04.

LADO B — GUIÃO

DA VONTADE DE FICAR AQUI

(segunda figura do defeito)

Rogério Nuno Costa & Diogo Leôncio [texto]

Ramiro Guerreiro [obra visual só disponível na edição física do livro]

.

[Todas as imagens contidas neste documento da autoria de ©Diogo Leôncio e ©Rogério Nuno Costa]

.

“O alienado é aquele a quem chamamos são de espírito, uma vez que consente em existir num mundo definido pela relação a outrem.”

(Augé citando Lévi-Strauss, p. 36)

.

Pessoas: Diogo Leôncio, 22 anos. Rogério Nuno Costa, 28 anos.
Local: Fundação Calouste Gulbenkian (café-bar), Avenida de Berna, 45-A, Lisboa.
Data: 3 de Janeiro de 2007.
Hora: Entre as 17:30 e as 19:30.

.

Um exercício arqueológico:

Aconteceu no dia 17 de Fevereiro de 2005. Suspendeu. Continuou. Dois trajectos anónimos de vida desafiaram as leis do acaso e encontraram-se. Dois anos depois, a pergunta: “O que é que aconteceu?” Elemento ‘B’ fez isto uma vez, Elemento ‘A’ fez vinte e seis. Juntos, serão capazes de escrever o guião impossível de uma peça que não existe. Chama-se “No Caminho” e é a segunda parte da trilogia “Vou A Tua Casa”. O que a seguir se apresenta representa tudo. O que a seguir se apresenta não representa nada. A performance, essa, continua:

[Reencontro-me contigo dois anos depois. Para contigo escrever este texto. Somos dois detectives a apresentar as suas provas. Dois ratos de biblioteca. Dois alienados. Quero (peço-te) uma descrição nua e crua daquilo que aconteceu, desde o momento assumido por ambos como o início, até ao momento assumido por ambos como o fim. Isto é obviamente um exemplo em triliões. Mas nem assim carente de cientificidade. Vamos imaginá-lo à luz da tua planta, que se reproduz criando múltiplos dela. O início da construção de um rizoma. Uma realidade des-centrada. Contigo é possível porque sei que não padeces desse mal que apelido de pânico da realidade. Escolho-te porque sei que não tens qualquer interesse em objectivizar as subjectividades. Eu também não. O trabalho a empreender será seguramente falível. Mas “o melhor não é necessariamente bom”. Temos provas que se esboroam ao primeiro sopro. Mas temos: uma planta crescida num vaso, uma fotografia perdida, alguns papéis rasgados. Comecemos:]

.

Rogério — Para mim começou quando recebi o teu e-mail. Não sabia quem tu eras, o teu nome não me dizia absolutamente nada. Mais do que marcar contigo um dia para a performance acontecer, senti necessidade de saber mais qualquer coisa. Não é que isso fosse propriamente importante. Mas tu terás sido o primeiro espectador do “No Caminho” que eu não conhecia de lado nenhum, e se calhar por isso senti necessidade de saber mais coisas sobre ti.

Diogo — Para mim começou ainda antes de te enviar o e-mail. Primeiro, tive que pensar de que maneira é que te iria contactar: se telefonava, se escrevia. Eu tinha visto anúncios da primeira parte do “Vou A Tua Casa” no jornal. Do “No Caminho” vi um cartaz que estava perto da casa de uma amiga minha, ali ao pé de S. Bento. Via-o sempre, de cada vez que ia a casa dela. No cartaz tinhas o telefone e tinhas o e-mail. Foi engraçada a maneira como decidi enviar o e-mail, por ser talvez mais impessoal do que telefonar. Também aparecia o endereço do blog no cartaz, acho eu… Mas telefonar-te acho que não teria conseguido. Eu detesto falar ao telefone com pessoas que não conheço. O e-mail foi, por isso, um descanso para mim.

Rogério — É curioso estar a conhecer essa história agora… Mesmo sabendo que ela existe em todas as relações anteriores à performance, nem sempre me decido a “presentificá-la” no momento concreto do encontro. E no entanto é essa uma das premissas mais importantes: trabalhar com as expectativas construídas pelo espectador nos momentos anteriores ao encontro, como se a peça já tivesse começado.

Diogo — E começou, de facto! Mas eu não acho que tenha construído muitas expectativas durante esse tempo. Quer dizer, expectativas criamos sempre; o que eu não criei foi “previsões”, o que me parece diferente. Estava à espera de ser surpreendido. E ao mesmo tempo não estava nada à espera daquilo que acabou por acontecer. Imaginava uma coisa pessoal, mas não àquele nível… Imaginava uma conversa, apenas, algo que fosse muito pouco espectacular.

