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DIÁRIO DE BORDO

LIFE-ZONE

Maria Lemos + Rogério Nuno Costa + Teresa Prima

©Teresa Prima, carta enviada a Rogério Nuno Costa, Leça da Palmeira, 2006.

(Início)

“Man is most beautiful when he – like a child building a castle of sand at the shore – is completely possessed with what he is doing”.

[Karlheinz Stockhausen, 1968]

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Conheci a Teresa Prima em Outubro de 2003. Nessa altura, o “Vou A Tua Casa” contava apenas três meses de existência. Era um projecto uno, com fim marcado para daí a uns meses; não lhe imaginava duas sequelas, nem projectos paralelos, nem edições retrospectivas, nem viagens ao estrangeiro. Estava em Torres Vedras, na condição de observador de um Festival de “artes contemporâneas em contextos locais”, incumbido de produzir textos sobre cada uma das propostas apresentadas (a Teresa era uma das artistas presentes, com o espectáculo “Segunda Casa”). Tendo assumido uma abordagem semi-criativa/semi-analítica ao meu acto de observação, decidi desafiar cada artista a embarcar numa espécie de entrevista “ao contrário”: eram eles a fazer as perguntas, e não eu. Foi, por isso, com uma dose considerável de embaraço que me dirigi até à janela da sala da Tuna Comercial Torreense, onde a Teresa me esperou após o espectáculo. Fez-me perguntas idênticas às que faria a qualquer espectador, sem prestar muita atenção ao facto de estar perante outro artista (a fazer as vezes de crítico) com o perverso intuito de ter que escrever a seguir. Gostei. Hoje, directamente do gravador de voz, recordo:

(1.) Qual é a sensação, ou o que é que te desperta ires ver um espectáculo e perceberes que ele não termina no local onde o vais ver, que tem mais dois projectos agregados a ele?;
(2.) Qual é a sensação de veres um espectáculo que acontece numa casa (tocas à campainha, entras numa sala…); o que é ser visitante?; [aqui desvenda-se quem sou, o que faço e a coincidência dos dois universos criativos; “Ah! És tu?” — risos];
(3.) Como é esta sensação de viagem, o facto de teres que ir à procura do espectáculo?;
(4.) Como é que lidas com as decisões dos outros espectadores, ou como é que tomas as tuas próprias decisões?”.

Bateu tudo muito certo: sorrimos de orelha a orelha e ficámos curiosos. No ano seguinte, sou eu o artista, é ela a espectadora. O projecto já é trilogia, e eu estou no mesmo Festival de Torres Vedras a apresentar o “Lado A” e a estrear o “Lado B”. Sem casa própria naquela cidade, a Teresa decide marcar um espectáculo no quarto do Hotel Império. No caderno de notas electrónico, escrevi: “Terá sido, provavelmente, um dos melhores Vou A Tua Casa que fiz, a vários níveis conceptuais e emocionais. Depois disto, a Teresa pediu-me ajuda para a sua performance; eu pedi-lhe ajuda para a minha”. Confirmação quase-cósmica: ficámos amigos. Correspondemo-nos, contaminámos os processos um do outro, observámo-nos. Em 2005, convidei-a para consultora do “Lado C”; em 2006 para colaboradora do “Projecto de Documentação”. E a Teresa arrastou com ela a Maria, aluna e performer que já me conhecia à distância do blog e que depressa se revelou o elemento terceiro (logo, criativo) em falta. Decidimos empreender, em performance, uma espécie de “vida especificamente vivida”, um encontro a-temporal e des-espacializado. A três. Por isso é que o conteúdo deste diário extravasa os limites do “Projecto de Documentação”, porque o que fizemos entre Novembro de 2006 e Janeiro de 2007 (no contexto da residência artística “Life-Zone”, em Torres Vedras), tem raízes passadas e vontades futuras que não queremos ignorar. Contar a história toda, desde o menos infinito que a origina ao mais infinito que a projecta, parece-nos o mais honesto. Por enquanto. À hora a que termino este texto, está a Teresa a chegar à cidade indiana de Bangalore, para onde foi estudar e aprofundar as matérias do seu trabalho durante um ano. A continuação desta nossa life-especificidade passará também por lá. Entretanto, vamos continuando a trocar vontades: eu, a Teresa e a Maria. Neste livro (em 8 partes) por fechar, ou noutro qualquer.

