19.

CRONOLOGIA

A HISTÓRIA VERDADEIRA

Rogério Nuno Costa

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 ©José Luís Neves, Vou A Tua Casa/Lado C, retrato promocional, Lisboa, 2005.

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2002

Setembro – Apresento a peça “A Leitura Encenada É Um Género Que Não Faz O Meu Género” no Espaço Alternativo PT, em Braga, uma co-produção com a Companhia de Teatro de Braga. Trata-se da primeira investida nos territórios artísticos que seriam depois a minha imagem de marca: a inclusão de elementos do quotidiano na criação/construção teatral, a baralhação dos planos real e ficcional e a importância suprema/exclusiva dada ao contexto em que a obra é apresentada.
Outubro – Frequento o Mestrado em História de Arte Contemporânea na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, entrando pela primeira vez em contacto com teorias da arte conceptual, minimalismo, pop art, performance e site-specific. Datam deste período as primeiras ideias que conduziriam ao projecto “Vou A Tua Casa”: um trabalho que desse seguimento às linhas avançadas com “A Leitura Encenada…”, mas de uma forma mais depurada e sem os artificialismos comuns à construção teatral.
Dezembro – Mudo de casa: da Rua dos Navegantes (freguesia da Lapa) para a Rua do Olival (na mesma freguesia). É a primeira vez que vivo sozinho; uma série de mudanças (mais ou menos drásticas) operadas na vida pessoal invade as minhas preocupações artísticas de maneira avassaladora. Inicia-se, de forma irreversível, o trabalho insistente em cima de temas que confundem vida com trabalho artístico. No contexto académico, reflicto sobre a herança do Living Theatre, na voz de Judith Malina: “Eu não quero ser Antígona, quero ser Judith Malina”. E anoto.

©CTB, A Leitura Encenada É Um Género Que Não Faz O Meu Género, espectáculo, Espaço PT, Braga, 2002.