Rogério — Creio que és, até à data, a única pessoa a revelar-me essa expectativa da não-espectacularidade. Geralmente, espera-se do “No Caminho” — quais Vladimir e Estragon à espera de Godot —, por um qualquer espectáculo que depois não aparece, ou aparece de uma forma muito esbatida ou subterrânea. Isso pode ou não constituir uma desilusão para o espectador. Depende exclusivamente do tipo de expectativa gerada a priori. Mas é um facto que a imagem mais forte que guardo do “No Caminho” é olhar para as caras das pessoas e ver escarrapachada a pergunta: “Mas onde é que está o espectáculo?”. É óbvio que eu acho interessante trabalhar e integrar esta ideia na mecânica da própria performance, transformando-a ou combatendo-a. No teu caso, isso não foi necessário, se calhar por causa do sítio que escolheste. Todas as pessoas têm tendência para escolher sítios como se fossem “cenários”. Ou um lugar que querem ver transformado artisticamente. E então escolhem sítios com uma carga emocional (do ponto de vista biográfico) muito forte, onde esperam de mim o tal do site-specific, a interacção com o local, a arquitectura e as pessoas. E este trabalho não tem nada a ver com uma ideia de especificidade espacial… A especificidade, a existir, será absolutamente relacional. E no teu caso, senti que fizeste uma leitura do sítio escolhido apenas como pretexto para um encontro. Eu fiquei excitadíssimo com a tua escolha, claro, porque foi aquilo que eu sempre imaginei para esta peça.

Diogo — Não foi difícil escolher o sítio… Depois de receber a tua resposta ao primeiro e-mail, tive que pensar muito bem no que havia de responder, porque tu pedias informações sobre mim. E dizias-me os dias em que estavas livre, o que eu achei imensa piada. Eu não tinha chegado a indicar o local, e por isso tu pedias-mo também. Já tinha mais ou menos imaginado o sítio que queria; quanto às informações sobre mim é que não sabia o que havia de dizer. Pensei escrever um texto, mas tive medo de com ele estar a criar uma persona para aquele encontro, forçadamente. Lembrei-me então do livejournal e mandei-te o endereço.

Rogério — Disseste-me também a tua idade e o que fazias: “Diogo, 20 anos, estudante de Belas-Artes”. Não especificaste muito mais. Mas o link para o livejournal foi importante. Eu não te conheço, tu fazes-te apresentar através de um sítio na internet, de cariz semi-pessoal, composto por palavras, imagens, músicas. E mesmo tendo em conta que esta performance não prevê que eu me “prepare”, ou que pense/ensaie/premedite algo concreto para (te) fazer, a partir do momento que eu assumo que já estou “em performance”, então a nossa relação começou. No momento em que eu abro o teu livejournal e começo a imaginar a pessoa por detrás daquelas palavras, imagens e músicas, o diálogo começa. E isto só acontece devido ao enunciado performativo que acordámos previamente. Apesar de não estarmos juntos in loco, e de ainda não nos termos encontrado naquele sítio e àquela hora específica que tu escolheste — que é o que mandam as “regras” da performance, e é o que aparece nos cartazes, e é o que tu e eu temos que fazer para que o nosso encontro seja “legitimado” artisticamente —, tal não significa que a performance se circunscreva aos dois limites espácio-temporais combinados por nós anteriormente. Ou seja, eu sinto que comecei automaticamente a dialogar contigo no momento em que comecei a ler o teu livejournal. E aquilo que mais me chamou a atenção foram as músicas, porque havia uma série de posts que tu tinhas que só continham o nome da música e da banda, mais nada… Como quem diz: “Estou a ouvir isto hoje.” E então decidi arranjar essas músicas. Havia uma ou duas que eu já tinha, e uma ou outra que não conhecia de todo. Consegui-as todas. O que fez com que acabasse por fazer o exercício do “Diz-me as músicas que ouves, dir-te-ei quem és”.

Diogo — Quando me mandaste o segundo e-mail, lembro-me que terminavas dizendo: “A performance já começou!”

.

[Interrupção: o café da Fundação Calouste Gulbenkian fecha às 18:00; pausa no gravador. Saímos do edifício e mudámo-nos para outro.]

.

Rogério — Eu não me lembro se houve mais coisas em que pensei para além das músicas… Mas decidi gravá-las num CD e levar também os meus lápis de cor.

Diogo — Porque eu era de Belas-Artes…

Rogério — Sim! Foi uma decisão um bocadinho parva. Na verdade, teve a ver com o facto de ter olhado para a caixinha de lápis de cor quando estava a responder ao teu e-mail. Foi uma das primeiras coisas que eu comprei para a primeira versão do “Vou A Tua Casa”, mas que acabei por usar apenas num dos espectáculos, não sei bem porquê. Os lápis estavam ali ao pé, e após duas rápidas associações de ideias, decidi levá-los. Houve alguma desmarcação?

Diogo — Não. Mas era para ter sido num dia e depois não deu. Não foi bem uma desmarcação, aconteceu quando estávamos a decidir a data. Era Inverno.

Rogério — Sim, estava frio… Foi em Fevereiro de 2005, o mês em que fiz mais espectáculos “No Caminho”. Eu sei que cheguei atrasadíssimo.

Diogo — Perdeste-te.

Rogério — Não estava a conseguir encontrar a rua. E era tão estupidamente fácil! Eu tenho uma péssima relação com nomes de ruas, mas conhecia aquela perfeitamente, embora não fizesse ideia que se chamava assim. Andei às voltas à tua procura e tu já lá estavas. Lembro-me de teres dito que escolheste aquele sítio por nenhum motivo especial, apenas porque já lá tinhas estado à espera de alguém. Contaste-me isso durante a performance, não foi?

