05.

LADO A — GUIÃO

DA VONTADE DE VOLTAR ATRÁS

(terceira figura do defeito)

Rogério Nuno Costa [texto]

Carlos Bunga [obra visual só disponível na edição física do livro]

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©Todas as imagens contidas neste documento da autoria de Luísa Casella, Lisboa, 2003/2004.

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“Cada corpo ocupa o seu lugar”

(Augé citando Marin citando Furetière, p. 51)

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DOCUMENTO UM: Acontece tudo.

I.

Chegas e quando entras vês uma enorme tela com uma paisagem impressa. Uma montanha verde e dois rios azuis, gelados; no meio, casas. Um ponto de fuga para uma barragem que é um manto que cobre uma aldeia. Tudo em verde sfumato, um dégradé bucolique. Tudo em renascentistas. Um ciclorama que é um tapete de relva estende-se longitudinalmente no espaço. Caminhamos em cima dele. Deixamos marcadas as marcas dos nossos sapatos, na terra molhada de um sítio que tem os maiores níveis de pluviosidade do território português e uma das maiores taxas de população jovem do território europeu. Juntos, jovens e molhados, assinamos com os pés a certidão contratual de que juntos, jovens e molhados, faremos um espectáculo. Um espectáculo que é uma raiz; já existe, mas (ainda) não se vê. E mesmo quando furar esta mesma terra invernosa, estatisticamente jovem e molhada que, juntos, hoje, nos decidimos a pisar, essa raiz-de-espectáculo continuará a ser uma realidade fundadora, logo invisível, logo original, uma convenção; os alicerces de uma coisa por vir. Juntos, comprometemo-nos a desenformá-la, a convenção. A cumprir as deixas, uma a uma, uma a seguir à outra; primeiro a primeira, no fim a última. Brindamos com vinho verde o contrato marcado a marca de sapato — o tapete para o limpar é toda a superfície de acção; a raiz-de-espectáculo é uma superfície pisante que é uma casa que é só uma porta de entrada associada a um ideal iniciático de purificação. Um ritual. Uma convenção: primeiro cantam-se os “Parabéns”, só depois é que se apagam as velas. Sempre assim foi, sempre assim há-de ser. E é por isso que a primeira deixa deste espectáculo enraizado na geografia pessoal de cada um dos contraentes calçados é: “Vamos fazer um espectáculo”. Este espectáculo pode ter um título. Chama-se “Vou A Tua Casa”. É um espectáculo convencional. Não sabemos nada no início, mas sabemos que vamos ter saudades no fim. Se fosse um objecto, seria uma carta escrita à mão, jamais um telegrama cantado. É na velocidade caligrafada do pensamento que se encerra a sua performatividade. Não é para ser engraçadinho, interessantezinho, girinho, inteligentezinho. É para ser humano. Humanozinho. Uma raiz pequenina que pode ser a do cabelo. Um ADN essencial. Um eterno estado de graça em forma de foyer. Uma porta de entrada com um tapete para limpar os pés. O espectáculo contratual assinado por nós: um espectáculo dentro de portas, que se fica pela soleira; ou um espectáculo à porta fechada numa casa onde as portas não abrem. Uma experiência religiosa: o Miguel Ângelo pendurado nos guindastes a pintar os frescos da Capela Sistina. Velocidade performativa com força retroactiva. Cheiro a tinta. Outras químicas. Do lado de fora da campânula geo-emocional que nos protege (revela…, reclama…), movimenta-se toda uma horda de papparazis geo-políticos. Flash!, pergunta, resposta: o elemento-base é o inorgânico (como no filme “O Elemento do Crime”, do Lars von Trier). Flash!, resposta: a cor ficará entre o amarelo pálido e o branco muito sujo. Liga bem com qualquer estação do ano. Come pouco. É fraco. Flash! É tímido. Acredita no objecto como detentor de um qualquer poder celebratório; é uma preparação nervosa para uma festa de anos fora de tempo. Se fosse um animal, seria uma cegonha. Mas disfarçada de cão. O tema é o amor. Flash! (mortiço) A horda desiste; abandona a campânula de vidro com o rabo no meio das pernas. Gane. Passagem pop: “Everytime you go away, you take a piece of me with you”. Seguinte:

II

Começo em Lisboa, em 2003. Paro em Torres Vedras, em 2004. Acabo em Londres, no mês a seguir. Suspendo. Tenho demasiados blocos de notas começados, nunca terminados, à espera, caóticos. O que têm dentro não corresponde ao que prometem na capa. Não tenho respeito nenhum pelos objectos. Adio-os todos os dias. Consigo transcrever algumas coisas para dentro do meu computador de 1995. Memória curta. Desrespeito absoluto pela rapidez do tempo. Vários bloqueios diários. Um escritório sempre improvisado, sem estantes, sem caixas etiquetadas, uma só ergonomia. Muito papel. Muitos post-its amarelo-clássico. Canetas de todas as cores. Caos absoluto. Odeio Lisboa. Amo Lisboa. Começo a perder amigos. Luto desalmadamente pelo seu regresso. Lamento. Incluo-os na minha vida adiada de todos os dias. Chamo-os. Eles lá vão aparecendo a conta-gotas, mimando euforias passadas. Recebem-me. E eu com a obsessão dos métodos antropológicos e da observação participante, entro-lhes casa adentro munido de mais um caderno novo em folha, uma caneta de tinta em gel, uma ou duas máquinas fotográficas descartáveis, coisas que se colam às paredes, várias. Vou A Tua Casa [título]. Ou vou a tua casa [acção]. Digo e escrevo. Corrijo. Tiro as aspas. Ponho tudo em minúsculas: vou a tua casa. Volto às maiúsculas: Vou A Tua Casa. Um pingue-ponge eterno entre dois opostos; um só jogador — joga a bola e espera que ela dê a volta ao mundo e a ele regresse, para depois a jogar de novo no sentido contrário. Meta-giga-supra-pingue-pongue. Um pingue-pongue auto-referencial. Binómio. Binário. Ou zero, ou um. Nunca os números do meio; a dúvida — transformada em obsessão — de que aí jamais poderá estar a virtude. O amor possessivo pelo charme da periferia. A transformação anacrónica dos não-lugares em lugares-onde. Juntos fazemos um espectáculo que se resume a um mapa geográfico de gestos e emoções. Juntos nos compremetemos a jogar o papel do filho bastardo da antropologia sobre-moderna — começar por acreditar que o método pode mesmo substituir-se ao objecto. Marcamos. Seguimos.

III

—Vou A Tua Casa ou vou a tua casa é um espectáculo convencional.

—Vou A Tua Casa ou vou a tua casa é uma intervenção (…)realista.

[Numa intervenção onde acontece “tudo”, ou onde “tudo acontece”, às reticências corresponderá o sufixo que se quiser.]

—Vou A Tua Casa ou vou a tua casa não é uma entrega ao domicílio. É uma preparação no domicílio de algo que se espera, e que (posso eu dizer agora) não vai acontecer. Por isso, “acontece tudo”.

—Vou A Tua Casa ou vou a tua casa não é uma festa; é a preparação. Fez-se o pedido, mas o rapaz espatifou a mota e perdeu as pizzas no caminho.

[…mas dá para remediar]

Remediemos então, reciclando: “A mentira será sempre verdadeira, mesmo que não acredites nela…”, escreve uma amiga na caixa de comentários do primeiro post publicado no endereço www.vouatuacasa.blogspot.com. Citava Alejandra Pizarnik. Atravessava esse texto inaugural, sinóptico, em que declaro as minhas intenções e as minhas tensões para/com o “Vou A Tua Casa” [na sua versão “casas”, na sua versão “A”, na sua atitude primeira] com a sua própria vida atravessada pela minha. Citava-se, portanto. Biografava-se. Como se comigo escrevesse: Vou a tua casa. A frase. Sem qualquer tipo de fundamentalismo semântico. Começou por ser isso: uma frase sub-metafórica que é mais uma ética geográfica e menos uma moral artística. A primeira vez que a proferi, precisei da ajuda de uma especialista em língua portuguesa — Clara, amarense, best friend desde 1978: “Vou a tua casa” ou “Vou à tua casa”? Corrigi. E continuei a escrever. “O título é literal. Gosto de títulos literais. Este não engana ninguém. Potencialmente terá o condão de assustar uns quantos, mas não é mais do que isto: um actor (urgente) a ir a casa de alguém. Nada mais para além da simples aventura artística (teatral), em constante fuga do espaço e do tempo. A óbvia questão dos limites do teatro (quais limites?) vem por arrasto, mas não me interessa. Interessam-me as pessoas, as casas, e o facto de ir ter com elas; se isso é mais ou menos teatro, mais ou menos espectáculo, mais ou menos espectacular, pouco me importa. Aquilo que faço tem sempre essa carga de realidade forçada, arrancada aos ferros do meu estômago, e cheia de truques maldosos e mentiras encapuçadas. Gosto de fingir, fazer de conta que estou muito emocionado. Não acredito na verdade. Para mim é tudo mentira. É mentira que existem pessoas, casas, e eu a ir ter com elas. As cidades são mentirosas. Eu minto. Elas também. E somos assim felizes.”

Pausa.

IV

2003. Pensava que seria possível transformar performativamente a acção “ir a casa de alguém”, dela fazendo forma, e dela fazendo conteúdo. Significantes e significados em constante tensão e in-tensão dialécticas. Eu como signo uno e indivisível. Eu remediando e reciclando ad nauseum. Como se isso fosse “suficiente” (podemos substituir por “possível”, ou então por “producente”). Como se isso fosse um “nada” ou um “algo” potenciado a um possível (suficiente, producente…) “tudo”. Levar uma pizza já com os ingredientes todos em cima, pronta a ser deglutida no tempo record de uma fome espontânea, não me parecia bem. Para isso juntava-me à horda de papparazis e construía com eles a maquete micro-política de um palco à italiana, à base de papel mastigado de jornal. Representava o papel. Ou a pasta do “papel”. Porque cogumelos serão sempre cogumelos. Frango será sempre frango. Ananás será sempre ananás. Pepperoni será sempre pepperoni. O segredo, esse, está na massa. O segredo, esse, está na “base”. Respondi a todas as “Flashes Gordas” geo-políticas com alternativas preposicionais: em vez de uma entrega ao, poderia ser uma entrega no, ou uma entrega para… Não?! How Scandinavian of me… Desisti da horda na mesma exacta medida em que a horda desistiu de mim. No entretanto, lá fui ficando com um autocolante preso à testa. Às vezes deu jeito. Outras vezes não.