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2003

Janeiro – Concentro-me no projecto que pretendo fazer seguir a “Leitura Encenada…”. A dimensão biográfica impõe-se de forma ainda mais evidente, levando-me a pensar na minha condição de “estrangeiro” numa cidade onde não gosto de viver, e onde me encontro a desenvolver um trabalho artístico (como actor) que me insatisfaz. Tomo consciência da importância do espaço privado da casa como refúgio em relação a uma exterioridade urbana e anónima que me oprime. Escrevo no meu caderno de ideias que gostava de conhecer pessoalmente, um por um, todos os espectadores para quem alguma vez actuei. Decido iniciar um projecto artístico que reflicta sobre estas sensações, sem muita certeza do que daí poderia resultar.
Fevereiro – O “Vou A Tua Casa” (ainda sem título) começa a ganhar forma: um espectáculo teatral construído em cima de uma ideia de deslocamento espacial/geográfico, por imposição de acasos biográficos e do quotidiano. Uma fuga à insatisfação e à alergia mais epidérmica em relação a uma ideia de cidade. E um processo tão solitário quanto a minha nova experiência de vida na casa onde habito. Ao ler “A Intervenção Surrealista”, obra ensaística do poeta Mário Cesariny, e durante um trabalho para a Faculdade sobre o “novo realismo” e a obra de Pierre Restany, decido criar uma plataforma de reflexão performativa intitulada “Intervenções Realistas” (brincando com os títulos de Cesariny e Restany), onde o ainda embrionário “Vou A Tua Casa” se incluiria, a par de outros projectos não necessariamente artísticos.
Março – Concentrando-me no projecto “Casas” (título processual que uso nas minhas notas até sensivelmente meados de Abril), começo a definir metodologias de pesquisa e investigação que me levam a vários locais definidores da minha história na cidade (nomeadamente todas as casas onde vivi até à data, que fotografo). Deixo-me levar por esta “aventura artística (teatral?) em constante fuga do espaço e do tempo”, como escrevi na primeira de várias sinopses, pondo de lado outras preocupações mais ou menos artísticas da altura. O projecto-maior “Intervenções Realistas” é progressivamente abandonado.
Abril – Inicio uma fase de pesquisa e experimentação em casa de amigos por mim escolhidos. Não explicava o que pretendia: era recebido, tomava notas e saía. Inevitavelmente, e apesar de não conhecerem os reais objectivos, todos os anfitriões prepararam momentos especiais. Os “temas” universais do amor e do encontro impuseram-se. Decidi que a peça a fazer só poderia acontecer nas casas dos espectadores, em jeito de presente embrulhado e desembrulhado a dois, escolhendo o título literal “Vou A Tua Casa” como forma de enfatizar a acção concreta subjacente à minha intervenção.
Maio – Em Amares (terra natal) e Braga, são realizadas as últimas “visitas performativas”, em casa de amigos de infância e familiares. Apercebo-me que as diferenças culturais (ainda que ínfimas) na maneira como as pessoas vivem e organizam o seu espaço privado impõem inevitavelmente diferentes possibilidades de intervenção. Essa “casa” maior que é a terra onde nasci e cresci passa também a figurar na lista de possibilidades/prioridades dramatúrgicas, transformando-se numa das linhas de trabalho mais presentes e discursivas, quer para o “Vou A Tua Casa”, quer para outros trabalhos. A fotógrafa Luísa Casella junta-se ao projecto e realiza várias experiências com vista à produção de materiais promocionais; esses trabalhos acabam por inspirar o próprio processo criativo da peça. São escritos os textos que acabariam por fazer parte do primeiro guião líquido de “Vou A Tua Casa”; muitas das notas tiradas ao longo das visitas performativas são utilizadas.
Junho – Mudo de casa: da Rua do Olival (freguesia da Lapa) para a Rua da Alegria (freguesia de S. José). É durante um processo de trabalho, como actor, para o espectáculo“Capriiicho!”, de Lúcia Sigalho/Companhia de Teatro Sensurround, que consolido definitivamente o projecto e a consequente motivação pessoal para o realizar. No meu caderno de notas da altura, encontra-se uma lista de várias páginas intitulada: “Todas as coisas que eu não quero fazer, todas as coisas que eu me recuso a fazer, todas as coisas que eu não vou fazer mais”. A estreia de “Vou A Tua Casa” é marcada para Agosto.
Julho – Início da divulgação pública do projecto: performance teatral que acontece na casa do espectador, para um máximo de 3 pessoas de cada vez, duração até uma hora e meia, 10€ por espectador. Começo a receber as primeiras marcações. A jornalista Maria Sousa Veloso antecipa “Vou A Tua Casa” no jornal Euronotícias. Tento impor uma rotina tradicional de trabalho com vista à estruturação e materialização das ideias para a peça, mas tal torna-se tanto mais impossível quanto mais tento forçar o meu processo a abraçar métodos e metodologias de “ensaio” tradicionais. “Vou A Tua Casa” é preparado até ao mais ínfimo pormenor, mas nunca chega a ser ensaiado.
Agosto – O primeiro espectáculo acontece no dia 18, para a jornalista Patrícia Viegas (Diário de Notícias). Marina Nabais, Ana Gouveia e Alaíde Costa apoiam o espectáculo, assumindo a versão “itinerante” da frente de sala e bilheteira. Após o espectáculo-piloto, são realizados mais 8 espectáculos, alguns deles para agentes da Comunicação Social. “Vou A Tua Casa” é divulgado nos principais órgãos de imprensa e rádio. A Agenda Cultural de Lisboa recusa-se a divulgar o evento por este não acontecer num “espaço fixo”; após batalha burocrática de várias semanas, é concedida ao projecto uma página inteira de anúncio. No Bairro Alto, uma espectadora potencial confessa-me que se interessa vivamente pelo projecto, mas a forma como habita o seu espaço privado não permite que o mesmo seja invadido por uma realidade “artística”; apercebo-me de imediato que tenho muitos mais “espectadores” para além daqueles que realmente assistem à performance em suas casas.
Setembro – São realizados mais 6 espectáculos. José Carlos Ruiz publica crítica a “Vou A Tua Casa” na revista DIF. Luciana Leiderfarb publica extensa reportagem sobre o projecto no suplemento Actual do jornal Expresso. No mesmo jornal, João Carneiro faz uma análise ao espectáculo, colocando-o na mesma linha de trabalho teatral avançado por Lúcia Sigalho e Mónica Calle nos anos 90. Patrícia Viegas noticia o projecto no Diário de Notícias, fazendo aquela que é a primeira comparação com o trabalho do brasileiro Raul de Orofino, inventor do conceito de teatro ao domicílio. Certas publicações e bases de dados (como a CETbase do Centro de Estudos de Teatro), insistem em catalogar o “Vou A Tua Casa” de teatro ao domicílio, contra a minha vontade. Vários espectadores confundem os dois projectos (alguns chegando a incluir o meu nome e o de Raul de Orofino numa mesma “companhia teatral”); inicio nova batalha burocrática, no sentido de re-colocar o projecto no sítio a que pertence. No programa XPTO, do canal de televisão RTPN, aproveito para explicar os porquês da necessidade de uma distinção entre os dois projectos.
Outubro – Muitos espectadores convidam-me para festas de aniversário, espectáculos em escritórios e ateliers, jantares com grupos numerosos de pessoas, etc.; todas essas possibilidades são recusadas. São realizados 3 espectáculos em casas de pessoas que nunca vi. Participo, pela primeira vez, no Festival A8, em Torres Vedras, na qualidade de observador, participação que haveria de ser o início de uma longa colaboração com a estrutura Transforma AC, com extensões até aos projectos “Projecto de Documentação” e “A Oportunidade do Espectador”.
Novembro – Penso pela primeira vez numa possível continuação do projecto; datam deste mês as primeiras notas no meu caderno que referem o potencial desenvolvimento de uma trilogia. São realizados mais 3 espectáculos, o último dos quais em casa de Luísa Casella, com vista à produção de fotografias “de cena”. Apresento no Teatro Taborda o espectáculo “Saudades Do Tempo Em Que Se Dizia Texto”, proposta formalmente próxima da “Leitura Encenada…”, mas assumidamente criada numa zona de trabalho que não é, para mim, a mesma de “Vou A Tua Casa”, apesar da coincidência de temáticas e discurso autobiográfico.
Dezembro – Espectáculo especial para Cláudia Jardim e Victor Gonçalves, realizado em minha casa, no final do qual é formalizado o convite para que os dois actores participem no processo de criação para a versão seguinte de “Vou A Tua Casa”.

©Luísa Casella, Vou A Tua Casa [cartaz], Lisboa, 2003.