Diogo — Sim, no início.

Rogério — Eu achei curioso… Lembro-me que na altura andava a ler umas coisas sobre a Marina Abramovic e o “waiting space”, conceito que eu já havia trabalhado de forma residual no contexto do “Lado A”. Porque é esse, de facto, o exercício que faço de forma mais evidente no “No Caminho”: ficar à espera. Que a performance aconteça, por exemplo. E o que é certo é que pode não acontecer nada de realmente performático, embora o “estar à espera que a performance aconteça” seja uma acção performativa por excelência. Achei, por isso, uma coincidência interessante. Depois não sei muito bem o que aconteceu. Há uma confusão na minha cabeça em relação aos momentos seguintes.

Diogo — Tu chegaste. Conversámos um bocadinho. Acho que me tiraste uma fotografia, depois.

Rogério — Não me lembro!

Diogo — Tenho quase a certeza. Parecia ser de uma máquina descartável. Tiraste uma fotografia ao local e depois uma fotografia a mim. E acho que foi só. Foi relativamente rápido. Eu quase que nem tive tempo de me preparar. A seguir, não me lembro se me puseste logo a ouvir o CD, mas acho que sim.

Rogério — Ah! Antes disso: mandei-te uma mensagem para trazeres um discman contigo, porque o meu tinha-se avariado…

Diogo — Sim. E eu tive que ir comprar pilhas… Eu devia andar pela Faculdade, nesse dia. Não me lembro de ter saído de casa de propósito para ir comprar as pilhas. Acho que fui directamente da Faculdade para o local do encontro. Fui a pé, subi a Avenida da Liberdade, sentei-me e fiquei à espera. E então pensei: “Que divertido! Estou novamente à espera no mesmo sítio…”.

Rogério — Eu lembro-me que não fazia ideia se havia de te pôr a ouvir as músicas, ou simplesmente oferecer-te o CD para tu ouvires quando te apetecesse. Acabei por me decidir pela primeira opção, não me lembro exactamente porquê. Também sei que vinha de casa — vivia em Alcântara na altura —, e vim de autocarro. Estive imenso tempo à espera do autocarro e por isso me atrasei (não foi só por não ter conseguido encontrar a rua…). Quando finalmente cheguei, lembro-me de ter pensado imediatamente no facto de teres sido a primeira pessoa a escolher um sítio tão “descaracterizado”. Até então, todos os espectadores tinham escolhido sítios que, para além de serem biograficamente definidos, eram arquitectónica e geograficamente muito concretos. Quase que não precisavam de dar coordenadas nenhumas, diziam só: Carmo, Praça do Comércio, Mercado da Ribeira, Sé de Lisboa, etc… No teu caso, foram mesmo necessárias mais explicações. Porque escolheste um sítio de passagem. Escolheste um verdadeiro “não-lugar”.

Diogo — Pensar e escolher o sítio foi também uma experiência engraçada. Inicialmente, pensei num qualquer local ao pé do rio. Eu moro relativamente perto, mas numa zona industrial. Gosto muito da zona por isso, e também porque não se passa lá nada. É um sítio calmíssimo, onde eu costumava andar de bicicleta quando era miúdo. Mas depois achei que devia ser outro tipo de sítio, algo que tivesse a ver com aquilo que imaginava para a performance. Um sítio onde eu já tivesse estado, mas onde supostamente nunca mais voltaria. Ou seja, um sítio onde eu tivesse que voltar apenas e só por causa da tua performance. Aquela estátua, naquela rua, era um sítio onde eu já tinha esperado durante muito tempo, sítio esse que nunca mais voltaria a ter qualquer “utilidade”. Dei-lhe assim uma outra utilidade, uma outra dimensão…

Rogério — Recordas-te do que é que conversámos imediatamente a seguir ao “Olá” inicial?

Diogo — Tu pediste desculpa pelo atraso, falámos sobre a escolha do sítio. Lembro-me de termos falado da estátua, porque eu tinha-te dito no e-mail que achava a estátua muito feia. E então tu confirmaste: “Sim, realmente a estátua é muito feia…”.

Rogério — Sabes que eu depois da performance fiquei com a ideia que tu tinhas uma história com aquele sítio que não era muito agradável. Tu disseste-me depois que não. Mas eu não sei porque é que criei essa ideia na altura. Achei que tinhas escolhido aquele sítio porque tinhas lá estado muito tempo à espera de alguém e que isso foi, de certa forma, uma experiência traumatizante.

Diogo — Não foi bem assim… Estávamos à espera de ir ver uma exposição de uma pessoa que era conhecida de uma outra pessoa, e essa mesma pessoa estava também connosco à espera. Só que a pessoa por quem esperávamos acabou por não chegar. A exposição era num prédio ao lado. No fim, acabou por não haver exposição nenhuma. Toda aquela espera foi completamente em vão… Ainda assim, eu não associo nada de negativo a isso. Foi um momento altamente beckettiano!

