12.

ENSAIO

DONATIVO INDIVIDUAL

Nelson Guerreiro

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©José Luís Neves, “No Caminho”, Lisboa, 2005.

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“Tentar escrever sobre o evento indocumentável da performance é invocar as regras do documento escrito e, logo, alterar o evento em si mesmo.”

[Peggy Phelan, A Ontologia da Performance.]

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Começa assim:

[…] O mundo não pára de me surpreender. E nem preciso sair de casa. Off. Peço desculpa pela interrupção brusca, mas é imperiosa, pois não quero perder a oportunidade de explorar a potência infinita da primeira frase, partindo de fora de casa e imaginando, à medida que giro o globo com as minhas mãos, o que sucedeu, o que sucede e o que vai suceder no mundo. O que se vai seguir resulta desse movimento giratório numa actividade perscrutadora. Modo de procedimento: transcrição livre de uma série de notas pós-vigilância de gestos, pós-captura de instantâneos irrepetíveis, pós-assimilação de notícias, pós-registo de ocorrências, pós-boas conversas, pós-imersão em vários lugares, pós-pesquisa, pós-actos generosos e outros que nem por isso, pós-leituras cheias de expectativa, pós-reciclagens de apontamentos que à partida não seriam para aqui chamados, pós-desenvolvimento de ideias e, perante a evidência da intangibilização do mundo, pós-determinações sucessivas, a contragosto, de um limite para evitar a desidratação física, dado o carácter imparável desta digressão. Manobra difícil, mas tão necessária para permitir que este texto chegue a horas aos encontros futuros. […]

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Continua assim:

[…] Foi você que pediu um espectáculo? Sobre Vou A Tua Casa fui projectando uma série de imagens relativas à sua natureza e fui formulando uma série de perguntas em torno dos modos de recepção. Eis o conteúdo do álbum e respectivas anotações. Imagem 1: espectáculo portátil. Imagem 2: espectáculo transportado dentro de um tupperware. Imagem 3: serviço de espectáculo ao domicílio. “Serviço” ao domicílio, não digo “entrega” porque o espectáculo não está pronto nem o Rogério fica à porta como os estafetas da Pizza Hut ou da Telepizza. Destas imagens, ressaltam as noções de portabilidade, flexibilidade e adaptabilidade do espectáculo. Imagem 4: espectáculo antídoto do síndrome À Espera de Godot. Passo a explicar: esta síndrome revela-se na impossibilidade de avaliar a atractividade dos espectáculos. Logo, quem faz fica sempre à espera de que apareça uma expectativa positiva dessa entidade diversa, por vezes inclassificável, denominada espectador, à semelhança do que me aconteceu quando assisti ao espectáculo pela primeira vez na vida, sem conhecimento prévio do conteúdo do texto de Beckett. Acreditei, tal como Vladimir e Estragão parecem acreditar, que Godot acabaria por aparecer. O mesmo acontece quando revejo um filme, ainda dou por mim a acreditar que uma determinada personagem fará qualquer coisa de diferente para escapar ao seu destino predeterminado. Ao disponibilizar-se a ir à casa das pessoas, o Rogério está a combater essa síndrome, sabendo que vai ser recebido — por alguém que nunca viu, que já não vê há muito tempo (podendo tratar-se de pessoas reais por si bem ou mal conhecidas ou, em sentido metafórico, de potenciais públicos dos seus espectáculos), que não espera encontrar —, mas são sabendo ao que vai, quem lá está, o que lá existe, qual o cheiro, qual a decoração. É a eternização da primeira vez. Esteve em estreia permanente. Porém, desejava reencontros futuros, exclamando em silêncio através do papel um Ne Me Quitte Pas. […]

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Acaba assim:

Dito e não dito tudo o que haveria para dizer, é preciso parar. Este texto precisa de se retirar para possibilitar a sua penetração. A paragem afigura-se como um movimento de abertura. Posto isto, e depois de olhar para trás e de atravessar o texto num vaivém, resta-me seguir o néon indicador da saída, sob pena de ficar sozinho aqui fechado. Fecho a porta do texto com uma série de notas finais que procuram assentar a reflexão. Sendo assim, a trilogia do Rogério foi um projecto que me reclamou o tratamento de um conjunto de questões centrais nas práticas artísticas contemporâneas, ao nível das suas configurações espaciais, conteúdos dramatúrgicos e modalidades de recepção, que, como vimos, foram promotoras de novos — com as devidas excepções — relacionamentos entre performer e espectadores, tais como: 1. a deslocalização do objecto artístico e a relação entre a (não)-especificidade dos conteúdos face à sua transferabilidade (Vou A Tua Casa e No Caminho) e sua extensividade máxima até à casa do artista (Lado C); 2. o distanciamento vs. proximidade do espectador perante a obra; 3. a domesticação do íntimo (o serviço ao domicílio) ou o desvendamento do privado; 4. a negociação constante entre a colonização/ocupação do espaço privado; 5. os efeitos da entrada nos últimos redutos individuais; 6. as fronteiras entre real e ficção a partir do desenraizamento do espectáculo; 7. o posicionamento do criador quanto à eventual insatisfação perante o incumprimento das expectativas naturais dos espectadores na fruição de um espectáculo, colocando-se-lhes as perguntas: “And so what? Estavas à espera de mais? Não esperavas que fosse assim?”; 8. questionamento das modalidades de acesso das artes performativas — o espectáculo vai à procura de espectadores, cumprindo a imagem da montanha a ir a Maomé, e derrubando alguns mitos justificadores da não ida a espectáculos (facilitando a vida ao espectador, ao mesmo tempo que lhe solicita autorização para invadir a sua casa): o ser longe, o não ter tempo, o ser caro, etc.; 9. a possibilidade de atracção de novos públicos através da desterritorialização do local de apresentação; 10. as várias possibilidades de participação, co-criação vs. colaboração, a ética e os limites na convocação dos espectadores para a modalidade da co-criação; 11. a inclusão do espectador vs. auto-exclusão do espectador; 12. a eventual deslocalização do foco do poder para o lado dos espectadores e o resultado dessa transferência; 13. o reequilíbrio entre a fruição racional e sensorial; 14. a impossibilidade de comparação das experiências performativas devido à atomização da acção a espaços variáveis; 15. as diferentes possibilidades da experiência a partir da interactividade ou da interpassividade no estabelecimento de ligações perfeitas ou imperfeitas. Por último – finalmente! –, fecho o texto afirmando que, por tudo aquilo que disse, a trilogia evidencia uma vontade e uma necessidade do Rogério em questionar as (de)limitações da divisão originária entre criadores e espectadores, procurando testar as qualidades da experiência no momento da co-presença, a fim de esquematizar novos modelos de aferição do trabalho performativo. From my house, your house, your favourite spot, his house, to the world.

Nelson Guerreiro, Lisboa, 2006/07

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[Versão completa do ensaio disponível na edição física do livro.]

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