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2004

Janeiro – As jornalistas Joana Gorjão Henriques e Sara Gomes (com um intervalo de duas semanas) escrevem sobre “Vou A Tua Casa” no jornal Público. São realizados 3 novos espectáculos, um deles em casa de Simone Rocha (filmado para o programa de cultura urbana Pop Up, posteriormente transmitido na RTP2) e outro em casa de Maria de Assis (para o júri do Prémio Acarte desse ano).
Fevereiro – Esgota-se a primeira data avançada para o final da temporada lisboeta de “Vou A Tua Casa”. Após as aparições televisivas, chovem solicitações; decido prolongar o projecto por mais um mês. São realizados 4 novos espectáculos, um deles em casa de Inês Santos (filmado para o programa de divulgação cultural Magazine, posteriormente transmitido na RTP2, no qual é feita a primeira grande e justa diferenciação pública entre o “Vou A Tua Casa” e o trabalho de Raul de Orofino, pela mão da jornalista e crítica Cláudia Galhós). Tiago Bartolomeu Costa publica uma análise a “Vou A Tua Casa” no blog O Melhor Anjo. Liliana Peixoto noticia o projecto no jornal Tal&Qual. Sou convidado especial em programas de divulgação cultural de rádios tão díspares quanto a Antena 1 ou a Rádio Cidade.
Março – São realizados 4 novos espectáculos, um dos quais em casa de Tiago Neves, amigo que aceita que o “seu” espectáculo seja filmado na íntegra por um elemento alheio ao espectáculo: a cineasta Inês Oliveira. O objectivo era mostrar essas imagens no evento “Vou A Tua Casa – Director’s Cut”, mas o resultado desagrada-me, por não ser representativo daquilo que o projecto significa. Faz-se outro espectáculo no dia seguinte, sem espectadores e em minha casa, no qual o elemento câmara de filmar/Inês Oliveira é assumido como parte integrante do espectáculo; acabam por ser essas as imagens projectadas no evento “Vou A Tua Casa – Director’s Cut”, realizado no Centro em Movimento, com a participação de vários espectadores da peça e seguido de conversa/debate, com vista à finalização da carreira lisboeta do projecto. O primeiro indício da necessidade de um “Projecto de Documentação” nasce, porventura, na problemática levantada pela filmagem; pela primeira vez, sou confrontado com as características não-documentáveis do projecto e pelos desafios que o mesmo coloca aos formatos documentais tradicionais. Concorro com ‘Lado B’ e ‘Lado C’ ao Programa de Apoio a Projectos Pontuais do Instituto das Artes/Ministério da Cultura, na categoria de Teatro.
Abril – No dia 15, dá-se início ao processo de trabalho para o ‘Lado B’, com Cláudia Jardim e Victor Gonçalves. Os ensaios ocorrem em vários pontos da cidade. A Câmara Municipal de Lisboa (Pelouros da Cultura e da Juventude) apoiam a segunda parte de “Vou A Tua Casa”.
Maio – Continuam os ensaios para ‘Lado B’, com Cláudia Jardim e Victor Gonçalves: encontros performativos, discussões, visitas “antropológicas” a determinados espaços da cidade, surpresas na forma de desafios teatrais… Após várias tentativas (‘A Caminho’, ‘Caminho’, ‘Entre’), é escolhido o título genérico para o projecto: “No Caminho”. Os criadores decidem construir três solos distintos e independentes, que caberia ao espectador escolher (a par do local público e da hora a que a performance acontece).
Junho – Mudo de casa: da Rua da Alegria (freguesia de S. José) para a Rua Amadeo de Souza Cardoso (freguesia de Alcântara). O processo para “No Caminho” continua: primeiras experiências-cobaia com alguns espectadores convidados. Estreia no Centro Cultural de Belém o espectáculo “ACTOR”, continuação lógica de “Saudades Do Tempo Em Que Se Dizia Texto”; de forma mais evidente, posso agora traçar uma distinção clara entre duas vias de trabalho, não necessariamente antagónicas, mas complementares: a construção de espectáculos-tese (como foram designados pela crítica os espectáculos “Saudades…” e“ACTOR”), e as experiências performativas à volta da responsabilização e do papel do espectador perante a obra (via explorada essencialmente pela trilogia “Vou A Tua Casa” e projectos que se lhe seguiram).
Julho – O Instituto das Artes/Ministério da Cultura não apoia as segunda e terceira partes da trilogia “Vou A Tua Casa”. É publicado o número 1 da revista Artinsite, editada pela Transforma AC/Torres Vedras, onde se lê o texto “Objecto Sensível (em 9 partes)”, no qual discorro sobre as relações entre o conceito de site-specificity e a (minha) prática teatral.
