comigo, de um para um, tem de saber onde estou e se acontecer falar, falamos, mas fica ali. Para estarem comigo, têm de me ir ouvir. Os intercâmbios potenciais têm de ocorrer por contacto indirecto, através da minha música. (…) Tenho um amigo jornalista que escreve entrevistas imaginárias a pessoas reais, mas, em vez de reproduzir as suas respostas, apropria-se de palavras de outros, deslocando-as para o conteúdo da entrevista. São maravilhosas. Estou a lembrar-me de uma entrevista que ele fez ao Xavier Le Roy, em que utilizou respostas dos vocalistas dos Def Leppard, dos Metallica e dos AC/DC. Hilariante. O remake, entre a prestação de uma homenagem e a cópia, pode ser visto como uma burla da ideia de originalidade, da singularidade pessoal, da voz autoral, característica e tão definidora do que deve ser, na verdade do que era, um artista. E a questão é mesmo essa: eu não me considero um verdadeiro artista. Eu não me considero realmente um artista. Nunca tive essa necessidade de assinar e de me apresentar como artista. Eu faço coisas que podem ser consideradas arte. Caí neste mundo por acaso, queria ser piloto de aviões. Mas alguém me disse que ser DJ era uma profissão muito rentável e se conseguisse entrar no circuito arty podia chegar a ser milionário e estaria sempre a viajar e a conhecer muitas raparigas e muitos rapazes. Mas isso é completamente falso; não há tanto dinheiro assim, viajo umas dez vezes por ano, das quais seis são a sítios onde já estive e, apesar de haver mais raparigas que rapazes, não há assim tantas. As pessoas fantasiam imenso sobre vidas que não existem. Temos um apetite desmesurado de somar vidas à nossa vida, até acabar por querer vivê-las todas. E isso é, tal como diz a música: Illusion! Aaaah aaaah aaaah! Illusion! Beckett, n’O Inominável, tem uma frase que diz: “Tranquilize-se quem deseja ter vivido, enquanto vivia, que a vida dir-lhe-á como isso se faz”. Seminal. Eu há uns tempos passei por isso, sofri muito, porque descompensei. Ainda estou a recuperar.

Nelson Guerreiro — Concordo em absoluto contigo. De seguida, vou-te falar sobre mim sem estar preocupado em saber se vais ler as minhas palavras sob o signo da verdade ou da mentira. Deixo ao teu critério.

DJ Next Track — Como é que eu vou conseguir saber onde é que está a verdade? A verdade nunca está lá, se estivermos sempre a desconfiar. É assim em tudo, e essa desconfiança pode ter apenas começado com uma pequena mentira, totalmente desnecessária. São os riscos do controlo da situação. A mesma coisa se passa com a arte. Nada é absolutamente teu. Nada. Há coisas que tomas por tuas e que não são, foi a sua recorrência que as incorporou no teu corpo, é um processo de fusão com base no armazenamento na memória de paradigmas, de uso das ideias, das palavras, das imagens, etc., sendo bem possível que depois esqueçamos por completo as circunstâncias em que as assimilámos. Eu tenho amigos com quem só estou ao fim-de-semana e as nossas conversas giram em torno da actualidade; todas as suas opiniões foram compradas à sexta-feira e ao sábado nos jornais. É no momento em que tu reclamas algo como teu, apresentando já o material apropriado sob um filtro, que se produz o gesto remake. De uma mesma fonte, eu posso achar que isto é a minha verdade e que outra será a tua. Para além disso, se eu usar outros materiais, assumindo a sua proveniência, tu continuarás a ter a oportunidade para observar como eu trabalho e eu terei a oportunidade para aprender mais sobre as outras pessoas e o seu trabalho. Posto isto, conta-me lá umas coisas sobre ti.

Nelson Guerreiro — Por mais estranho que te pareça, também acho que não sei falar sobre mim. Dizer-te o que sou, o que faço, descrever-me é uma tarefa que executo com elevado grau de dificuldade, pois olho para trás, olho para a data de hoje e para a frente, e não consigo fazer a abreviatura da minha vida. Preciso de muitas palavras. Como isto é uma conversa à distância, não me parece adequado estar agora a fazer aqui um exercício autobiográfico extensivo. Porém, contudo, apesar disso, vou enviar-te um pequeno excerto de um texto que, à terceira tentativa, poderá vir a ser o início da minha autobiografia.