Rogério — Má associação de ideias, então. Talvez a coisa mais especial desta performance tenha sido a decisão de não falar mais contigo, e isso ter-se perpetuado até ao momento da separação, horas depois. Eu lembro-me que estava a sentir um certo desconforto em “falar”. E isto é realmente muito estranho em mim, que falo sempre pelos cotovelos. Não sei bem explicar porque é que isso aconteceu, ou porque é que aconteceu contigo, porque em mais nenhum “No Caminho” isso foi tão evidente. Se calhar foi por isso que decidi pôr-te a ouvir o CD. Nem sabia o tempo total das músicas que tinha gravado. Mas devia ser perto de uma hora, talvez…

Diogo — Deviam ser aí umas 10 músicas, o tamanho normal de um CD.

Rogério — …E depois eu sei que fiz para ti um exercício de construção (não diria ilustração) de algo que se aproximava do mesmo exercício que já havia feito à distância, quando tentei imaginar-te através do livejournal e das tuas músicas. Ou seja, algo que partiu de um desconforto (real) foi transformado, depois, e de uma forma que eu hoje vejo como altamente “intuitiva”, numa outra coisa mais construída e, de certa forma, irreal: eu ponho-te a ouvir as tuas músicas e convido-te a um exercício de (re)descoberta ou de revelação de algo que tu já conheces — tu próprio e os teus gostos musicais. Lembro-me de ter sentido uma conexão muito grande, mesmo quando me afastei e tu ficaste sentado ao pé da estátua, com os headphones nos ouvidos. E tudo o que fiz enquanto ouvias as músicas não foi nem mais diferente nem mais igual ao que estou a fazer neste momento contigo, por exemplo. Eu não estou a pensar sobre o que é que estou a fazer. Estou a fazer, apenas. Se eu me ponho a pensar que estou com a mão nesta posição, e porque é estúpido estar tanto tempo com a mão nesta posição, então eu páro, até estar outra vez com a mão num sítio qualquer que me esqueço. Ora, o que eu faço, no contexto do “No Caminho”, é evitar este estado de super-vigília em relação a tudo o que faço e digo, de forma a poder perder-me realmente com o momento. E contigo.

Diogo — Tu ainda ouviste músicas comigo, ou será que só ouviste depois, quando voltaste da rua? Não me lembro… Acho que foste embora e só quando voltaste é que ouviste.

Rogério — Eu tinha um daqueles adaptadores que dá para pôr dois headphones. Tinha-o comprado para o espectáculo que fiz para a Natacha Paulino.

Diogo — Pois, mas eu não me lembro se isso foi no início ou no fim… E quando me deixaste sozinho e foste para os prédios, eu fiquei ali. Fiquei literalmente ali sem saber o que fazer. Sentado a ouvir as músicas. Lembro-me de ter pensado: “Que raio é suposto que eu faça agora?”. Deixei-me ficar, porque era o mais confortável para mim. Fiquei a ver-te. Acho que fumei enquanto tu estavas nos prédios.

Rogério — E fumaste depois, já quando estávamos a escrever. Aliás, uma das coisas sobre as quais nós escrevemos foi sobre “fumar”. Antes do reencontro, não sei muito bem o que fizeste, porque não te estava a ver. Em relação ao facto de termos ouvido música juntos, a segunda hipótese parece-me agora a mais óbvia: quando eu volto dos prédios, e porque não quero interromper uma coisa que já está instalada, ponho-me a ouvir o CD contigo, que mais não seja para saber se já tinha chegado ao fim. Parece-me o mais provável…

Diogo — Mas tu não ouviste até ao fim. Ouviste um pouco, para saber onde ia, e depois começaste a fazer outra coisa. Acho que pegaste no teu bloco de desenho. Um bloco de folhas tamanho A3. Foi nele que começámos a escrever.

Rogério — Antes disso desenhámos. Lembro-me de te ter desenhado a ti.

Diogo — Desenhaste-me logo a mim? Eu lembro-me que antes disso ainda desenhámos prédios. Eu desenhava sempre as coisas que tu desenhavas primeiro. Tu desenhaste os prédios, eu desenhei os prédios. Tu desenhaste-me a mim, eu desenhei-te a ti.

Rogério — E eu acho que nós depois começámos a escrever nas próprias folhas do desenho, não foi?

Diogo — Sim, e só depois é que passámos a escrever no teu caderninho.

.

[Paragem contextualizadora; reciclagem]

.

Pessoas: Diogo Leôncio, 20 anos. Rogério Nuno Costa, 26 anos.
Local: Rua Castilho, 14, Lisboa.
Data: 17 de Fevereiro de 2005.
Hora: Entre as 17:30 e as 19:30.
Lista de Músicas: “Genius Of Love”, Tom Tom Club; “Never Be Alone”, Justice vs. Simian; “The Sound Of The Crowd”, The Human League; “How Soon Is Now?”, The Smiths; “Crystal”, New Order; “Lifetime Piling Up”, Talking Heads; “Michael”, Franz Ferdinand; “Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)”, Abba; “Razzmatazz”, Pulp.

.

Rogério — Estou a gostar deste silêncio entre nós. A única coisa que nos une é a tua música. E a “ideia” de performance. Não me apetece falar. Não te conheço. Faz-me perguntas.

Diogo — Sim. Que almoçaste?