[Rogério Nuno Costa, Agosto 2007]

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[Apresentam-se a seguir os 8 capítulos deste diário de bordo, com indicação do tipo de conteúdos presente em cada um e respectiva localização geográfica, temporal e contextual; os conteúdos propriamente ditos só serão disponibilizados na edição física do livro.]

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(Primeira Parte)

Entre hoje e amanhã

Excertos da correspondência trocada por Teresa Prima e Rogério Nuno Costa durante o processo de trabalho para a construção da performance “Entre Hoje e Amanhã”, que Teresa Prima apresentou em Lisboa na Galeria Zé dos Bois, em Dezembro de 2004. Toda a correspondência foi enviada por e-mail, com Teresa Prima a trabalhar em residência artística no Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo) e Rogério Nuno Costa em Lisboa.

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(Segunda Parte)

Presente

Excertos da correspondência trocada entre Teresa Prima e Rogério Nuno Costa, nos meses de Junho e Julho de 2005, durante a preparação da performance “Presente”, de Teresa Prima, que nunca chegou a ser apresentada. Rogério Nuno Costa trabalhava em “Lado C”, durante o mesmo período.

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(Terceira Parte)

No Caminho, versão papparazzi [#1. Jardim Botânico]

Após ter sido convidada para colaboradora do “Projecto de Documentação”, Teresa Prima decide assistir às partes da trilogia que ainda não tinha tido oportunidade de conhecer: “No Caminho” e “Lado C”. As performances aconteceram em Agosto de 2006, em Lisboa. José Luís Neves fotografou “clandestinamente” a primeira, no Jardim Botânico.

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(Quarta Parte)

No Caminho, versão papparazzi [#2. Viseu]

Para iniciar o seu processo de criação de uma performance inserida no “Projecto de Documentação”, Teresa Prima decide experimentar ela própria a interpretação de “No Caminho”, partilhando conhecimentos de dois universos criativos: o do “Vou A Tua Casa” e o dela, mais concretamente o trabalho desenvolvido em torno da partitura de música intuitiva “It”, de Karlheinz Stockhausen. As performances aconteceram na cidade de Viseu, em Setembro de 2006, com espectadores e operador de câmara oculta convidados pela Teresa.

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(Quinta Parte)

Projecto de Documentação

Excertos da correspondência trocada entre Teresa Prima, Rogério Nuno Costa e Maria Lemos, durante a preparação para a residência artística que teve lugar em Torres Vedras (Transforma AC), com vista à realização do denominado “Projecto de Performance”. Após o período de residência (Novembro de 2006), o projecto passa a intitular-se “Life-Zone”.

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(Sexta Parte)

Residência Life-Zone

Documentação fotográfica.

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(Sétima Parte)

Projecto de Performance 

Foi apresentado em Janeiro de 2007, no espaço Tzero/Transforma AC e nas ruas de Torres Vedras. No espaço, o espectador era convidado a ver uma selecção em vídeo de vários momentos captados durante a residência “Life-Zone”, para além de ter acesso a um conjunto de informação escrita sobre o projecto. Caso sentisse necessidade de conhecer melhor, e “na prática”, os pressupostos da ”Life-Zone”, bastava ligar para um número de telefone e encontrar-se com os performers na rua. Dez horas depois, foi sorteado um cabaz “Life-Zone” e oferecido a um dos espectadores que visitaram o espaço ao longo do dia.

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(Oitava Parte)

It

Em Maio de 2007, Teresa Prima apresentou no Espaço Cultural “Maus Hábitos”, no Porto, uma conferência/demonstração sobre o trabalho de adaptação à linguagem coreográfica das partituras de música intuitiva criadas por Karlheinz Stockhausen em 1968, trabalho que tem vindo a desenvolver desde sensivelmente 2004. No evento (inserido no Festival da Fábrica) participaram também Rogério Nuno Costa e Maria Lemos, na condição de conferencistas e intérpretes da partitura “It”: “Think NOTHING, Wait until it is absolutely still within you, When you have attained this, begin yo play. As soons as you start to think, stop, And try to retain the state of NON-THINKING, Then continue playing”. Duas semanas antes, Teresa Prima havia enviado algumas perguntas por e-mail aos participantes. Apresentam-se neste bloco algumas das respostas dadas por Rogério Nuno Costa.

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©José Luís Neves, “No Caminho” [versão papparazzi], com Rogério Nuno Costa & Teresa Prima, Jardim Botânico, Lisboa, 2006.

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