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“Quando li a página 226 da Poética do Espaço de Bachelard pus-me de acordo com o autor e propus-me escrever a história da minha vida a partir de um relato de todas as portas que já fechei ou abri, de todas as portas que gostaria de reabrir ou voltar a fechar depois de abrir. Para já, uma porta é sempre uma opção. Daí a hesitação que sinto a abrir ou a fechar uma porta. Entrar ou sair. Uma porta é sempre uma revelação. Daí a tentação de rodar a maçaneta ou bater com força. Uma possibilidade. Daí o desejo de a puxar ou de a empurrar. Uma barreira. Daí o respeito pelo nome (cada vez menos o cargo) inscrito na porta. Daí o gesto de bater à porta antes de entrar. Uma porta aberta pode permitir o devaneio ou o salto da imaginação num gesto de abertura ou fechamento. Uma abertura que pode não fechar. Um fecho que pode nunca mais se abrir. A abertura ou o fecho de portas é um movimento que influencia os acontecimentos seguintes. Não vale a pena explicar(-me), tenho isso tão incrustado na minha experiência como o sinal do bisturi que me rasgou duas partes do corpo num dia em que esperava acordar com apenas um corte de um sono que começou, lembro-me tão bem, de mão dada a outra mão de um corpo que projectou uma voz que se afirmou no meio de um rosto emoldurado por um espaço que me pareceu, naquele instante a rarefazer-me, estar num jardim deitado sob uma manhã embaciada. Desse dia também ficou o espectro da minha boca seca no bloco pós-operatório, em que estive cerca de quatro horas, a conviver com outros corpos suturados em convalescença e, em destaque, um corpo emissor de gemidos compulsivos, cujo rosto nunca cheguei a ver, submetido, vim a saber mais tarde, a uma operação às hemorróidas. Fiquei-lhe agradecido, o seu sofrimento ajudou a suplantar o meu. Longe de ser uma compensação, mas muito perto de me fazer sentir menos as dores pelo seu chamamento, apesar do seu contributo no prolongamento das horas e das reacções psicofisiológicas do meu corpo à passagem do tempo que, nestas alturas, parece sempre passar mais devagar, tratando-se, na verdade, de uma atenção que se redobra em tal estado. A correr-correr nada nos atrai. Somos predadores do próximo momento. À falta de melhor fica a vontade de ter escrito uma onomatopeia garrida. Esclareço que nessas movimentações eu estou de boca arreganhada e mostro todos os dentes. Não há dor, nem motivo, nem parte do corpo que faça cair o sinal vermelho nos meus pés. A propósito, não me lembro da primeira porta que abri na vida. A última estará sempre por abrir, mas por agora foi a porta de uma casa em que vou estar, durante uns tempos, alguns dias por semana. Estamos sempre nos sítios durante. Enquanto vivemos somos corpos durantes que se movem por razões fundamentais. Eu, por exemplo, levanto-me para ligar o aquecedor, ir buscar o garrafão de água, ir do sofá para a cama, ir fazer pee wee ou cocó, abrir a porta a quem toca à campainha, ir ao frigorífico buscar o tupperware do fiambre e do queijo, ir tomar um banho. Eu, por exemplo num outro exemplo, sento-me numa cadeira onde é suposto estar sentado nos sítios onde há cadeiras: salas de aula, restaurantes, cinemas, salas de espectáculos. Eu, por exemplo pensando noutros exemplos, deito-me numa cama quando ela existe, quando estou cansado, quando me apetece fazer amor na cama, por aí. Mas acho que devia deitar-me mais no chão e atrair e expelir os pós típicos que se acumulam nas casas. Eu, por exemplo a querer dar o último exemplo, fecho a porta do quarto para não acordar com a luz do dia, para filtrar sons, para experimentar uma sensação de privacidade. É assim que se é convencional. Controlando e transgredindo. Policiamo-nos perante os outros e depois tornamo-nos criminosos não para os outros, mas para nós mesmos. Sabes, nunca tive a imagem do meu nascimento. Nunca consegui recuperar através de mim esse momento. Porém, a minha mãe, de vez em quando, fala-me desse instante com lembranças que partilha a sorrir, com gestos que me impressionam pelo recuo no tempo, pela emoção que anula o tempo que passou. Muitas vezes estamos em frente um ao outro, mas sem o nosso olhar se cruzar, ela diz-me: “Agora parecias mesmo quando eras bebé… Arregalavas os olhos quando eu te punha a mama na boca”. Que impacto tem isto em mim para além da imagem que consigo realizar? Não me pertence, o álbum é dela, eu há uns anos sou mais dossiers de recordações, que continuo a arquivar com apontamentos das aulas que frequento, que escrevo a tomar o pequeno-almoço, que escrevinho na escuridão a ver filmes, que aponto depois de ler recortes de jornais e revistas ou em folhas de sala de espectáculos, e mais não sei o quê. Certidão de nascimento: 13 de Setembro de 1974. Nasci num dia 13, sexta-feira. Imagina! A fazer fé no que a minha mãe me diz há anos, nasci entre as 8h e as 9h da manhã. A minha infância foi futebol, jogos de caricas, beijos minúsculos nas traseiras da minha casa, bate-pé e roupa gira. Sou do Benfica. Lembro-me de passar os fins-de-semana a ver futebol: de manhã os iniciados, juvenis e juniores, à tarde os seniores. E, por causa do Benfica, faltei com autorização expressa do meu pai à minha primeira aula na primária para ir assistir à final da Taça UEFA perdida, nos idos 1983. Parece que foi ontem. Levámos merenda para aguentar a espera. Lá dentro iam pastéis de bacalhau e panados. As bebidas foram compradas no bar. Tudo como tinha planeado. O meu pai nesse dia fez-me as vontades todas. Foi um dos dias mais felizes da minha vida”.