Rogério — Não almocei. Acordei tardíssimo e tomei o pequeno-almoço. Apenas. Daí que as coisas que tinha para fazer se atrasaram. E atrasei-me. Contigo.

Diogo — Também não almocei. Faltei às aulas porque tinha sono e também acordei tarde. Onde arrancaste a planta?

Rogério — A performance obriga a que eu deixe que as pessoas me arranquem o que bem entenderem. E eu delas. A performance não tem regras… Quer dizer, tem as que se criam no momento. Neste momento. Sabes quais são as regras?

Diogo — Não me parece que as saiba totalmente. Agora não… Escrevemos, mas isso também não me parece que seja uma regra…

Rogério — Não é uma regra; deve ser uma imposição do tal momento. Ou deste sítio. Ou de ti. Ou de mim. Ou de nós. Eu tenho tendência para falar demais. Contigo não me está a apetecer. E escrever sempre me obriga a ser mais sintético…

Diogo — O mais importante aqui foi que entraste de forma mais ou menos inesperada no meu universo pessoal. Não sei se também entrei no teu… Não esperava nada em particular da performance; fiquei surpreendido com as minhas músicas, o meu universo…

Rogério — É o teu universo. Agora também é o meu. Desculpa a intromissão… A performance é uma “invasão”, de facto. Eu quando vou de comboio até Braga, invado a vida/universo da pessoa que viaja ao meu lado, pelo menos durante aquelas 4 horas de viagem. E nem tenho que falar com ela… Tu também invadiste o meu universo. Estás aí, sentado ao pé de mim, à espera que eu acabe de escrever, e invades-me…

Diogo — Quando se observa, invade-se. As viagens são, normalmente, tempos de espera interessantes… Não sinto que aqui me tivesses observado antropologicamente; acho que também não te observei assim.

Rogério — Estou com frio.

Diogo — Também eu. E perdi as minhas luvas.

Rogério — Eu não trouxe luvas. Achei que não ia ser preciso. Estou mesmo com muito frio nas mãos…

Diogo — Se não fosse socialmente reprovável, podíamos fazer uma fogueira aqui.

Rogério — Esta performance pode ser uma reacção ao ‘socialmente reprovável’, se tu quiseres… Para mim, começa logo por isto: estar com alguém “só porque sim”, é completamente reprovável socialmente, que mais não seja por se achar inútil…

Diogo — Achas que estamos aqui “só porque sim”?

Rogério — “Só porque sim” não é propriamente negativo… Não acredito em justificações relativistas para tudo o que se faz, para tudo o que acontece. Não acho que deva haver uma justificação para eu estar aqui, a não ser a simples justificação de querer estar aqui. Estar aqui contigo “só porque sim” é fantástico. E suficiente. Pelo menos para mim.

Diogo — Dessa forma, sim. Queres um cigarro?

Rogério — Eu não fumo. Mas posso fumar, se tu quiseres… Já acompanhei os cigarros de muita gente!

Diogo — Se não fumas, não faz mal. Também não fumo então. É mais justo. Partilho do teu ‘não fumar’.

Rogério — Gosto da ‘ideia’ do cigarro. É muito cinematográfica. Por isso, acharia fantástico que fumasses. Estou a começar a gostar do frio, a habituar-me a ele…

Diogo — Comecei a fumar por causa dos cigarros no cinema, sobretudo o da Nouvelle Vague… Tem piada. Vou fumar, então. Tremo, meio de frio, meio por estar nervoso. Os espectáculos deixam-me sempre nervoso… Mesmo no escuro da sala de cinema, fico nervoso.

Rogério — Eu tenho frio, e fome, e estou desconfortável, e um nadinha nervoso, e até com vontade de ir para casa, mas vou ficar aqui, pelo menos até onde tu quiseres que eu esteja…

Diogo — Quando quiseres ir, podes ir. A performance parece-me que pertence a ambos, embora tenhas sido tu o culpado dela, quem a pensou… Por isso, e apesar de estarmos dependentes um do outro na performance, dou-te liberdade de escolha.

Rogério — A performance é de ambos. Subscrevo.

Diogo — Então, vais ficar ou vais embora do frio? Seja como for, tenho comida na mala, posso dar-ta.

Rogério — Não, obrigado. Posso prescindir de todas as ‘vontades’. É a impossibilidade de as saciar que faz com que seja sintético…

Diogo — Realmente, aqui está muito frio. A esta hora, as pessoas começam a sair dos escritórios e vão para casa. As necessidades provocam a síntese, concordo. Não sei se saciadas ou por saciar…

.

[Rogério levanta-se num ímpeto, escreve uma última frase num papel e deixa-o caído ao pé da árvore mais próxima. Desaparece depois.]

.

Diogo — E essa parte foi muito confortável para mim; era muito mais “fácil” escrever… Quer dizer, era e não era. Por um lado, dava-me tempo para preparar o que te ia dizer, não tinha que me confrontar com a pessoa “mesmo”, tinha que me confrontar com o que a pessoa dizia. Mas ao mesmo tempo também implicava que houvesse um registo daquilo que eu dizia ou queria dizer, para que não desaparecesse. Confesso que isso também me assustou um pouco.