V

Continuo a escrever como quem desenha. Trata-se do meu último reduto cosmético (na altura ainda não tinha descoberto a cozinha de fusão…). Mas não me consigo abreviar; medo de me extinguir; estendo-me; extenso. Não quero ir a tua casa para ser “diferente”. Quero ir a tua casa para ser “igual”. Se me querem subversivo, então aprendam a virar o frango, aprendam a apreciar o charme da periferia, o avesso: é aí (e não ali) que me vão encontrar. Estou nesse sítio (e não no outro). Fui (não vim). A tua casa, digo. À vossa, se quiserem. Vou, fui, para ser exactamente igual a todos os outros antes de mim. Para ser igual a mim. Para me igualar a ti. Entro, e a tua casa é um caderno novo em folha, por estrear [podemos, se quisermos, voltar ao início deste texto, reler tudo novamente, para confirmarmos que de facto o autor é obcecado pela imagem (nunca pela metáfora) da tábua rasa; uma segunda leitura, menos atenta talvez, mas mais expedita, confirmaria um segundo plano de intenções, localizando o autor num túnel de pensamento performativo que é um beco sem saída: ele força-o, e força-o, e volta a forçá-lo; o beco cresce de amplitude, estende-se, extenso, mas nunca deixa de ser um beco sem saída; e ele lá o vai forçando, uma e outra vez; how Portuguese of him!; diz que é feliz assim e faz disso nota biográfica; uma terceira leitura, ressabiada, chamaria o criador de “fundamentalista inflexível”; não queremos falar desta porque temos medo de concordar]. Continua a escrever. Quando sair, arruma-lo, o caderno, caoticamente, a um canto. Diz: “És tão descartável (reciclável, remediável) para mim quanto o papel que guarda o calor desta base de pizza acabadinha de sair do forno.” Com tanta conversa à soleira da porta, deixámos a base esfriar, estragámos a festa, ou então inventámos uma maneira diferente de sermos iguais. Nas paredes da tua casa, porém, ficaram coladas as folhas rasgadas do caderno descartável, ingredientes perdidos para sempre, fora de base, sem parte, nem sabor; crus. É a tua vez de te reciclares. Remedeia-te. Extenso. Agora amanha-te.

VI

O tema deste espectáculo é o “desapontamento”.

VII

Isto foi o geo-drama. Passemos ao retrato psicológico da personagem. Vesti-me, uma coisa apressada que inventei, à velocidade da luz. Depois levei-me assim para uns sítios, a ver se colava. Pedi à Luísa que fotografasse. Entradas e saídas. Chegar, ir embora. Umas roupas características. Umas caras características. Um ambiente característico, emoldurado, confiscado a um avô e a uma casa que não são meus. (Não sei fazer) Tudo muito característico. (Não sei fazer) Tudo com vista à obtenção de uma pseudo-fotogenia: que o “Vou A Tua Casa” fosse uma história feita de imagens, umas metidas no tempo de agora, outras cristalizadas num tempo que nunca existiu. Mas era o princípio do verbo “ir”, quando as acções são verdes e o corpo não avança para lá dos limites do óbvio. Métodos óbvios = objectos óbvios. Parecia-me. Ainda não sabia que podíamos descobrir a metodologia no fim e ainda assim chegar aos mesmos resultados [“mesmos” pode ser sinónimo de “diferentes”]. Também não sabia. Sabia, porém, (suspeitava) que não interessava para nada o que se faz; interessava (interessaria) o como se faz. Foi por isso que no meu bloco de notas adiado escrevi o título: “Todas as coisas que eu não quero fazer, todas as coisas que eu me recuso a fazer, todas as coisas que eu não vou fazer mais”. Tinha idade suficiente para não ter juízo e já estava farto. Lembrei-me. Queria ter 50 anos. Já. Ou então 60. Ou então 70. E poder falar com propriedade de temas como o tema do “amor”, que é daqueles temas que dizem só se poder discorrer de forma segura e fundamentada a partir dos 50 anos. Ou dos 60. Ou dos 70. Começo a coleccionar coisas de um tempo que não conhecia. Saudades do tempo em que nascia e não me lembrava. Em 1978, dançava-se muito disco sound. A confiar nos charts anuais que abundam na Internet, é muito provável que no minuto em que eu nasci, uma qualquer rádio local ou nacional passasse o “Take A Chance On Me”, dos Abba. “Isto não é um pedido subliminar; é mesmo uma assinatura!”, Rogério Nuno Costa as himself… E é muito provável que no minuto em que a minha best friend nasceu, um mês depois, essa mesma rádio anunciasse que afinal o número 1 do top de vendas pertence ao “YMCA”, dos Village People — as “pessoas da aldeia”. Podia ser Amares, essa aldeia. Eu e a best friend, unidos umbilicalmente por ideias verdes ao som do boogie woogie, e pessoas à volta, sem fim, a falar galaico-português. Verão. Em Junho de 1978, Tessalónica foi abanada por um violento terramoto, Tito auto-proclamou-se presidente vitalício da Jugoslávia, David Berkowitz foi condenado a 25 anos de prisão, e o corpo de Charlie Chaplin foi finalmente encontrado, num lago suíço, a boiar. Foi “fundamentalista inflexível” que me chamou lá em cima? (Não.) Então acha que eu estou a mentir, não acha?… (Não/Sei, Não/Respondo.) Tudo isto é verdade. Tenho dois espectáculos na cabeça que querem ser o mesmo. Tenho que parar. Não me concentro. Não sei fazer. Envio e-mails a partir de um cyber-café. Não sei o que é um blog; mas já existe. Não imagino nada. Só quero que me deixem em paz. Em Agosto, escrevo “Unidade Zero” na parede do quarto, numa folha branca de papel que vejo reproduzida até ao infinito, no meu braço esquerdo (a lápis preto de pintar os olhos), num word document do meu computador de 1995, no próprio computador de 1995 (a marcador vermelho de colorir livros de colorir) e no vidro embaciado da casa-de-banho. Escreveria depois em suportes variados em todas as casas que visitei. Parece que é para começar:

VIII

Antes de entrar (ponto zero); agarro-me a este momento como a cegonha/cão se agarra ao berço/osso. Abro um buraco na soleira da tua porta, meto-me lá dentro, cheio de vergonha. Não escondo só o osso; escondo-me a mim também. É o berço da minha nação. Fundamentalista e inflexível. Faço render o peixe. Fico o maior tempo possível (suficiente, producente) dentro do buraco fundador. Vou-te atirando recadinhos escritos em papel. A ver se colam. A ver se os colas. Isto não vai ter fim. Não pode. Não quero/queremos. Um dos recadinhos é uma música cantada pelo Bryan Ferry. You must remember this. A kiss is still a kiss. A sigh is just a sigh… Trá-lá-lá. Volume médio. O cão está velho. É um cão velho. E é um cão de Paris. Às vezes espreita pelo buraco, o cão, a ver se ainda estás. “Salut?”. Estás. Queres estar. Nunca quiseste não estar. O cão entra várias vezes. Espreita e sai outra vez. Volta a bater à porta. Entra, volta a sair. Três ou quatro vezes. Diz-te que também sabe tocar piano, mas é tudo mentira. É o cão a fazer-se de pessoa que se faz de interessante. Houve um dia que o cão entrou com uma roupa nova [o cão gosta de se vestir bem quando vai ter contigo; diz que és especial]; a camisola nova do cão tem a palavra “GENIUS” escrita a verde berrante, com estrelinhas à volta, a imitar uma qualquer cintilação luminosa. Não gostaste. Disseste: “O figurino é muito pretensioso…”. Ora o cão, em Português de Portugal, apenas com um ligeiro sotaque lá de cima, do Berço, diz-te o seguinte: “Não é um figurino, é uma peça de roupa.” Só que os cães, mesmo sendo cães franceses que na verdade são cegonhas, não falam. E tu não falas com coisas que não falam, não acreditas: “Não estou interessada, obrigada!”. Bates com a porta.

IX

Chega de fábulas francesas. Reciclemos de novo:

—No dia 10 de Abril de 2003 fui a tua casa. “E novidades?” Pergunta-tema recorrente. Não há novidades. Isto podia ser sobre isto. Eu ir a tua casa muitas vezes e não encontrar nada. E então, perguntar. Pergunta: quantas vezes chega a casa por dia? A) uma; B) duas; C) mais de duas; D) não/sei, não/respondo. O teatro tem para mim sabor idêntico às aulas da cadeira de Inquéritos à Opinião Pública (curso de licenciatura em Comunicação Social, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, 3.º ano, 1998). Mas isso não é trabalho para um qualquer Observatório das Actividades Culturais? (Não.) Para contrabalançar, fazemos o jogo do globo terrestre. É assim: fecha-se os olhos, faz-se girar o globo, e para onde o dedo apontar, é para onde iremos no momento seguinte. Marrocos! Chegas lá, e o que é que acontece? Tem que acontecer alguma coisa? (Tem.) [acontece alguma coisa.] E agora, como é que se sai disto, como é que se vai embora daqui? (Não sei.) Devias saber; não fizeste o trabalho de casa. Ou então eu não devia estar aqui. Não posso fingir. Não posso fazer de conta que deixo o buraco aberto à soleira da tua porta, apenas para fazer de conta que isto é sobre “deixar (em) aberto”. Isto até pode ser sobre “deixar (em) aberto”, mas jamais será sobre “fazer de conta”. Reparo. Se calhar sou assaltado por uma sensação estranha em que começo a ter demasiada noção do que me está a acontecer. Porque eu estou realmente aqui, penso. (Estás?) Estou. Aqui, e não noutro sítio qualquer. E conheço-te. Não é extraordinário? Eu conheço-te a TI, não conheço outra pessoa qualquer. Medo. (Tens?) Não me lembro de como saí.