[Texto escrito a 21 de Janeiro de 2005 no contexto da residência artística em Montemor-o-Velho para o projecto “Vaivém, a história verdadeira de um projecto transdisciplinar”, a partir de um exercício de escrita de autobiografia com base no mote “portas abertas e fechadas ao longo da vida”.]

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E mais não digo, para veres como é que a vida dá muitas voltas, e para perceberes isso bastará lembrares-te onde me conheceste, com quem me viste e em que circunstâncias. Lembras-te?

©Nuno Patinho, Vaivém — A História Verdadeira de um Projecto Transdisciplinar, de Nelson Guerreiro, Theatro Ester de Carvalho, Montemor-o-Velho, 2005.

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DJ Next Track — Sim, claro, como não? Mas confesso-te que me perdi. Surpreendeste-me com o fluxo desorientado das tuas imagens. Bem, mas deves ter tido uma infância muito feliz. [Pausa. Estou a rir-me.] Da minha infância só me lembro… Bem, não é disto que devemos falar, não estamos aqui para falar das diversas possibilidades biográficas das pessoas, pois não? É que isso contribui para um descontrolo provocado pela ausência de limites entre a realidade e a respectiva construção ficcional ou, ainda, pelo embate definitivo que tu estabeleces com o tempo. Estou perdido. Não é grave. Mas estamos aqui para falar do trabalho do Rogério. Estou cheio de curiosidade para saber como é que vou falar sobre uma pessoa que não conheço e sobre o seu trabalho que desconheço em absoluto. Portanto, fala-me lá dele, mas antes gostava que me falasses um pouco do teu papel como observador.

Nelson Guerreiro — Obrigado por me pedires isso. Quando o Rogério me convidou para ser observador do projecto, eu fiquei entusiasmado. Nunca tinha sido. Nos últimos anos, tenho feito coisas que nunca imaginei fazer, é também por isso que me é difícil dizer em duas linhas o que faço. Quando me perguntam o que faço, ressalvo logo que, para saberem, vão ter de ter paciência para me ouvir, prometendo não ser ostensivo, pois não consigo abreviar. Curiosidade das curiosidades, coincidência das coincidências, não vais acreditar, mas foi o Rogério quem melhor conseguiu expressar o que sou, num artigo que escreveu sobre mim: um desclassificado. Passo a citá-lo para perceberes o que digo:

“Trata-se de um dos poucos (muito poucos) criadores portugueses que dispensa todo e qualquer tipo de rotulagem disciplinar, à qual escapam até aqueles portos seguros que são a “formação académica” (neste caso, em Comunicação Cultural) ou a “formação e experiência profissionais” (pois não vem da dança, não vem do teatro, não vem da performance, não vem das artes visuais, não é encenador nem coreógrafo, e não é escritor). É o quê, então? Um corpo sensível à sua ocupação no espaço social; e um corpo que recusa a esquizofrenia de uma espécie de ubiquidade falaciosa (estar em todos os sítios, para não ter de estar em lado nenhum). Leia-se: estar na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, onde é docente, e ter entrado no espectáculo Discotheater do Teatro Praga, é para Nelson Guerreiro um pressuposto de reflexão sobre o seu lugar na produção artística nacional, mais do que uma fatal condição dos tempos modernos. À dificuldade em assinar uma petição (o que é que eu ponho à frente do nome?), contrapõe-se a vontade (leia-se liberdade) em preencher a “lacuna” com o que quiser. A entrada no parque temático “Nelson Guerreiro” implica, logo no momento da compra do bilhete, a evidente recusa de todo e qualquer tipo de exclusividade categorial. O nome deste criador tem sempre à frente uma linha em branco”.

[COSTA, Rogério Nuno (2006), A Felicidade Dele, DIF, Lisboa, Abril, p. 34.]

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©Re.Al, A Oportunidade do Espectador/The Curator’s House [conferência], Rogério Nuno Costa com Nelson Guerreiro, Atelier Re.Al, 2008.