Rogério — Tinhas a sensação que o que estavas a produzir, por estar a ser registado em papel, fazia parte integrante e “material” da performance? Quase como se estivesses a ser criador da performance na mesma medida que eu o estava a ser?

Diogo — Sim, completamente! E por isso confesso que senti uma ligeira vergonha por estar a escrever e a dizer coisas que de repente podiam não ter propósito nenhum. Mas depressa percebi que isso era uma estupidez… Ainda assim, sinto que me expus muito, como nunca me tinha acontecido antes num espectáculo. Estava a falar com uma pessoa que não conhecia de lado nenhum e de repente comecei a sentir que te podia dizer tudo! Contudo, o “papão” do espectáculo nunca me largou.

Rogério — É curioso que digas isso. Tenho a sensação que o teu “No Caminho” foi de todos os que fiz o que cumpriu com mais pressupostos daquilo que comummente se entende por espectáculo. Se calhar também por tua causa. É perfeitamente possível que a tua luta contra uma série de coisas que faziam sentires-te desconfortável tenha, de certa forma, contagiado a minha maneira de me relacionar contigo. Porque, no fundo, o que nós fizemos foi conversar à mesma, só que por escrito. Tens quase o mesmo sistema de protecção que consegues quando conversas no MSN; apesar de estarmos juntos fisicamente, a escrita não permite que olhemos muito um para o outro. Não me recordo de ter olhado para a tua cara muitas vezes. Não me lembro de como estavas vestido. Acho que tivemos uma conversa à distância, mas sem ser à distância. Quase como se o nosso primeiro “encontro”, que aconteceu através de um e-mail e de um livejournal, se tivesse perpetuado até à fase presencial do encontro. A minha questão é: em que é que isto difere de outras performances que fiz que também foram conversas (idênticas à que estamos a ter agora), mas que não foram escritas? Quando decides fazer a mesma coisa de uma maneira diferente, ou que tenha uma “forma” diferente ou imprevisível, estás nitidamente a trabalhar num território performativo, um território de construção e de transformação. Parece que nesta performance dissemos um ao outro: “Vamos experimentar o seguinte: em vez de falarmos só, falamos escrevendo.” Ou seja, parece que acordámos um exercício de improvisação! E porque é que isto aconteceu contigo e não com outras pessoas, tendo em conta que o pressuposto foi sempre o mesmo, é algo que me deixa intrigado. Eu não parto para o projecto com a ideia de experimentar com aquela pessoa maneiras diferentes de fazer uma mesma coisa. Acho isso profundamente desinteressante. E inútil, porque será sempre, e obrigatoriamente, diferente. Quero portanto acreditar que o facto do teu espectáculo ter sido o mais “espectacular” se prende com algo que partiu da nossa relação inicial. O papão do espectáculo que te perseguiu foi mais forte e tomou conta da performance. Tomou conta de nós.

Diogo — O que eu acho mais engraçado agora é ouvir-te dizer que também sentiste desconforto em falar. Nunca esperaria isso de um performer!

Rogério — Ao contrário do que muitas pessoas pensam — e refiro-me ao contexto específico do “Vou A Tua Casa” —, eu não faço qualquer esforço para me proteger como intérprete. E tento sempre colocar-me num espaço que seja tão desconfortável para mim como o é para o espectador — afirmo isto abrindo margem para a discussão, porque sei que nem sempre acontece assim. Mas à partida não me parece justo que o espaço do “Vou A Tua Casa” não seja um espaço democrático sob o ponto de vista relacional. Quando eu digo desconfortável, poderei estar a querer dizer “imprevisível”: o facto de eu não saber o que é que vai acontecer a seguir, por exemplo. Por muito que a balança ainda pese para o meu lado, é esse o pressuposto e é essa a intencionalidade primeira. Tu não conheces todas as “ferramentas” da performance, mas vais-te aperceber delas à medida que o tempo for passando. Quando nós nos decidimos a escrever, porque foi confortável para mim por motivo x e para ti por motivo y, então isso foi justo para aquele momento. Recebemos o espectáculo que merecemos! No dia seguinte, receberíamos (ou mereceríamos) algo completamente diferente. Se calhar tu não ias estar tão bem-disposto. Ou se calhar eu iria chegar antes de ti. Se calhar não ia estar tanto frio; se não estivesse tanto frio naquele dia, se calhar teríamos ficado mais tempo juntos, por exemplo. Aqui trabalha-se nitidamente no território dos “se calhares”. E é isto que eu acho mais interessante: uma espécie de elasticidade teórica do próprio tempo teatral. Num teatro, até pode estar a acontecer um tiroteio lá fora: o espectáculo não pára.

Diogo — O espectáculo acabou já era noite.

Rogério — Para ti o espectáculo “acabou” quando nos separámos?

Diogo — …Nem por isso. Quando cheguei a casa, ainda te mandei uma mensagem, a agradecer… Já não me lembro o que é que dizia.

Rogério — Acho que era só isso, “Obrigado”.

Diogo — Não. Eu acho que também falava da história da planta e do vaso. Sabes, eu senti uma vontade enorme e quase irracional de dar uma continuidade qualquer ao que se tinha passado. Plantei a planta que me tinhas dado durante a performance num vaso e reguei-a. E no fim senti que to devia comunicar.