Agosto – Por razões pessoais, Cláudia Jardim e Victor Gonçalves abandonam “No Caminho”. Assumo sozinho as rédeas do projecto, entretanto programado para estrear no Festival A8, em Torres Vedras. Luísa Casella realiza, uma vez mais, experiências fotográficas várias, desta vez em locais exteriores do subúrbio de Lisboa. Algumas dessas experiências haveriam de ser utilizadas como material promocional para a primeira fase pública de “No Caminho”, que se estende até ao final do ano.
Setembro – É aberto o blog do projecto “Vou A Tua Casa”, com a disponibilização dos três guiões respectivos às três partes da trilogia, numa altura em que só a primeira estava concluída, a segunda prestes a estrear e a terceira ainda em projecto. O dispositivo electrónico depressa se transforma no caderno de notas por excelência do projecto, disponibilizando-se informações várias (processuais e outras), algumas delas em tempo real. O grupo de “espectadores” do projecto cresce exponencialmente, realidade que passa também a fazer parte das minhas preocupações processuais: mais do que uma ferramenta sintética de divulgação, o blog transforma-se a pouco e pouco numa parte inextricável do projecto. São retomadas as experiências-cobaia, já com vista à experimentação do enunciado performativo que será depois apresentado em Outubro, realizando-se um total de 6 “encontros no caminho” com espectadores convidados.
Outubro – “Vou A Tua Casa/Lado A” é apresentado durante dois dias em Torres Vedras, inserido no Festival A8, sob proposta da Transforma AC. É a primeira vez que o projecto é apresentado fora da cidade de Lisboa. São realizados apenas 2 espectáculos, para um total de 6 espectadores. No fim-de-semana seguinte estreia “No Caminho”, no mesmo Festival; são realizados um total de 4 espectáculos/4 espectadores. É lançado o número 1 da revista Sinais de Cena, onde Mónica Guerreiro faz uma análise a três espectáculos: “Vou A Tua Casa”, “Saudades Do Tempo Em Que Se Dizia Texto” e “ACTOR”.
Novembro – “Vou A Tua Casa” viaja durante uma semana para Londres (Inglaterra), para se apresentar no contexto do evento “Postscript”, plataforma de internacionalização de criadores portugueses pensada por Tiago Neves (O Resto AC/Lisboa) e Paula Roush (msdm/Londres). São realizados 9 espectáculos para um total de 31 espectadores. Escrevo no diário de bordo electrónico que a experiência londrina mudou substancialmente a percepção que tinha da peça, informação que passaria para as temporadas seguintes. O crítico Zeigam Azizov faz uma análise às propostas apresentadas em “Postscript”, publicada no site da estrutura [msdm]. A realização de “Vou A Tua Casa” em Londres tem destaque num programa de divulgação cultural da RTP Internacional, conduzido pela jornalista Rita Jordão. “No Caminho” estreia oficialmente em Lisboa, sob o lema Mesmo sendo verdade, vais achar sempre que estou a representar, frase de Cláudia Jardim reciclada do processo iniciado em Abril: uma performance para um só espectador, num local público à sua escolha, duração e preço variáveis.
Dezembro – Recebo pela primeira vez contactos de programadores (maioritariamente nacionais), que me pedem informações sobre a peça, mais concretamente “imagens filmadas”. Envio a todos informações escritas e fotografias promocionais, mas não imagens filmadas, aludindo à natureza ‘não-documentável’ da proposta. As dificuldades de circulação e de internacionalização (pelo menos nos moldes tradicionais) impõem aqui um segundo indício da necessidade de um “Projecto de Documentação”. José Luís Neves, fotógrafo, inicia a sua colaboração no projecto, produzindo materiais promocionais para a segunda fase da carreira de “No Caminho”, em Lisboa. Volto à ideia das “Intervenções Realistas”, mas apercebo-me que o “Vou A Tua Casa” acabou naturalmente por se assumir como imperialista em relação às restantes acções. Nasce a ideia de ramificação do projecto (que era já uma trilogia) por pequenas performances capazes de fazer a ligação da via de trabalho preconizada pelo “Vou A Tua Casa” à linha de trabalho que estrutura os designados espectáculos-tese; a este novo projecto dou o título de “FUI” (pretérito de Vou), cujo primeiro esboço aconteceria alguns meses depois.