—No dia 11 de Abril de 2003 fui a tua casa. Desrespeito absoluto pelos objectos. Desrespeito absoluto pelos TEUS objectos. Não entendo a tua etiqueta; tento colar a minha, a cuspe. Na tua testa. É a minha cabeça de cão, presa por um fio à tua casa-guilhotina, que já começa a pensar naquilo que quer ver, por saber que existe. E isso não é bom. (Não é?) Ensinaram-me que não. Está a chover e tu decides levar-me a casa de carro. Isto é real e isto é verdade; ao mesmo tempo. Fizeste o trabalho de casa…

—No dia 13 de Abril de 2003 fui a tua casa. Ver as coisas pela segunda vez. Tarefa diferente daquela que é ver as coisas pela primeira vez. Implico-me na comparação de dois momentos, sendo que o primeiro é mais especial que o segundo. Isto é uma lei absoluta e indicutível: se o “Vou A Tua Casa” quer ser um espectáculo convencional, então vai padecer sempre desse mal, vai ser sempre portador do “síndrome do segundo dia”, vai ser sempre um espectáculo sobre o “desapontamento”. Imagino invasões mais perigosas: pintar-te a parede com um laranja da moda, mudar-te a disposição dos móveis, pôr-te à vista coisas escondidas em caixas, gavetas e armários, deitar-te coisas fora… Temos pena, mas vai ser sempre pior do que aquilo que tinhas (tínhamos) imaginado. Vai ser sempre em tentativas anacrónicas de uma qualquer mimesis do passado. Mesmo que não exista passado nenhum. Porque é isso que todos queremos: um passado, de preferência “comum”, coincidente. No nosso (teu) caso, e só por acaso, até existe: um passado “comum” cheio de coincidências! Faço de conta que mesmo que esse passado não existisse, existiria… [Deixa-me!, estou só a tentar passar isto do particular para o universal…] Ou seja, vamos imaginar que eu conheço todas as pessoas do mundo, que já fui a casa de todas as pessoas do mundo pelo menos uma vez, e que agora, por causa deste espectáculo, vou a casa delas uma segunda vez. Não sabemos se será a última; mas sabemos que não é a primeira. Ou seja, vamos imaginar que o mundo inteiro espera por mim no conforto do seu lar inacabado e isento de tinta, numa tensão sindromática de segundo dia — sabe perfeitamente que vai correr tudo mal, mas também sabe que há-de chegar o dia em que a regra terá a sua excepção. Será que ele vai fazer o mesmo que fez da outra vez? Uma permanente dúvida existencial à escala planetária: um concept-boom pré-bélico. Até lá, produzimos coincidências!; que sendo coisas que deixam de o ser a partir do momento em que são “produzidas”, parecem-se com cães que farejam a casa prometendo entrada, mas que depois se deixam ficar à soleira da porta, de rabo metido no meio das pernas, desconfiados, a ganir. Faço teatro desde 1999 e sempre assim foi. Logo, sempre assim há-de ser. “Queres um café?”. Quero. Celebrámos: e apagámos as velas no fim. Rogério & Luísa — escritos em post-it amarelo-clássico. Um anúncio adiado, para sempre.

—No dia 7 de Maio de 2003 fui a tua casa. Comer, a dois. Vários pratos sujos: espaço privilegiado para pôr tudo em pratos limpos. Comecei eu. Terminaste tu. Começo a gostar disto. Joga-se. Repentinamente, propões-me uma evolução dramatúrgica abençoada a copos de amêndoa amarga, gelo e sumo de limão. O mapeamento vai-se tornando cada vez mais complexo. Tu impões-te, queres mudar cláusulas ao contrato. Ganhas. Nunca ninguém havia dito ou escrito que surrealismo era sinónimo de livre arbítrio. Bateu tudo certo no fim. Em jeito de rolling credits, puseste a tocar o Greatest Hits da Björk, “em minha homenagem”, enquanto me ias informando que já estava na altura de assentar, comprar casa, carro, roupa lavada. Eu só preciso de ar! Aproveito o efeito entorpecedor da amêndoa amarga e escrevo desalmadamente. Chega de massagens ao ego.