Rogério — Adoro essa história. É quase como fazer prova de algo que não vai voltar a acontecer, e resgatar esse momento da sua morte anunciada, da perda da sua própria memória. Não é tornar aquele momento perpétuo, mas sim dar-lhe a mesma dimensão que a vida tem. É, por isso, fantástico que tal tenha acontecido com uma planta, justamente por se tratar de um ser “vivo”, que vai ter o seu próprio ciclo de vida. Há-de chegar o dia em que vai morrer. Acho que o que fizeste encerra uma metáfora muito certeira em relação ao trabalho, e muito bonita também.

Diogo — Onde é que arranjaste a planta?

Rogério — Numa das varandas de acesso exterior a um dos prédios, onde havia pessoas a trabalhar nos escritórios, lembras-te? Sítio estranho, aquele. Os “corredores” são quadrados de pedra metidos numa estrutura de aço. Tu andas em cima daquilo e é tudo muito bamboleante e vertiginoso. Parece que vais cair a qualquer instante. E entre essa estrutura e as janelas dos escritórios, tens uma espécie de canteiros com pequenos jardins japoneses, feitos com pedrinhas pretas. No meio de algumas, cresciam ervas daninhas. E eu, não sei porquê, arranquei uma e trouxe. Aquilo é uma erva daninha, não é uma planta…

Diogo — Não! É uma planta. Senão tinha morrido logo… Aquilo é uma espécie de cacto.

Rogério — A sério??

Diogo — Sim. E cresce em todo o lado. Tem uma maneira de se reproduzir muito cómica. A planta grande é diferente das plantinhas pequenas. As pequenas são só duas folhas, que nascem da grande, e depois caem. Têm uma raiz branca, crescem e ficam iguais à grande. Ou seja, ela multiplica-se criando múltiplos dela. Eu pensei que tu a tinhas trazido contigo de casa. Até porque é uma planta muito típica de vãos de escada ou daqueles jardinzinhos improvisados…

Rogério — Não. Eu trouxe coisas das escadas dos escritórios dentro do bolso do casaco, para te mostrar: a planta e algumas pedras, lembras-te? E eu arranquei aquilo sem intenção nenhuma de arrancar também a raiz. Saiu assim; foi uma sorte! Também não fazia ideia que tinhas levado a planta contigo para casa.

Diogo — Depois foste embora.

Rogério — Estava a morrer de frio. Foi mesmo essa a decisão. E porque percebi, pelas coisas que tínhamos escrito, que também tu estavas a morrer de frio. Lembro-me de na altura ter pensado “O que fazer agora?”, que é algo que eu odeio pensar, porque me atira automaticamente para o território das coisas formatadas dos espectáculos… Pensei que podia levar-te para um sítio quente, adaptando a performance a uma circunstância nova (o frio), ou então fazer algo completamente diferente, cortar para outra cena qualquer, outro momento (percorrermos as ruas da zona, por exemplo). Lembro-me de ter achado que cortar para outra situação radicalmente diferente não resolveria o problema-base: estarmos os dois cheios de frio. Ao mesmo tempo, achei que ia ser um bocadinho violento para a relação que tínhamos construído até então irmos para outro sítio qualquer mais quente (para um café, por exemplo). Acho que seria inconcebível, depois de tudo o que nos tinha acontecido, começarmos a falar, sem escrever. E foi então que decidi mesmo “acabar” e sair.

Diogo — Concordo. E embora não tenha pensado dessa forma na altura, sinto que foi também esse o exercício que inconscientemente acabei por fazer. Prolongar aquilo teria seria insuportavelmente desconfortável…

Rogério — Mas para mim a performance não acabou depois da nossa separação. E até te posso dizer que acho que ela não acabou nunca. Nós hoje encontramo-nos, saímos juntos, temos uma data de amigos em comum. Tu fazes parte daquilo que eu carinhosamente apelido de “Clube dos Amigos do Vou A Tua Casa”. No entanto, sinto que tenho contigo uma relação muito distinta da que tenho com as outras pessoas todas que são nossas amigas, e cuja relação não começou, justamente, no contexto de uma performance. A nossa relação está inalienavelmente presa à performance do dia 17 de Fevereiro de 2005. Ainda não me consegui desenvencilhar disso, mas também não sei até que ponto é que é necessário desenvencilhar-me…

Diogo — Quando tu começaste a sair connosco, eu senti uma grande estranheza, porque não conseguia desligar a tua pessoa do contexto da performance. De repente, tu aparecias ali e era simplesmente muito estranho: parecias uma personagem a habitar um filme que não é o dela! A performance foi um momento muito especial para mim. A partir do momento em que começaste a estar comigo e com os meus amigos, deixaste de ser a “pessoa da performance” (que era, de certa forma, uma pessoa idealizada), e passaste a ser uma entidade real, que saía à noite, bebia copos connosco e dizia coisas parvas. Seja como for, e apesar da estranheza, eu achei (e acho) isto fenomenal!