©José Luís Neves, No Caminho (Vou A Tua Casa/Lado B), fotografia promocional, Lisboa, 2004.

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2005

Janeiro – Cartazes a anunciar a performance “No Caminho” são espalhados pela cidade. Para além do título genérico, decido sub-titular a proposta com a denominação “Vou A Tua Casa/Lado B”. São realizados 4 encontros no caminho, dois deles com espectadores que não conhecia. Tiago Bartolomeu Costa faz referência ao “Vou A Tua Casa” na comunicação A Brief Vision On The Relation Between Creation And Production In Recent Portuguese Theatre, apresentada ao Seminário para Jovens Críticos de Teatro (PONTI ’04) e publicada em Teatrul Azi, publicação búlgara.
Fevereiro – Acontecem 5 novos encontros no caminho, um deles com Diogo Leôncio, experiência que se encontra descrita neste livro, aqui. É publicado na revista DIF um texto crítico de Natacha Paulino sobre a performance “No Caminho”. Para o Guia do Lazer, suplemento do jornal Expresso (entre outras publicações), a palavra espectáculo não é suficiente para catalogar “No Caminho”; este é divulgado como teatro itinerante. Cansado de batalhas burocráticas, desisto e concentro-me em coisas mais importantes.
Março – É realizado um “Vou A Tua Casa/Lado A” especial para Beatriz Portugal, investigadora nas áreas do teatro e da arquitectura paisagista, que decide estudar o projecto numa fase inicial da sua tese. Alguns dias depois, realizo mais um ‘Lado A’ especial, desta vez organizado pela teatróloga Maria Helena Serôdio, em casa da espectadora Cláudia Oliveira. O fotógrafo José Luís Neves experimenta as primeiras soluções fotográficas promocionais para a terceira parte da trilogia que se avizinha. É realizado mais um encontro no caminho em jeito de blind date.
Abril – É anunciado no blog o início do processo para a concretização de ‘Lado C’, terceira e última parte da trilogia, com estreia apontada para o mês de Maio (primeira fase experimental), sob o lema “A responsabilização total do espectador”. Convido um grupo de profissionais de várias áreas para serem observadores do processo: Mónica Guerreiro, Luís Firmo, Teresa Prima, Tiago Bartolomeu Costa e Nelson Guerreiro. É durante o processo de trabalho para um espectáculo deste último (“Vaivém – a história verdadeira de um projecto transdisciplinar”, CITEC/Montemor-o-Velho), que concretizo conceptualmente a maior parte das ideias para ‘Lado C’.
Maio – Tiago Bartolomeu Costa publica simultaneamente no blog ‘O Melhor Anjo’ e no número 1 da revista Título Provisório uma análise crítica a “No Caminho”. Apresentação do primeiro esboço do projecto “FUI”, plataforma de reflexão performativa sobre a trilogia “Vou A Tua Casa”; intitulado “FUI – esboço #1”, é apresentado no Reservatório da Patriarcal, em Lisboa, e inserido no evento “Noite dos Museus”, uma produção do Museu da Água. Dias depois, é oficialmente fechada a segunda parte da trilogia, num evento intitulado “No Caminho – Final Cut”, novamente realizado no Centro em Movimento, no seu programa mensal 100 Horas de Conversa; entre outras acções, é realizada uma conversa/debate sobre “No Caminho”, na qual participam Mónica Guerreiro, Tiago Bartolomeu Costa, Raquel Dionísio e Sofia Neuparth. No dia seguinte, “Lado C” (título genérico oficial) é divulgado como “disponível para consumo”: performance que acontece na casa do criador, para número ilimitado de espectadores, duração e preço variáveis.
Junho – Iniciam-se as reuniões/debates com os observadores ligados ao “Lado C”. Decido divulgar, na minha própria casa, espectáculos de outros artistas. É aberto um livejournal de cariz autobiográfico com o nome “FUI”, em diálogo directo com o projecto performativo homónimo.
Julho – Experiências-cobaia para “Lado C” com alguns espectadores convidados. O primeiro espectáculo experimental acontece para a espectadora/observadora Cláudia Madeira. Tiago Bartolomeu Costa publica no número 6 da revista Textos & Pretextos (Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) o texto “Lugares de Representação”, onde cita o trabalho “Vou A Tua Casa” em articulação com espectáculos da autoria de Lúcia Sigalho e Mónica Calle.
Agosto – São realizados mais dois espectáculos experimentais “Lado C”, para grupos distintos de espectadores interessados. Apresentação do segundo esboço do projecto “FUI”, intitulado “FUI – esboço #2”, e apresentado na casa da Censura Prévia, em Braga, no evento “Arco da Censura Prévia – festa 0”. Vários pedidos de apoio para a concretização de “Lado C” são recusados. O projecto “Vou A Tua Casa” é destaque no programa Curto Circuito, transmitido pela SIC Radical.
Setembro – Encontro no caminho especial com o espectador Guilherme Ferreira, estudante de Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que decide trabalhar o projecto “Vou A Tua Casa” no contexto académico de várias das suas áreas de estudo. Apresentação do terceiro esboço do projecto “FUI”, intitulado “FUI, esboço #3”, no Auditório de Bolso do Teatro Universitário do Minho, em Braga. No dia em que o blog do projecto faz um ano, decido publicar todas as cartas dos pedidos de apoio recusados.
Outubro – Natacha Paulino publica análise crítica a “Lado C” na edição de Outubro da revista DIF. Mónica Guerreiro escreve um perfil sobre Rogério Nuno Costa para a rubrica “Lisboeta” da Agenda Cultural de Lisboa, focando especificamente o “Lado C” em curso. Começo lentamente a mudar-me para uma nova casa, na rua do Passadiço, freguesia do Coração de Jesus. Com o apoio do grupo de observadores, e após consulta junto de algumas individualidades, começo também a pensar na hipótese de suspender o “Lado C”, devido à falta de apoios que me permitam realizar os espectáculos de uma forma mais segura e sustentada.
Novembro – Início da residência artística de um mês em Torres Vedras para a concretização de uma “versão Torres Vedras” do projecto “FUI”. Comunico no blog a suspensão, por tempo indeterminado, de “Lado C”, num texto em que demonstro o meu profundo desagrado em relação às políticas culturais e à forma como projectos de características “inclassificáveis” são sistematicamente chumbados; via e-mail, recebo dezenas de mensagens de amigos e desconhecidos, que me sugerem formas de superação, incitando-me a não matar o projecto. Decido concentrar-me no projecto “FUI”, que deixa de ser uma sucessão de esboços com vista a uma aglutinação futura, para se transformar num conjunto de peças fechadas em si mesmas. A palavra esboço, contudo, é mantida: o quarto da série, intitulado “FUI, esboço #7”, é apresentado no Teatro Taborda, em Lisboa, na 7.ª Mostra de Teatro Jovem de Lisboa. Durante esse espectáculo, é apresentado publicamente o documento “Dogma 2005”, espécie de sistematização em regras das premissas teórico-práticas preconizadas pelo projecto “Vou A Tua Casa”, que teve depois utilização efectiva no projecto seguinte, “A Oportunidade do Espectador”. São apresentados logo a seguir os resultados obtidos durante a residência em Torres Vedras, divididos em três acções distintas: ‘Changing Rooms’, ‘The Fabulous Life Of…’ e ‘While You Were Out’, no Hotel Império e no espaço Tzero, em Torres Vedras. O terceiro indício da necessidade de um “Projecto de Documentação” surge na primeira dessas acções (‘Changing Rooms’), que consistia num pequeno vídeo documental sobre a experiência memorial de um espectáculo que havia acontecido um ano antes em casa de uma espectadora torreense (Maria de Jesus). Apercebo-me que há formas e estratégias de documentar o “Vou A Tua Casa” que, embora utilizando os formatos tradicionais (vídeo, texto, fotografia), acabam por impor metodologias de trabalho ligeiramente desviantes, devido à natureza do trabalho artístico em questão.
Dezembro – A socióloga Cláudia Madeira refere as três partes da trilogia “Vou A Tua Casa” num texto sobre arte utópica publicado no número 4 da revista Sinais de Cena. Apresentação do sexto esboço do projecto “FUI”, intitulado “FUI, esboço #6 (+ #4, + #5)”, na Casa Conveniente, em Lisboa. Tiago Bartolomeu Costa aponta “No Caminho” como um dos espectáculos do ano (2005) no seu blog ‘O Melhor Anjo’.