Trezentos quilómetros depois…

—No dia 11 de Maio de 2003 fui a tua casa. Escrevi o teu nome num post-it. És do latim “brilhante, luzente, ilustre”. Revelas uma pessoa com forte sentido crítico e muita racionalidade. Nem sempre os outros entendem o teu auto-controle e perfeccionismo, mas é essa a tua forma de lutar pelo sucesso. Geralmente, progrides muito na vida. Desde 1978 que assim é. Depois 1996. E depois agora. [Deixa-me, estou a tentar passar isto do particular para o universal!] Traslado palavras grosseiramente do bloco de notas de 2003 para aqui, livro. Mudo algumas (poucas) coisas: pontuo, virgulo, arranjo. Ponho tudo em minúsculas. Mas afirmo que continuo a usar maiúsculas nos nomes das pessoas. Clara, por exemplo. E Rogério, por exemplo. Ela tem 24 anos, faz 25 daqui a dois meses. Eu tenho 24 anos. Faço 25 daqui a um mês. Somos de Amares. É lá que estamos agora. Está sol. Vou a tua casa de bicicleta. É a melhor maneira de saber (sentindo na pele e no estômago) que estou na terra onde nasci. O vento é sempre gelado, os pedais levam-me sempre aos sítios mais rápido que o próprio curso dos rios (que amainam quando se encontram, por fim), e há sempre insectos que se homicidam na minha cara. Chego a tua casa e encontro a preparação para uma celebração: isto não pode ser uma banalidade, tem que ser uma ritualidade. É o espectáculo que merecemos. A tua mãe recebe-me com um lanche que ocupa o espaço total de uma mesa, e um sorriso com a mesma luz que se avista do cimo do penedo onde anos antes assistimos à chuva de estrelas falhada. Serve um chá revigorante que trouxe dos Açores, e faz-me muitas perguntas. É o espectáculo. E começou. Tema (da conversa e do espectáculo): os artistas que vestem o hábito para se fazerem passar por monge, entre outras semióticas do vestuário (por exemplo: a bengala do maestro Vitorino d’Almeida que não serve rigorosamente para nada a não ser para “dar o ar”). Anoto: este “Vou A Tua Casa” é, indubitavelmente, um espectáculo de teatro. Mas e acontece o quê? (Tem que acontecer algo?) Tem, nem que seja um sonho: a mãe da Clara sonha muitas vezes que a encarregam de dar de comer aos animais, mas ela desmazela-se e deixa-os morrer à fome; acorda sempre muito aflita. Anoto: “sonhos” [na altura queria dizer qualquer coisa como “realidades demasiado reais”, “canções de embalar”, “poemas visuais”, “segredos” ou “fairytales” que são na verdade “sillytales”]. Sei hoje que o “Vou A Tua Casa” é/foi tudo isso e o contrário também. Mas ao mesmo tempo… [Deixa-me, estou a tentar…!] E depois interpreta-se sempre o sonho da mãe Manuela à luz daquele outro que toda a gente tem, que é sair à rua despido e morrer de vergonha. Mas o sonho da mãe Manuela é diferente: não é sobre morrer de vergonha das pessoas, é sobre matar essas mesmas pessoas antes sequer que elas tenham tempo de perceber que estamos despidos. Não é morrer na cruz pelas nozes que demos aos desdentados; é o contrário. Não é desmazelo; é purificação. Recordo, conto, e anoto: o meu sonho planado, em viagem, serpenteando por ruas e ruas de casas esventradas, casas de pessoas desconhecidas. Pessoas despidas. E isto não são os peixes que se comem uns aos outros do padre António Vieira. Porque isto não é intimidade, é exposição; e como tal, isto não é criação, é revelação. Teatro. E é a Clara que faz agora de Freud: “Vou A Tua Casa” é sobre despir pessoas. Nesta casa, somos religiosos, e acreditamos em Deus. Tal como aquele prédio sem fachada que um dia vi, quando descia a rua do Alecrim: os vestígios gráficos do que outrora foi a separação arquitectónica dos andares e das divisões, e o trabalho do Carlos Bunga, que é isto tudo, mas em “fairy/sillytale“: e isto não é/foi inspiração, isto é/foi intuição. Deus. Ideias: correspondência entre artistas, cartas, recortes de jornal, listas de compras, listas de coisas a fazer, outras listas de outras coisas [estamos em 2003…], frases bombásticas, textos ditos como se estivessem a ser escritos (no momento em que se escrevem), por aí… “Vou A Tua Casa” é, indubitavelmente, uma vontade de voltar atrás. E este espectáculo é o primeiro espectáculo. Ir (voltar) a casa da Clara significa visitar as casas de todas as pessoas do mundo pela segunda vez. Daqui a dois meses, faz 30 anos. Daqui a um mês, eu também. Agora sim, começou o milénio.

X

Em Setembro, escrevo “Unidade Um” na parede do quarto, numa folha branca de papel que vejo reproduzida até ao infinito, no meu braço esquerdo (a lápis preto de pintar os olhos), num word document do meu computador de 1995, no próprio computador de 1995 (a marcador vermelho de colorir livros de colorir), no vidro embaciado da casa-de-banho. Escrevi depois em suportes variados em todas as casas que visitei. Pronto, entrei. Estou dentro. A pergunta que se coloca agora é: “E agora”? …Vamos com calma. Sei lá se não é contigo que vou querer viver para sempre… Há que ser cauteloso. Primeiros sintomas: medir o som, medir o ar, medir a textura das paredes, medir as pessoas, medir outras coisas de importância equiparável às anteriores; vazios legais. Escrevo no guião: as linhas com que a casa se cose (sinopse). Abro e fecho a porta da entrada vezes sem conta, até perceber a acústica da despedida, como que a preparar-te para a catástrofe final. Espreito as divisões, não entro. Deixo-me ficar pelo corredor, esse não-sítio que é um impasse habitacional. Para onde vou? Para onde vamos? Tento perceber até onde nos poderá levar essa tua (nossa) interpassividade. Se eu lamber um bocadinho esta parede, talvez consiga descobrir o que cozinhaste para o almoço sem ter que vasculhar o frigorífico ou a loiça suja. É o nosso segredo. E isto diz que é teatro. Qual é a minha personagem?! (Sim, qual é a tua personagem?) Ora bem, a minha personagem é um homem historicamente descaracterizado, acabado de chegar de um qualquer sítio esfumado no próprio tempo, e que entra em casa como se regressasse à sua terra natal depois de um quarto de século perdido em consecutivas viagens. “Está tudo tão diferente e simultaneamente parece que nada mudou”. Manchete: ‘Actor vai a sua casa, tenta encaixar-se em sítios protegidos do seu olhar, descobre que espaços entre-móveis lhe possam servir as medidas do corpo. Encaixa-se e encaixota-se. E a seguir deixa-se fotografar. Descartavelmente.’ Flash! Qual Ramiro Guerreiro a querer que os seus ossos sejam vigas com cimento e a sua carne arquitectura escandinava com sotaque e retórica pós-modernos. Retiro os post-its da mala.