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DJ Next Track — É engraçado, também eu já me deparei com essa contingência. Apesar de nunca exteriorizada, ocupei-me várias vezes em procurar explicar numa ou duas palavras o que faço. Não consegui. Não dramatizei, pois como sabes não me preocupa a indefinição. Apesar disso, volto a insistir: o que é que foi ser observador de um projecto? O que se faz?

Nelson Guerreiro — Pois bem, vamos lá. Em primeiro lugar, vamos à definição de “observar” para fixar o significado e depois chegar às possibilidades metodológicas e formais do acto. Na prática, observar é estar presente. É ver com olhos de ver. É estar e captar. Na teoria e na prática, observar é um acto individual que, se for partilhado, pode ser extensivo ao(s) outro(s). A sua essência subjectiva não inviabiliza a produção de uma visão comunitária. O meu primeiro objectivo foi partilhar o resultado na prática de cada observação. Todos os meus actos de observação procuraram ser objectivos, porque este projecto requisitou, desde logo, gestos construtores de visibilidade, numa sequência imparável de to be continued… Mas a visibilidade, que aqui quer dizer presentificar, reificar, produz-se através da apreensão simultânea de todas as partes do organismo, não dependendo exclusivamente do sentido da visão. Às vezes, olhei com a pele: Vou A Tua Casa. Com o estômago. Com as mãos. Com a boca. Com o nariz. Orelha e língua e por aí dentro: Lado C. Segundo objectivo: testar os limites da percepção, pondo-me dentro dos momentos. Como é que me relacionei com o que me era dado a observar, perguntando-me se a observação nas artes é diferente do acto de observar outros fenómenos como a vida, a natureza, os lugares, as pessoas? No tempo, no espaço e nas consequências? Terceiro objectivo: observei para resgatar a efemeridade das acções performativas com a intenção de fixar discursos. Tenho constatado que todos nós codificamos as nossas experiências temporais em diferentes escalas. Um simples momento ocorrido há uns meses pode consumir os nossos pensamentos, ao mesmo tempo que um Verão inteiro pode desaparecer completamente da nossa memória! Nós apertamos e condensamos o tempo. Em todos os actos de observação, estava cheio de expectativas.

DJ Next Track — Espera, mais uma vez te peço para meteres uma mudança abaixo. Começaste a falar já dos trabalhos e apenas através do seu título. Preciso de saber mais.

Nelson Guerreiro — Obrigado pela recentração. Pois bem, antes de mais vou falar-te acerca dele. O Rogério é um daqueles artistas com quem acontece, muitas vezes, gostar muito mais das suas ideias, dos seus starting points, dos seus pressupostos, dos seus textos de apresentação, da forma como ele fala dos trabalhos, do que dos objectos em si, das suas materializações. Porém, isso não menoriza o seu trabalho, nem me faz dizer: “a ideia é boa, mas o resultado deixa a desejar”. Porque já não é nada mau ter ideias brilhantes. Pelo contrário, aponta novos caminhos para o entendimento do que é um trabalho e de quais os seus pontos de entrada e de como por vezes é difícil encontrar a saída. A diferença situa-se somente no acesso aos dados e à forma como se entende um projecto.