©José Luís Neves (fotografia e design), Lado C (3.ª parte da trilogia “Vou A Tua Casa”), cartaz, Lisboa, 2005.

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2006

Janeiro – Apresentação de “Vou A Tua Casa/Lado A” na Covilhã, uma iniciativa da associação Quarta Parede; em dois dias, faço 6 espectáculos para um total de 38 espectadores. Apresentação do sétimo esboço do projecto “FUI”, intitulado “FUI, esboço plástico”, no Museu dos Biscainhos, em Braga, inserido na exposição colectiva este é o meu corpo, comissariada por Rui Effe. “Vou A Tua Casa – Projecto de Documentação” concorre ao Programa de Apoio a Projectos Pontuais do Instituto das Artes/Ministério da Cultura, na área Transdisciplinar.
Março – Reposição de “FUI, esboço #6” e de “FUI, esboço plástico” na Casa Conveniente, em Lisboa, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.
Abril – Após o período de suspensão, reinicia-se o processo para “Lado C” (nova versão), com vista à sua apresentação no Festival Alkantara. O projecto “Vou A Tua Casa – Projecto de Documentação” (no qual a nova versão de “Lado C” se inclui) é apoiado pelo Instituto das Artes/Ministério da Cultura.
Maio – O observador Nelson Guerreiro convida-me a falar sobre “Vou A Tua Casa” numa aula da unidade curricular Correntes Teatrais Contemporâneas, na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, onde é docente. Abrem as marcações para “Lado C”. Convido Verónica Metello e Cláudia Madeira a juntarem-se ao grupo de observadores. Convido também todos os artistas presentes no Festival Alkantara para prepararem para o “Lado C” uma apresentação de 5 minutos em diálogo com o trabalho em questão; acedem Inês Jacques, André e. Teodósio, Pedro Penim, Sónia Baptista e Patrícia Portela. As jornalistas Vera Moutinho, Marta Pais Lopes, Catarina Saraiva e Rita Henriques fazem reportagem especial sobre o “Vou A Tua Casa” para a cadeira de Ateliê de Jornalismo Televisivo do Curso de Comunicação Social da Escola Superior de Comunicação Social.
Junho – “Lado C” (sub-intitulado “3.ª parte da trilogia Vou A Tua Casa”) é finalmente apresentado em minha casa, na rua do Passadiço (Lisboa), no contexto do Festival Alkantara. Os espectáculos espalham-se por duas semanas, em três sessões diárias (pequeno-almoço, almoço e lanche), para 4 espectadores de cada vez. Após o Festival, a peça é reposta durante uma semana (versão jantar), para grupos de 2 espectadores de cada vez. São realizados 26 espectáculos para um total de 105 espectadores (artistas e observadores convidados incluídos). No blog, publicam-se diariamente reports dos espectáculos, menu servido e respectivas participações dos espectadores. João Carneiro publica crítica a “Lado C” no jornal Expresso. Tiago Bartolomeu Costa abandona o projecto.
Julho – Iniciam-se as conversações para o “Projecto de Documentação”, com vista à produção de um livro (este) e à realização de um vídeo-documentário, entre outras actividades paralelas. No dia 3, realiza-se a primeira reunião introdutória, com a presença do núcleo duro de colaboradores: Mónica Guerreiro, Luís Firmo, Nelson Guerreiro, José Luís Neves, Nuno Coelho e Verónica Metello; ausentes: Teresa Prima e Cláudia Madeira. Cada colaborador fica encarregado de convidar um terceiro interveniente, que possa produzir algo em diálogo directo ou indirecto com o trabalho do colaborador anfitrião. No dia seguinte, é realizado um “Lado C” especial, com a participação da observadora Mónica Guerreiro, da artista convidada Beatriz Cantinho e das jornalistas Vera Moutinho, Marta Pais Lopes, Catarina Saraiva e Rita Henriques, que filmam todo o processo de preparação do espectáculo e respectiva realização. É enviada a um grupo de mais de 170 subscritores a primeira newsletter do “Projecto de Documentação”. A RTPN transmite uma reportagem sobre o “Vou A Tua Casa”, realizada pouco antes da concretização de “Lado C” no Festival Alkantara.
Agosto –blog sofre uma intensa remodelação, com a inclusão de novas rubricas, no sentido de cumprir com dimensões impostas pelo “Projecto de Documentação”. É realizado um “No Caminho” e um “Lado C” especiais para a colaboradora Teresa Prima, de que se fala aqui.