[Aviso à tripulação: isto é o performer emancipado do buraco a enfrentar a casa-fobia com determinação. Ponto de não retorno, por supuesto…]

Estória. Em 1978, a empresa americana 3M distribui blocos gratuitos de post-its (nos seus clássicos e estandardizados sete centímetros e meio de amarelo-canário) pelos habitantes da cidade de Boise, no Idaho. 90% dos utilizadores afirmam que comprariam o produto a seguir. Um mês depois, nasci. Dois anos depois, a marca Post-It transforma-se em objecto post-it, a função vence o conceito, e eu já gasto dias inteiros, em Amares, a cortar com a tesoura da minha mãe costureira pedaços pequeninos de folhas inteiras de jornal para dentro de uma caixa. O objectivo do jogo é encher a caixa de pedaços pequeninos de papel de jornal cortado à tesoura. Quando a caixa enche, o jogo acaba. Não há função. Só há conceito. Acaba-se o dia também. No “Vou A Tua Casa”, brinca-se mais ou menos assim: finda a repérage inicial, começa a observação invisível e a sistematização espacial em linhas de fuga e pontos convexos que possam despertar sentimentos mais ou menos conflituosos. Encaixa-se. Encaixota-se. Abre-se terreno. Isto é trabalho. E dá trabalho: post-ito-te a casa para que ela me sirva os propósitos, transformo-a em função, só tenho que operar nela depois. Não quero que a tua casa signifique; não quero que ela seja metáfora de nada; a tua casa é a tua casa; a tua casa não é um teatro. Quanto muito será o teatro. Mas isso é uma contingência: vives lá, tenho que aprender a lidar com isso como quem bebe copos de água. Dás-me um? Pergunta-tema recorrente. Odiamos cenários de guerra, não odiamos? Odiamos. Mas também odiamos cenários de paz. Queremos outra coisa.

—No dia 12 de Maio de 2003 fui a tua casa. Uma casa cujos cantos conheço tão bem, não como a palma da mão (cuja quirologia, quantas vezes!, me desvia do destino…), mas como a história dos meus amores e desamores, por exemplo. Essa, tenho-a escrita em sítios mais ou menos recônditos desta casa que existe em forma de inventário: todos os acontecimentos marcantes marcados a papel em sítios recônditos que se espalham desde as escadas de madeira às janelas curtas no cimo do quarto, cuja vista para ser vista exige um esforço hercúleo de ampliação do pescoço. E depois gosto sempre de pensar que estou numa casa que se encontra literalmente colada a um monumento histórico. Isto em Braga; se fosse Paris, era o mesmo que viver numa casa que fica colada ao Arco de Triunfo. O “Vou A Tua Casa” é sobre isto: histórias de amor, histórias de desamor e lógicas forçadas, mais ou menos históricas, mais ou menos historiais. Uma vontade de voltar atrás. Revelo a evidência anotada visitas antes que este “espectáculo” (que é de “teatro”) vai acontecer nas casas das pessoas que o quiserem ver, não por uma questão de criação, mas por uma questão de revelação. Dizes-me que queres. Depois dizes-me que me imaginas a partir-te a casa toda ao pontapé. E depois dizes-me que eu sou importante. O “Vou A Tua Casa” é sobre pessoas importantes. Sandra. “Eu depois telefono-te!”. Digo. E anoto. No caminho, prevejo nessa promessa despedida a solução para alguns dos problemas estruturais: em Setembro, quando chegar a vez de escrever “Unidade Um” nas paredes das casas-cenários-de-guerra-bidimensionais, lembro-me que vou esquecer-me de como entrei, mas sei que vou acabar proferindo a promessa-despedida em substituição da destruição da casa ao pontapé. Não cumpro a promessa, portanto; enuncio-a, só. Um post-it que não concretiza a sua função: ou porque fica colado para sempre à parede, qual tatuagem de interiores, ou porque a cola é deficiente e o post-it desprende-se e cai. Era assim que eu gostava que todos os espectáculos, sobretudo os “de teatro”, fossem: conceitos disfuncionais, desligados; prometem aquilo que não podem. À Sandra, essa, ligo muitas vezes…

