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TESTEMUNHOS EX-ESPECTADORES

A OPORTUNIDADE DO ESPECTADOR

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O título é o mesmo do projecto que se seguiu à conclusão da trilogia “Vou A Tua Casa”, cujo elemento mais importante de inflexão teórica e conceptual terá sido a figura do espectador enquanto catalizador de experiências performativas várias: performances, conferências, workshops, master classes, documentação de processos criativos, ensaios, acções terroristas, etc. O conjunto de textos que aqui se apresenta, na forma de testemunhos pessoais e transmissíveis, e na voz de quem assistiu a uma ou várias partes da trilogia “Vou A Tua Casa”, foi, assim, o primeiríssimo tubo de ensaio que conduziu ao desenho estrutural do projecto “A Oportunidade do Espectador”; alguns destes “pensadores” foram posteriormente convidados a integrar o projecto na condição de observadores privilegiados (“Selecção de Esperanças”), com resultados textuais que serão publicados em catálogo online no início do próximo ano. Este bloco significa também, e por isso, uma abertura do “Projecto de Documentação” à linha de trabalho que se seguiu, mas também uma homenagem a todas as pessoas que por diversas razões aceitaram ser atravessadas por um projecto artístico que as pôs em causa, não só enquanto espectadores, mas também enquanto seres humanos.
Autores: Luísa Casella, Susana Chiocca, Joana Baptista Costa & Mariana Leão, Guilherme Ferreira, Dinis Machado, Marisa Teixeira, João Madeira, Filipe Coutinho, Laura Bañuelos, Beatriz Portugal, Vânia Teixeira, Carla Capeto, Marisa Salvador, Carina Costa, Nuno Quintas, Tiago Neves, Pedro Gomes e Maria de Assis, cujo texto seleccionámos para apresentar nesta pré-publicação online:

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(sem título)

Maria de Assis

Tudo isto que vou dizer é real hoje, mas não necessariamente aquilo que aconteceu. Divertida esta tentativa de reconstituir uma situação que o tempo diluiu deixando uns gorgulhos aqui e acolá, acções mais duras ou mais resistentes, que não se deixaram liquefazer, vá-se lá saber porquê… O momento do embate deu-se com a leitura de uma agenda cultural electrónica. Dava-se como responsável o autor/actor Rogério Nuno Costa. Não retive o nome, apenas a proposta. Tempo: vago, cerca de um ano antes do acontecimento. Na minha casa: há talvez três anos? Foi isso, o pensamento agarrou essa ideia estranha, que me engravidou o pensamento. Ficou lá latente, produzindo teimosamente cenários imaginados, a querer presentificar o futuro. Mas faltava-me o contexto… A coragem? De pegar no telefone e pôr a imaginação à prova. Aconteceu quando uma amiga me disse que já tinha experimentado, dissipando algumas possibilidades menos desejáveis que a imaginação também tinha forjado. E foi ela que pegou no telefone e marcou. Mais tarde perguntei-me sobre o que teria mudado se não fosse ela a telefonar, que já o conhecia. Desfez-se um pouco da surpresa que faz parte das premissas… Aliás, faz sentido falar nas premissas. Foram elas que me prenderam à proposta em primeiro lugar. Atraem-me as propostas que se movem em território “neutro”, sem fronteiras definidas sobre quem é quem, como se faz e o que se espera. O “Vou A Tua Casa” era uma promessa disto e muito mais. Quando o Rogério veio a minha casa apareceu com alguns objectos. Recordo alguns livros, não faço ideia de quais, um rádio, velas, fósforos, papéis para escrever [N.E. As velas não faziam, de facto, parte dos adereços da performance.]… Já não me lembro de quem cá estava para além de mim, da minha amiga e do meu marido. Ficou-se pela sala e cozinha. Liderou sempre a situação, ganhando confiança com o passar do tempo. Construiu-a à maneira de um ritual de iniciação ao encontro do outro, ou seja, procurou sentir a vibração da casa, dos objectos e das pessoas, devolvendo-nos, em contraponto poético, o seu entendimento de nós ali. Deixou-me as paredes marcadas de papéis colados com palavras-chave. Já não me lembro das palavras. Quando partiu ofereci-lhe um candelabro. Recordo que a segurança de estar em minha casa e a predilecção já confessada de testar as regras e os códigos de comportamento em situações novas me fez participar no jogo de forma um pouco mais activa que os outros, ou seja, a relação que estabelecemos ali, eu e o Rogério, tornou-se o espectáculo dos outros. Penso que, enquanto espectáculo, para os outros a proposta não teve metade da graça que teve para mim. Penso que a proposta do Rogério é para saborear vivendo, aproveitando esse território “neutro” para medir distâncias, gozar a capacidade de interferir no decorrer da acção, observar as reacções e continuar a decidir, passo a passo, se faço ou não faço, se estou a fazer demais ou de menos, se estou ou não a ultrapassar os limites da tolerância, da liberdade e do respeito mútuo num lugar esvaziado de referentes, lugar em que o autor se nega através do conceito que propõe, abolindo as categorias convencionadas de autor, actor e espectador. O meu fascínio por estas questões corresponde obviamente à consciência que elas se nos colocam permanentemente no dia-a-dia, ou melhor, que não as colocamos a nós próprios com a frequência e a intensidade que mereciam… Por isso temos tantas vezes a sensação de viver como espectadores da vida. Uma espécie de desafio às regras e aos códigos que conhecemos e que ali são testados e redefinidos em função das respostas a perguntas recorrentes: o que é isto? que estão a fazer? que querem dizer?

[Maria de Assis é gestora cultural. Foi espectadora do “Vou A Tua Casa/Lado A” em Lisboa, em 2004.]

 

@Luísa Casella, “Ne Me Quittes Pas”, fotografia & desenho, Nova Iorque, 2007.

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