Rogério — Eu também não acho que seja propriamente um problema. Aliás, eu alimento isso, contigo e com tantas outras pessoas que fazem parte desse “Clube”. Concordo quando dizes que o “No Caminho” é construído como um momento ideal, e é quase como se no ideal nós nunca mais nos víssemos na vida, se quiséssemos levar até a um exagero absurdo esse lado romântico-kitsch da “coisa”. O desconforto do encontro social posterior tem a ver, justamente, com o facto de sentirmos que, de certa forma, estamos a pôr em causa, ou até a trair (de um ponto de vista estupidamente dramatúrgico), a história do nosso encontro. Mas isso só significa, e uma vez mais, que estamos a querer impor uma dimensão “espectacularizante” a uma performance que garantidamente não a tem. Os nossos encontros posteriores fazem parte integrante da performance; não a traem, alimentam-na. O que eu ainda não resolvi foi o facto de às vezes ainda me deixar encantar pelo tal romantismo kitsch, e isso não me permitir assumir-te como uma pessoa “igual” às outras…

Diogo — Sinto o mesmo, sim! Mas seja como for, nós ficámos muito tempo sem nos vermos depois da performance. Eu lembro-me que não vi mais nenhum espectáculo teu durante bastante tempo…

Rogério — Reencontrámo-nos alguns meses depois. Acho que foste assistir ao “Fui, esboço #7”, no Teatro Taborda, em Novembro. Ou seja, 9 meses depois.

Diogo — Quando te foste embora, as coisas estavam todas espalhadas nas escadinhas onde estivemos sentados: o discman, os cigarros, as pedras, a planta, alguns papéis… E estava também o papelinho que tu tinhas deixado junto à árvore. Eu não sabia se tu ias voltar ou não. Ainda fiquei à espera. Sei que depois fumei mais um cigarro. Só então é que me decidi a arrumar as coisas. Estava muito curioso em relação ao papelinho… Sorri quando vi que era igual à frase manuscrita do meu livejournal. Fui embora. E então pensei: “Vou pelo lado oposto ao que ele foi, para não nos encontrarmos”. Entrei meio atarantado na Cinemateca, cheguei à bilheteira, vi que devia faltar cerca de uma hora para a próxima sessão. E pensei: “Que estupidez, o que é que eu estou aqui a fazer?” E fui para casa.

Rogério — Porque é que entraste na Cinemateca?

Diogo — Foi o lugar seguro que encontrei mesmo ali ao pé… Estava fragilizado, porque tinha gostado muito. De repente, “acabou”, e eu só pensava em meter-me num lugar seguro. E a Cinemateca é um desses lugares onde me refugio muitas vezes.

Rogério — Eu também fui para casa a seguir. Reli o que tínhamos escrito nos papéis e no bloco de notas e pensei: “Eu tenho que pôr isto no blog!” Foi o primeiro texto/relato sobre o “No Caminho” que publiquei. E ao ler reparei numa coisa que eu achei (e acho) poeticamente avassaladora: duas pessoas a falar/escrever sobre aquilo que lhes está a acontecer naquele exacto momento (“está frio!, vou fumar, quero ir para casa…”). Esta consciencialização do momento, estranhamente carregada de uma poesia que já existe no real na forma de ready-made (ou seja, não é construída performativamente), é algo que faz parte da enunciação mais basilar do “No Caminho”, só que nunca tinha sido memorialmente fixada de uma forma tão especial. Ou seja, sinto que o espectáculo que fiz para ti (perdão: que fizemos juntos!) foi muito completo. Muito poético e muito empírico ao mesmo tempo. E documentado em tempo real.

Diogo — Eu no dia a seguir contei a toda a gente. Aos meus colegas do café pós-almoço, lá nas Belas-Artes, por exemplo. E à medida que ia contando, lembrava-me de cada vez mais pormenores. Acho que guardei um grande carinho pela coisa, provavelmente por ter sido feita só para mim. E depois era de algo assim que eu andava mesmo a precisar naquela altura. Soube-me muito bem que alguém estivesse ali comigo, a dar-me a ouvir as “minhas” músicas, e a ouvi-las comigo também. Pode parecer redundante, é certo, mas para mim foi quase como voltar a receber o presente que alguém já me tinha dado. Uma espécie de recriação de uma excitação passada. Foi muito especial. E apesar de guardar muitas coisas para mim, é a parte “emocional” que eu decido partilhar, quando alguém me pergunta sobre a performance. Porque eu não penso nisto só como espectáculo, acho que seria muito redutor. Foi uma experiência muito mais rica: duas pessoas que decidem ficar uma com a outra durante um período de tempo e depois vão-se embora, sem justificações nem explanações adicionais. É claro que eu não ignoro o elemento “espectáculo”, mas isso acabou por ser o menos importante. O meu encontro contigo não foi para a gaveta dos espectáculos, foi para a gaveta das pessoas…

Rogério — Depois escreveste no teu livejournal. Puseste só o título e o autor, como quem diz: “Vi”. Tal como tinhas feito anteriormente com as músicas.

Diogo — Exacto. É o que faço quando gosto muito de uma coisa. Enuncio. Não preciso de a descrever.

Lisboa, Janeiro 2007

BACK HOME