Setembro – Cláudia Madeira abandona o projecto. É publicado no blog o primeiro de vários testemunhos escritos por espectadores do “Vou A Tua Casa”, numa rubrica intitulada ‘VoxPop’; outros textos foram sendo publicados ao longo de todo o processo documental e até ao final de Abril de 2007, acabando alguns por vir a ser publicados neste livro, na rubrica “A Oportunidade do Espectador”. “FUI, esboço plástico” é apresentado na exposição colectiva ‘All My Independent Women’, no espaço EIRA 33, em Lisboa (comissária: Carla Cruz). Inserido no “Projecto de Documentação”, o “Vou A Tua Casa/Lado A” é apresentado na cidade de Braga, com produção da Censura Prévia AC, seguido de conversa/debate sobre o trabalho. São feitos 5 espectáculos para um total de 15 espectadores. Faço um “No Caminho” especial para o colaborador Ramiro Guerreiro. É realizado um debate em casa de Mónica Guerreiro em torno de várias questões caras à trilogia; estão presentes Mónica Guerreiro (que modera), os críticos João Carneiro e Ana Pais, a actriz e crítica Natacha Paulino, os actores André e. Teodósio e Cláudia Jardim, a socióloga e investigadora Cláudia Madeira (que assim retorna ao projecto) e a bailarina e coreógrafa Beatriz Cantinho. Um texto-resumo desse debate encontra-se publicado neste livro, aqui.
Outubro – Inicia-se a residência de um mês em Torres Vedras (Festival A8 LAB 2006/Transforma AC), com vista à concretização de quatro das actividades paralelas ao “Projecto de Documentação”: um Projecto de Instalação, um Projecto de Workshop, um Projecto de Performance e um Projecto de Conferência. Inicia-se também o processo de trabalho com o artista americano Jeremy Xido, com vista à produção e realização do documentário em vídeo (parte do projecto apoiada pela rede Advancing Performing Arts Project). Inicia-se na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha o workshop intensivo “Vou A Tua Casa”, incluído na cadeira de Seminário do 3.º ano do Curso de Teatro. Volto a estudar linhas de trabalho caras à questão da “responsabilização máxima do espectador”, reflexão iniciada com o ‘Lado C’ pré-suspensão (2005), mas não retomado para a “versão Alkantara” (2006). Nasce aqui a génese do projecto “A Oportunidade do Espectador”, seguimento lógico da trilogia. Na mesma cidade, e incluído no Festival Sonda, é apresentado “Vou A Tua Casa/Lado A”, realizando-se 6 espectáculos para um total de 23 espectadores. No final do mês, é apresentado “Vou A Tua Casa/Lado C” (na sua versão Outside Home) no Festival Internacional de Dança Contemporânea de Évora “Habitar A Cidade”, a convite da Companhia de Dança Contemporânea de Évora. São realizados 6 espectáculos para um total de 30 espectadores; participam artistas e observadores da cidade de Évora convidados pela Companhia de acolhimento. O crítico Paulo Eduardo Carvalho refere o trabalho “Vou A Tua Casa” na sua comunicação Between Drama and Dramaturgy, or What Is (Really) Changing in Portuguese Contemporary Theatre, or Should We Say The Performing Arts?, no âmbito do Congresso Internacional da Associação de Críticos de Teatro, em Seúl, na Coreia.
Novembro – Continua a residência em Torres Vedras. O Projecto de Instalação, em modo in-progress, abre ao público. Inicia-se uma mini-residência com a colaboradora Teresa Prima e a sua convidada Maria Lemos, com vista à realização do Projecto de Performance. Nasce o conceito/projecto “Life-Zone”, apêndice dos projectos-mãe “Vou A Tua Casa” (meu) e “IT” (da Teresa), a desenvolver futuramente pelo trio. Realiza-se, durante 4 dias, o Projecto de Workshop, com um total de 6 participantes não-artistas. Decido que “A Oportunidade do Espectador” irá incluir, também, participantes dos workshops. Devido a questões técnicas, os Projectos de Conferência e de Performance são cancelados e adiados para Janeiro de 2007.
Dezembro – Apresentação pública, intitulada “Show Case/Avalição Final”, dos resultados do workshop/seminário orientado na ESAD/Caldas da Rainha sobre as questões levantadas pela trilogia “Vou A Tua Casa”; participam 17 alunos. André Guedes desloca-se a Amares para realizar o seu trabalho fotográfico publicado neste livro. Inserido no “Projecto de Documentação”, é apresentada a performance “Vou A Tua Casa/Lado A” no Porto, com produção d’A Sala, seguida de conversa sobre o trabalho moderada por Susana Chiocca. O texto “Outside Home Version”, sobre a apresentação de “Lado C” em Évora, é publicado no número 2 dos Cadernos de Dança da Companhia de Dança Contemporânea de Évora.

©Nuno Coelho, Lado C (postal), Festival Alkantara, Lisboa, 2006.

