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ENSAIO

‘LADO C’ OU O ÉTER DA DISTÂNCIA

Verónica Metello [texto]

Ana Cardim [obra visual só disponível na edição física do livro]

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O teatro acontece todo o tempo, onde quer que se esteja. A arte só facilita o entendimento dessa situação.

[John Cage]

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[…] A repetição aparente que preside a lógica do ready-made, que em virtude da estratégia enunciativa se destaca dos demais, inclui o corpo e a realidade do habitual no mecanismo performance, mas como elementos repetitivos deslocados do seu território de significação habitual. Um actor representa num teatro, não em minha casa, com os meus objectos, depois de um telefonema. Almoço todos os dias, mas não com um grupo de desconhecidos, vivendo-o como arte. A activação do mecanismo performance é iniciada por meio da instauração de uma repetição – um almoço, um lanche, uma conversa,  uma tarde em minha casa, uma peça de teatro representada, mas deslocada do seu centro referencial habitual. Essa deslocação é delimitada por um enquadramento, ao qual se deve a sua circunscrição espácio-temporal, bem como a sua significação. O enquadramento determina não somente o modo como uma acção decorre como,  seguindo Erwin Goffman [1], impõeum enfoque, delimita uma unidade, consistindo  numa predefinição que orienta a conduta num conjunto de princípios de organização que estruturam os acontecimentos e o comprometimento subjectivo nos mesmos, determinando a relação entre sujeito e objecto. A esse comprometimento subjectivo […] Clement Greenberg chamou atitude. […] No caso do trabalho de Rogério Nuno Costa, o enquadramento é imposto a partir do momento em que se digita um número telefónico, fazendo uma marcação para a visita de um desconhecido a sua casa, para realizar um percurso pela cidade, ou para, simplesmente, almoçar ou lanchar em casa de um alguém que se diz performer: 916049998. […] Daí em diante, está aberto o caminho para a revelação da arte em estado gasoso — é imposta a atitude sobre a qual recai a potencialidade de uma predisposição para a realidade, fluidificada por uma linha de abertura disruptiva relativamente ao habitual. A própria temporalidade é afectada: a aplicação do enquadramento implica a definição de um limiar — de um tempo e um espaço particulares, privilegiados, libertos da rotina do quotidiano e impondo uma relação particular entre os elementos humanos presentes no acontecimento que o instaura [2]. Definido o enquadramento — a visita, o percurso, um almoço ou um lanche; aplicada a lógica do ready-made aos elementos constituintes do trabalho — os meus objectos em minha casa, o espaço da minha casa, as particularidades da cidade onde vivo, mas as quais jamais haviam para mim existido, o sabor de um ananás ou parte de uma música que já não ouvia há tanto tempo,  a activação do mecanismo performance está em curso. E inclui-me, eu e cada uma das pessoas que digitou o número de telefone; sou um elemento do mecanismo performance activado pelo agente Rogério Nuno Costa. A sua activação implica a revelação como diferente, do que para mim havia sido habitual, ou inexistente. Implica a activação de um espaço e de uma realidade distintas das que se inscrevem  na aparente ordem do hábito — e consequentemente a significação do mesmo como diferente, ou  outro, ou do que é existente como evidente. Implica a passagem de que fala De Certeau: do local a espaço — se um local é uma ordem de disposição dos elementos físicos entre si, um espaço é um lugar vivido, performado — tornado activo enquanto território de potencialidades actualizadas pela acção [3]. Em virtude da aplicação do enquadramento conceptual sobre uma lógica de repetiçãodescentrada verificaremos que opera uma deslocação conceptual da intuição da realidade sobre a repetição do banal, no sentido da sua revelação de acordo com outros significados. Falamos assim da activação de uma linha de abertura no sentido de um possível entendimento enquanto diferente do que ao nível da superfície se repete como igual. […] Mas, no entanto, não obstante a potencialidade inerente à instauração do mecanismo performance no  trabalho Vou A tua Casa […], revelando e evidenciando a realidade, o estado gasoso do belo não se esgota neste aspecto. Porque assenta, notavelmente, num outro território de subjectividade, trazendo para o jogo comunicacional a expectativa de um tempo e de um momento outro. Um tempo que é o da superação de uma distância. Mas uma distância que seria apenas superada, jamais na sua totalidade, mas na continuidade, no devir de cada um dos trabalhos. Dado que cada trabalho implica a definição de uma relação — vários dispositivos sublinham conscientemente esse objectivo — enceta-se o diálogo, são pedidos considerandos e opiniões sobre o curso da vida e trabalho do performer, trocam-se contactos, é tirada, no final do Lado C, uma “fotografia de família”. É no devir da relação estabelecida, e na expectativa da superação de uma ordem de distância em virtude da continuidade dessa relação, que se situa de modo notável a aura destes trabalhos. Os mecanismos utilizados assentam na aparente intimidade, pois os dados pessoais — a intimidade que se parece encetar é meramente estatística e salvaguarda a dúvida — mantém a distância. Sabe-se o número do bilhete de identidade do performer, sabe-se o número de habitantes da sua cidade natal, sabe-se de algumas das suas afinidades electivas. Mas é um performer, a distância imposta é a da estatística, e jamais saberemos se esses dados correspondem a uma identidade que não performática. Mas é também por aí que este trabalho funciona — a sua aura é remetida para um tempo que ainda não existe, para uma diaclase alimentada por estas dúvidas, uma distância da qual não se está certo, jamais da superação. Paradoxalmente, falamos da aura, teorizada por Walter Benjamin, porque, efectivamente, a intensidade de que se reveste a expectativa no devir de cada um desses encontros é a da lonjura por mais perto que se esteja. […]

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[1] Erwin Goffman, Les Cadres de la Expérience, Paris, 1991.
[2] Cfr. Victor Tuner, Liminal and Liminoid, in Colin Counsell e Laurie Wolf: Performance Analisys – An Introductory Coursebook, Londres e Nova Iorque, 2002, pp. 202-209.
[3] Michel de Certeau, The Pratice of Everyday Life, Berkeley, Los Angeles, Londres, 1988, pp. 91-102.

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[Versão completa do ensaio na edição física do livro]

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