DJ Next Track — Esse incumprimento ou, se quiseres, essa desfuncionalização interessa-me: não gosto de ver coisas que cumprem as expectativas e que obedecem a requisitos. Eu também gosto de tirar vantagem das situações. Porque eu também não tenho estúdio, uso os meus sets como meio para o meu trabalho ser produzido. Cada data para tocar torna-se um desafio para mim. Se não tiver datas, não faço nada. De certa forma, sou um preguiçoso. Só uso a cabeça se tiver de a usar. O meu processo criativo, como eu costumo dizer, começa normalmente com um telefonema ou um e-mail. Convidam-me para actuar num sítio qualquer e é a partir daí que eu começo a pensar no que vou fazer. Envio um pequeno texto que promete apenas ambiências, nunca efeitos, nem reacções esperadas. Ele ou ela telefonam-me de volta e discutimos um pouco. Depois disso tudo, penso nas pessoas, peço sempre um retrato-tipo das que costumam lá estar, como estão vestidas, o que as faz saltar, ficar quietas, sair da pista, dirigirem-se ao bar. Porque para mim um clube e, em particular, uma festa, tem lugar num território mágico. Um lugar inexistente antes e depois da sua celebração. É um espaço em que os códigos mudam, onde os ricos e pobres podem beber. Todos, sem excepção, em copos de plástico, onde, a partir de uma certa hora, se contam pelos dedos os que se preocupam se há ou não limão, se o sumo é daquela marca, se o copo tem muito gelo. Poderosos e oprimidos, arrogantes e humildes, chefes e empregados, espertos e parvos, chungas e estilosos, entendidos, desentendidos e mal entendidos, caras lindas e feias, partilham esse lugar com nome que não aparece nos mapas, apenas nos roteiros. Dir-se-ia que é um oásis, uma ilha de felicidade e sons estridentes, de alegria e de cores, onde todos parecem estar bem, pelo menos nalgum momento. Locais que não se regem pelas mesmas leis, nem os horários são iguais. Às vezes, em dias de festa rija, não se paga o que se consome e o impossível pode ocorrer a qualquer instante. A permissividade substitui a rigidez das normas sociais. As diferentes formas de viver a sexualidade num clube ou numa festa mostram-nos uma sociedade descontraída que horas antes não se esquecia do pudor e da contenção. Extraordinariamente surpreendente é ver quão mal passa muita gente nas festas. Bebedeiras precoces que deitam por terra vítimas logo nos primeiros momentos de euforia ou frustrações de tantas pessoas que trazem consigo expectativas excessivas, ao centrar na festa todas as possibilidades de diversão, encontro amoroso, ruptura com a vida que se leva e esquecimento dos problemas. Ou as discussões acesas e cenas de ciúmes entre casais ou amigos, que encontram na festa o seu particular campo de batalha. A verdade é que cada festa, tal como Dr. Jekyll e Mr. Hyde, tem duas caras que se ocultam e sobrepõem, continuamente, num jogo divertido para uns e trágico para outros. Não há alegria sem risco de dor e numa mesma festa há aqueles que se encontram e se amam e outros que se separam e sofrem. Mas todos terão, mais tarde ou mais cedo, de voltar para casa. É bom não nos esquecermos disso. Nunca me esqueço que a necessidade de sair, de dançar, de ir beber um copo e de ouvir música corresponde a um desejo de sentir coisas que são reprimidas durante o dia. Numa noite fui pôr discos a um clube onde me cruzei com o Ricardo Villalobos. Depois de fechadas as portas, fomos beber um copo ao bar e ele, a propósito da vida da noite e sobre a festa, disse-me que a noite, para lá da sua dimensão festiva e eufórica, era sinónimo de melancolia. Que havia o lado negro e triste da noite. E isso fazia-o sentir-se diferente do que normalmente era durante o dia, sempre positivo e harmonioso. E que em determinado momento ouvia música e se desprendia de toda a tristeza, indo normalmente para um canto chorar, outras vezes até na pista, no meio da multidão. Das vezes em que isso lhe aconteceu, ninguém se deu conta, à excepção de uma pessoa que lhe pegou na mão e lhe limpou as lágrimas com um cubo de gelo. Ele disse-me que sentiu o coração a ficar congelado. Eu também me encanto com esse lado soturno e interior da noite. Agora já não evito estar triste onde é suposto estar-se contente. Agora sinto-me muito à vontade na noite, numa intimidade que me faz encontrar comigo próprio, sem fugas. Nesse frente-a-frente já me aconteceu muitas coisas: ter decidido coisas importantes que estavam por resolver, ter ideias fantásticas que sobreviveram após o teste de qualidade no dia seguinte, gritar para dentro com o embate de certas recordações, etc. Às vezes passam-se coisas extraordinárias na noite. É por isso que eu nunca levo um alinhamento esquematizado. Because it’s never out of my hands, if you know what I mean… Adoro imaginar as conversas que se têm na pista ao som da minha música. Elas tornam a minha música mais viva, mais próxima dos órgãos vitais das pessoas: cabeça e coração. Eu gosto mais de saber as histórias que ocorrem na pista: quantas pessoas se beijaram pela primeira vez, quantas pessoas ficaram tristes, quantas pessoas estão ali a pensar noutras que estão noutro sítio, quantas pessoas começaram ali um romance. Gosto mais de saber isso do que saber se curtiram a música que passei, porque o que fica é a única coisa que não consigo prever. É por isso que peço aos seguranças, em jeito de brincadeira, para estarem mais atentos às conversas do que às drogas que se tomam ou que se passam ao nível do umbigo. Eu não desejo controlar, nem determinar a experiência das pessoas, nem fazer algo meramente experimental. É por isso que estou por detrás da cortina, para não haver personalizações, eu faço a minha parte, a outra parte tem de fazer a sua. Prefiro produzir um set que estimule acções, gestos, olhares, expressões faciais. Gosto que o meu trabalho seja nutritivo, uma espécie de suplemento vitamínico. Au naturel! Eu gosto de emitir um som cru. Estou sempre à procura de partículas de informação através da audição, seja o som do vento que sopra através da janela do meu carro ou o som branco da vibração do metro. Fecho os olhos numa paragem de autocarro e ouço: “ouve apenas” – é o que me estou sempre a dizer – “ouve apenas alguém a dizer ‘o que fizeste ontem?’, vê lá se consegues ouvir as mãos a passar pelo cabelo”. As narrativas estão a ser escritas constantemente à nossa volta. Estão no ar como o amor, quando o vento está de vento em popa. Eu alimento-me dessas experiências. E também das minhas leituras, extraindo delas temas ou tópicos que depois desenvolvo. É muito comum chegar a temas gerais de sets que têm a ver com a resposta a perguntas como: “Se não te restasse mais do que um ano de vida, o que farias?”; “Se te saísse o Euromilhões, o que farias?”; “Que filme gostarias de viver na vida real?”; “Se estivesses envolvido num acidente de viação grave, e encarcerados no carro estivessem também os dois grandes amores da tua vida, quem é que salvarias primeiro?”… Mas também a partir de frases do género Nothing lasts forever. Impossible is nothing. We’re accessible. Love means nothing to a tennis player. Everything will be OK. God is in the footnotes. Love is a conflict between reflexes and reflections. Escolho as músicas em função destes leitmotive e espero que, sem grandes ajudas ou orientações da minha parte, as pessoas o captem. E até, quem sabe, possam agir em função das suas respostas à minha pergunta que, em casos extremos para o bem ou para o mal, poderiam resultar no abandono da pista, após uma tomada de decisões e consequente compromisso na sua aplicação. É uma espécie de verdade ou consequência.