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2007

Janeiro – Conclusão do trabalho com Jeremy Xido, finalizando-se toda a fase inicial de conceptualização do vídeo-documentário. Realização do Projecto de Conferência, com vista a uma primeira apresentação pública dos resultados obtidos com o “Projecto de Documentação”; participam os colaboradores Mónica Guerreiro, Luís Firmo, Nuno Coelho, Nelson Guerreiro, José Luís Neves, Teresa Prima, Ramiro Guerreiro, André Príncipe, José Pedro Cortes e Maria Lemos. No dia seguinte, realiza-se o Projecto de Performance, genericamente intitulado “Life Zone”, com a participação/criação de Teresa Prima, Maria Lemos e Rogério Nuno Costa.
Fevereiro – Mudo novamente de casa, da Rua do Passadiço, em Lisboa, para a Rua Sacadura Cabral, em S. Pedro do Estoril. A mudança é captada em vídeo com vista à inclusão no documentário. Realiza-se no Porto a terceira edição do workshop “Vou A Tua Casa”, com organização do Núcleo de Experimentação Coreográfica; dura 4 dias e participam 8 artistas. Dá-se, assim, oficial início ao processo que irá conduzir ao projecto “A Oportunidade do Espectador”. “FUI, esboço plástico” é apresentado em Braga, no ciclo de mini-espectáculos ‘Para Ficar A Perceber Ainda Menos Sobre O Amor’, com organização da Censura Prévia AC. Iniciam-se as filmagens para o vídeo-documentário “Fui A Tua Casa”, com apoio da Andar Filmes/Teatro Não.
Março – Continuam as filmagens para o vídeo-documentário. O projecto “A Oportunidade do Espectador” concorre ao Programa de Apoio a Projectos Pontuais da Direcção-Geral das Artes/Ministério da Cultura.
Abril – Continuam as filmagens para o vídeo-documentário. Surge a ideia de se dividir o projecto de documentário em 6 partes, a cada uma correspondendo um tipo de espectador “Vou A Tua Casa” diferente, assim injectando uma dimensão interactiva no visionamento do filme, cara a toda a trilogia.
Maio – “FUI, esboço plástico” é apresentado no Festival Internacional “AD-WOOD” 2007, no Purex, em Lisboa. São concluídas as filmagens para o vídeo-documentário “Fui A Tua Casa”. A jornalista Sarah Adamopoulos questionando-me para o seu blog A Espuma dos Dias, perguntando-me sobre “Vou A Tua Casa”, projectos-apêndice e desenvolvimentos futuros.
Junho – O projecto “A Oportunidade do Espectador” é apoiado pela Direcção-Geral das Artes/Ministério da Cultura, na área de Transdisciplinares. São realizadas algumas filmagens suplementares para o vídeo-documentário “Fui A Tua Casa”, em Braga e no Porto, com vista à consolidação da ideia dos seis mini-filmes.
Julho – No final do mês, acontece a quarta edição do workshop “Vou A Tua Casa”, inserida no Curso Internacional de Artes Performativas FC Verão.
Agosto – Inserido no Festival DanceKiosk, em Hamburgo, é orientada a quinta edição do workshop “Vou A Tua Casa”. No âmbito do mesmo Festival, é apresentada durante dois dias a primeira parte da trilogia, com o título em alemão “Ich Komm zu dir nach Haus”; são realizados 5 espectáculos para um total de 34 espectadores. O projecto tem destaque em vários órgãos locais de comunicação social; no diário Hamburger Abendblatt, a jornalista Armgard Seegers e o crítico Klaus Witzeling debatem o conceito do projecto, arvorando a própria ideia de arte como enunciação.
Setembro – O projecto de música electrónica Behave!, encabeçado pelo meu irmão (João Pedro Costa), compõe no seu estúdio em Amares algumas bases sonoras, assumidamente inacabadas, para serem incluídas no documentário. Em Braga, no E S P A Ç O da Censura Prévia AC, acontece a sexta edição do workshop “Vou A Tua Casa”. O designer Nuno Coelho inicia a concepção gráfica deste livro.
Outubro – As seis versões do documentário “Fui A Tua Casa” são editadas por Rui Ribeiro. São realizadas as duas últimas edições do workshop, a primeira em Berlim (na TanzFabrik, Festival Frabrikationen ’07), a segunda em Almada (no Ponto de Encontro de Cacilhas, com organização da associação Ninho de Víboras); juntam-se assim mais 4 novos participantes ao projecto “A Oportunidade do Espectador”, que seguirá nos meses seguintes noutras cidades e noutros contextos. Os participantes já seleccionados para o projecto invadem, literalmente, o blog do “Vou A Tua Casa”. É o início de mais um fim…

©José Luís Neves, workshop “Vou A Tua Casa”, Centro em Movimento, Lisboa, 2007.

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No final de Outubro de 2007, conto um total de 132 espectáculos realizados em 9 cidades de 3 países. Desses, 71 pertencem ao ‘Lado A’, 26 ao ‘Lado B’ e 35 ao ‘Lado C’. Número total de espectadores: 449. Destes, 259 são mulheres, 190 são homens, 1 é transsexual; 128 são amigos e conhecidos, 111 são conhecidos de vista ou de nome, 210 são totalmente desconhecidos; 358 são portugueses, 32 alemães, 20 ingleses, 5 brasileiros, 4 franceses, 3  escoceses, 2 suecos, 2 brasileiros, 2 turcos, 2 espanhóis, 2 austríacos, 1 polaco, 1 italiano, 1 holandês, 1 belga, 1 arménio e 1 iraniano; 11 têm nacionalidade indefinida. 235 são artistas; 47 jornalistas ou críticos; 17 crianças; 12 animais. Destes, 8 são gatos, 2 são tartarugas, 1 é hamster e 1 é cão. Dos 210 totalmente desconhecidos, 40 nunca mais os vi, 141 encontrei-os por diversas vezes em contextos sociais e/ou mantive contacto com eles por e-mail/MSN, 29 tornaram-se meus amigos para sempre e é como se ainda estivéssemos “em performance” de cada vez que nos encontramos. Apaixonei-me por 6. 12 apaixonaram-se por mim. Dos 449, lembro-me da cara de todos. Objectivo cumprido.

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