Nelson Guerreiro — É curioso, isso tem muito a ver com o trabalho do Rogério. Ele também dá muita importância à leitura individual, à escala microscópica das emoções de cada um e, por inerência, à responsabilização do espectador. Neste projecto, ele trabalha sempre para poucas pessoas e a partir da partilha da sua escuta. Para além disso, os seus trabalhos não estão encriptados. São transparentes. Faz da forma conteúdo, mostrando como faz. As suas intervenções são como os programas de culinária na TV em que o chef, ora numa sofisticada cozinha indoor cenográfica, ora numa cozinha realista, ora numa cozinha improvisada em fundo natural numa qualquer parte do mundo, nos encaminha desde a preparação até ao toque final. Produz pequenos gestos que fazem toda a diferença: mostra um cartaz que diz Ne me quitte pas, abre a porta da sua casa, dá a provar um bolo que fez, diz adeus e olha duas ou três vezes para trás, tal como o chef, quando põe a erva decorativa na borda do prato, faz cair uma chuva de vários queijos, ou quando pulveriza o seu cozinhado com essências pouco calóricas! If you know what I mean… Mostrando como se faz, tem tudo à vista, não esquecendo, claro, a partilha dos ingredientes, à excepção do tempo de cozedura, o que no caso do Rogério diz respeito ao funcionamento do seu pensamento e ao modo como ele produz as acções, num tempo condensado. Pois, tal como em televisão o tempo é sempre pouco e tão precioso, também na performance o tempo é ouro, tem de ser eficaz, numa exigência paradoxal e inadvertidamente capitalista.

DJ Next Track — Agora fizeste-me lembrar que podia chamar aos meus sets “No roça roça com os pratos”. Obrigado. Adoro esse tipo, uma vez estava no Sheraton e liguei a TV e estava ele com uma grande energia a fazer um prato que me pareceu delicioso. Ao fundo, uma paisagem luxuriante, de um verde interminável de copas, por entre as quais o horizonte era a única linha recta contínua.

Nelson Guerreiro — De nada. Deixa-me dizer-te que me agrada bastante. Bom, agora, calha-me a mim não deixar perder o fio à meada. Voltando a falar sobre o efeito que as intervenções do Rogério poderão produzir. As leituras voluntária ou involuntariamente efectuadas pelas pessoas que assistiram/participaram/observaram uma das partes, ou a totalidade do projecto, carregaram sempre consigo aspectos que se referem ao conjunto das experiências que têm na vida de todos os dias e que formatam a sua humanidade e os seus limites como personalidade e como corpo, do menor ou maior desejo de implicação ou grau de afectação. Apesar disso, a singularidade da sua apropriação é, sem margem para dúvidas, espúria, porque os corpos estão, na maior parte dos casos, expressivamente fechados, revelando-se sob filtros, mesmo que a disponibilidade seja total. Porque os espectadores gostam, acima de tudo, de ser surpreendidos na sua intimidade, a ponto de ficarem estáticos e quase sempre sem reacção.

DJ Next Track — Eu tenho uma fantasia de que as pessoas, num ataque fulminante, fiquem todas paradas na pista. É o que se chama a “qualidade estática da imagem” congelada ou do momento decisivo. Eu vou querer um dia produzir isso: momentos não-decisivos quando estão à espera da explosão. Inacções. Estou a trabalhar arduamente para perceber como é que produzo algo para atingir isso e captar o que irá suceder. Degeneração ou regeneração? One day

©Luísa Casella, Vou A Tua Casa/Lado A, espectáculo, Lisboa, 2003.

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Nelson Guerreiro — Vou falar-te agora do trabalho. É impressionante: já no texto que escrevi demorei muito a entrar no leitmotiv. Sabes, sou disfuncional com o tempo. Já alguma vez ouviste aquela em que um tipo irlandês vai a uma pizzaria em Dublin? Bom, como agora não consigo obter a tua resposta, aqui vai. O pizzaiolo pergunta-lhe se quer a pizza cortada em seis ou em oito fatias e o tipo responde que é melhor ser em seis, pois acha que não consegue comer as oito. Como se ecoasse a lógica absurda do relativismo em que assentam este tipo de gagues, associável ao trabalho do Rogério, que prefere não assentar o seu trabalho numa única área — performance, arte pública, instalação, transdisciplinar — nem no local em relação ao projecto — espectáculo servido na casa das pessoas, no espaço público e na sua casa.

DJ Next Track — O que me estás a dizer é que ele não procura controlar totalmente o seu trabalho. Como se procurasse instaurar uma espécie de relativismo, cujo enunciado não se prende com isso, mas com o facto de o seu trabalho se destinar a poucas pessoas e haver esse reconhecimento de que cada leitura é individual, que cada pessoa fará dos espectáculos o que bem entender. Isso também me faz lembrar uma piada sobre um tipo que vai ao psiquiatra e diz: “Senhor doutor, estou muito preocupado porque só penso em sexo!” O psiquiatra mostra-lhe uma foto de uma vaca e pergunta: “O que é que isto lhe faz lembrar?” “Um homem e uma mulher a fazer amor”, responde o paciente. De seguida, o psiquiatra mostra-lhe uma foto de uma caixa de papelão. “E agora, o que é que isto lhe faz lembrar?” Resposta: “Um homem e uma mulher a fazer amor”. Depois, mostra-lhe uma foto com uma caixa de uma dúzia de ovos e diz: “Muito bem. E isto faz-lhe pensar nalguma coisa?” “Um homem e uma mulher a fazer amor”. “Bem”, diz o doutor, “tenho de lhe dizer que está mesmo obcecado com sexo”. “Eu?”, responde o paciente. “O doutor é que ainda não parou de me mostrar essas fotografias porcas”. O Edgar Degas também dizia que a arte não é o que se vê, mas o que se dá a ver aos outros.

Nelson Guerreiro — Nem mais, é mesmo essa ortopedia nos modos de ver e de apropriar que a trilogia do Rogério oferece. O significado do trabalho está, apesar da pulverização constante de informações que permite a desmontagem dos conteúdos, fora do seu controlo. Aliás, este livro até mostra que ele está interessado em pedir emprestadas outras interpretações.

DJ Next Track — E em que é que consiste a trilogia?

Nelson Guerreiro — Vou enviar-te o texto que escrevi e outros materiais de apoio para perceberes melhor e, de uma vez por todas, o trabalho do Rogério. Entretanto, e para continuarmos, envio-te algumas palavras-chave sobre as três partes que te ajudarão a entender a forma como eu as interpreto, quer em termos dos seus conteúdos, quer do tipo de experiências que procura oferecer. Vou A Tua Casa: espectáculo doméstico; espectáculo portátil; experiência imprevisível; experiência variável; instalação performativa; intimidade. No Caminho: serviço de encontros inesperados; co-criação; transformação de um encontro em arte; arte relacional; situação de um para um; relativismo e intransmissibilidade da experiência; imprevisibilidade; transferabilidade; hiper-espacialização do espectáculo. Lado C: a desprivatização da intimidade; a acessibilidade total ao projecto; visita guiada ao projecto: casa, deslocações durante o projecto, referências, citações espalhadas, etc.; oferta de paliativos ou valor nutricional acrescentado através do serviço de pequeno-almoço, almoço ou lanche, conforme horário; instalação performativa; espectáculo dentro do espectáculo; ambiguidade na atribuição dos papéis das pessoas presentes. Agora fico à espera do que vais fazer com isto e com o que te enviei.

DJ Next Track — Uma pessoa em cada uma das partes podia fazer coisas tão quotidianas como pensar na vida, tomar decisões, descontrair ou chorar… Só que num tempo, num espaço e numa modalidade relacional que é classificada como artística. Parece-me bem, se calhar até nos emocionamos mais quando estamos perante algo que é considerado arte. Interessa-me essa dimensão política no contexto de interferência entre performers e espectadores. Os diferentes modos de afectação do espectador face aos dispositivos — casa própria, espaço público, casa do artista — estipulam regras ou criam potencialidades para uma negociação constante. O mais interessante é que essa negociação nem sempre instaura a competição. Nem sempre inscreve os corpos em presença, no aqui e agora, como adversários. Porém, essa presença pode ser, no caso de haver desconforto ou inquietação de alguma das partes, regulada por gestos da ordem da conquista de poder, porque estão em jogo a produção, a transmissão e a recepção de algo. A esgrima pode ser uma metáfora possível para descrever as transacções e os movimentos efectuados durante cada acto performativo; mas a eminência do toque também pode ser uma motivação para ambos os agentes. E mesmo que se estabeleçam ligações perversas, que criem desequilíbrios e instalem a dialéctica do reconhecimento, indicando quem exerce o poder – quem são os dominadores ou quem são os dominados, base da assimetria originária do teatro —, não me parece que isso contribua para o projecto perder a sua dimensão relacional. E isso mesmo que o corpo já só mostre impaciência e atordoamento, ficando refém da situação, quando lhe é oferecida a possibilidade de fazer. A segurança ou a insegurança no espectador terá sido originada pela forma como o Rogério o terá requisitado, ou seja, a certeza ou a incerteza quanto à autenticidade da requisição. Porque o performer surge quase sempre como predador, e não como guia ou como facilitador de uma experiência sensível única e agradável, porque o espectador, assim que assume esse papel, toma consciência de que perdeu o pé perante o real. E perante o pavor de ser preso ou de ser possuído por uma coisa para a qual não temos uma resposta ou uma defesa ou uma explicação plausível ou uma certeza das suas boas intenções, normalmente a reacção é de resistência. Gostava era de saber se as posições dos dominadores ou dos dominados terão sido sempre ocupadas por quem desempenha e por quem assiste.

Nelson Guerreiro — É mesmo para isso que o livro serve, para tirar dúvidas, satisfazer curiosidades e, claro, para que as pessoas não se esqueçam de que isto já aconteceu, além do seu valor científico enquanto recurso e fonte de investigação para o futuro.

DJ Next Track — Pois! O livro serve para fazer história, ao mesmo tempo que pode funcionar como um belo álbum de memórias, um souvenir. É como ir aos museus, comprar uma caneca e expô-la na estante da sala, ou ir ao Hard Rock Café e comprar a T-shirt com a indicação do local. Vive-se para não se esquecer. Vive-se para depois se mostrar que se viveu.

Nelson Guerreiro — Sim. É a chamada tangibilidade da experiência. Mas é muito mais do que isso. Este objecto pretende prolongar as ligações entre o projecto e os espectadores. Potenciar a sua permanência no tempo. Porque normalmente o elo é estabelecido a três tempos: 1. antes do acto performativo, através de acções de comunicação que divulgam a sua realização e que disponibilizam alguma informação sobre o ponto de partida, processos criativos, conteúdos, intenções, efeitos e questões que determinado espectáculo pretende levantar; 2. durante o espectáculo; 3. após o seu acontecimento, através de conversas entre os intervenientes envolvidos e os espectadores que prolongam a vida do espectáculo por mais uns instantes. Depois, poderá existir uma revitalização através da saída de um texto que se lê e se deita fora, crítica! Ou quando se elabora um relatório que vai para as catacumbas do arquivo. Então, trata-se de uma publicação de documentos-memória: textos opinativos e reflexivos — cuja autoria pode ser do criador ou de figuras especializadas (como sejam o crítico ou o teórico) ou de convidados especiais que criam prolongamentos e contribuem para a sua continuidade, ao mesmo tempo que sustentam o enriquecimento do arquivo e a existência do património artístico-cultural colectivo. Fora de uma linguagem projectual, talvez excessivamente regulamentar, este livro é um objecto que vai andar por aí, de mão em mão, disposto nas estantes das casas, das bibliotecas e dos centros de documentação, à espera de mãos activas, de mentes curiosas, de utilizações motivadas pela inquietação.

DJ Next Track — Compro. Então ainda bem que vou fazer parte de uma coisa que pela primeira vez fixa as minhas palavras. Estou contente porque o ponto de partida não era o meu trabalho, a minha pessoa. Obrigado, porque estou muito feliz com esta conversa. Olhando para trás, sinto que acabámos por conseguir aquilo que nos propusemos, não achas?

Nelson Guerreiro — Sem dúvida. Apesar de nunca termos falado sobre as razões que me fizeram convidar-te, nem dos resultados esperados em função das minhas expectativas iniciais. Mas é melhor guardar isso para mim. Não se deve contar tudo, é o que dizem! O senso comum tem muito que se lhe diga. Anda toda a gente a fugir dele, mas às vezes ele é tão certeiro. Bom, também se não fosse assim não seria senso comum. Mas ainda há coisas que me suscitam grande curiosidade em relação a ti. Tens alguma proposta de local para o nosso próximo encontro?

DJ Next Track — Tenho, dentro das nossas cabeças. Para continuarmos este tête-à-tête.

©José Luís Neves, No Caminho [imagem promocional], Lisboa, 2005.

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