XI

—No dia 12 de Maio de 2003 fui a tua casa. Isto vai ser o terceiro espectáculo. Queremos acabar com a dualidade. Mas queremos continuidade; achamos a descontinuidade coisa de uma frivolidade assassina. Começas: “O Tigre é o espertalhão: consegue abrir os portões com os dentes e a língua. O Mike é o preguiçoso: só sabe comer e dormir. O Leão é o ciumento, talvez por ser o mais velho.” Apresentas-me os cães como quem introduz as personagens de uma peça, no início de um texto que não se sabe onde começou (o livro não tem capa, nem contra-capa, e pode ser lido de trás para a frente e de frente para trás), e não se sabe onde vai acabar. As personagens existem, contudo. Mexem-se, estão vivas. E ladram. Mas são-me apresentadas como se vivessem na bidimensionalidade de uma folha de papel. O “Vou A Tua Casa”, em casa das pessoas, será sobre o achatamento das mesmas numa folha fina de sentido. Pessoas “importantes” comprimidas em folhas de papel. Pessoas “importantes” tão bidimensionais quanto os dançarinos do Luís XIV, para que se vejam bem ao longe, e ao perto como se fossem microorganismos vistos através de uma lupa. Realidades míopes. Pessoas “importantes” que se transformam em personagens porque eu lhes colo um papel na testa com a palavra “importante” escrita em cima. A Claudine, um cão de Paris mascarado de cegonha, é a mais desconcertante “não-actriz” que conheço, e mostra-me que o “Vou A Tua Casa”, em casa das pessoas, será, indubitavelmente, um espectáculo sobre os cheiros que as casas têm. Tem tanta certeza do que está a dizer, que passo automaticamente a acreditar que o resto que anotei não interessa (não vai interessar) para nada. E colo um papel na minha própria testa com a palavra “cão” escrita em cima. Agora só terei que escolher se quero ser o Tigre, o Leão ou o Mike. Em Setembro, depois de escrever “Unidade Um” na porta do teu frigorífico, lambo-te o azulejo da cozinha não para lhe sentir o gosto, mas para o ver melhor. Sou míope. E o “Vou A Tua Casa” não é sobre fazer amigos. O “Vou A Tua Casa” é sobre ter amigos.

—Espectáculo de teatro um: a Claudine conta-me a história de uma pequena tragédia doméstica, real, mas com espectadores. Serve. —Espectáculo de teatro dois: a Claudine indica-me num pequeno mapa o local exacto onde dá explicações de Francês, e serve-se dessa pequena geografia atrofiada para me dizer que gostava de ver ampliado o mapa, em papel e em ideia. Serve. —Espectáculo de teatro três: a Claudine mostra-me o quarto dela, como se eu nunca lá tivesse estado: um quarto que conheço desde que a conheço, quando juntos começámos a aprender a ler: um quarto que está igual ao que era em 1995, quando me compraram o primeiro computador e eu deixei de ter quarto. A Claudine relembra-me o significado de cada poster, de cada peça da sua colecção de latas, de cada frasco de perfume, de cada brinquedo antigo. Eu já sabia; ela faz de conta que não. “Não gosto de mudanças”. Serve. Repetimos: isto não vai ser sobre criação. Acreditamos em Deus, não queremos ser Deus. Termina o espectáculo de teatro dedicando-me uma música que põe a correr no leitor de 1995: “You’re so pretty, the way you are…”. Ouvimo-la até ao fim. E no fim, oferece-me uma amêndoa doce da Páscoa. Um espectáculo feito por ela, para os dois. Ou um espectáculo feito pelos dois, para ela. O “Vou A Tua Casa” é/foi isto. Serve. Serviu. Vai servir.

XII

Interrupção. Setembro: “Unidade 2” escrita em vários tons cromáticos de post-it e outros materiais que vou comprando em papelarias diversas de Lisboa. Começo a encher o saco com outras ferramentas, mais sólidas. Parto à conquista de divisões maiores, pré-fabricadas. O “Vou A Tua Casa” começa aos poucos a ser sinónimo de vandalização emocional. Graffiti de interiores. Home art. Ap’art. Diz que é o poder das palavras. Não queremos uma imagem, não queremos. Não valem nada. No papel-guião, que prendo ao ecrã da tua televisão com fita-cola de papel, escrevo os sub-títulos: “falar-te”; “ler-te”. Mil palavras. Não queremos uma imagem, queremos gastar tempo. Falando, lendo, descrevendo. No guião, escrevo: as linhas com que eu me coso (sinopse). Isto tem que seguir através do meu corpo; não há volta a dar. Interioridade dentro da interioridade. Meta-vandalização; interrompo acções banais várias vezes consecutivas, até ao cúmulo do insuportável, visto e dispo o casaco 10 vezes, espreito pela mesma janela para ver exactamente a mesma coisa 20 vezes, fecho os olhos e imagino-me exactamente no sítio onde estou (nunca fui apologista do daydreaming) 30 vezes, fico perdido a olhar para o tecto 50 vezes. Depois corro até à parede mais próxima e atiro-me contra ela com toda a força de que sou capaz; preciso de me magoar, a ver se acordo. Para a vida; não para a arte. Sofro um bocadinho, fico com pena de mim, paro. Pergunto: “E novidades?”. Eles respondem ou não. Um gravador de mão difunde por momentos o som que captei nos minutos imediatamente anteriores à minha chegada (comboio, autocarro, táxi, rua, escadas, elevador, campainha, porta…). “Estou a chegar, estou a chegar…” À tua casa; não ao teu teatro. Não quero que afastes os móveis, portanto. Quero uma casa à portuguesa, não quero um palco à italiana. Eu não preciso de espaço; nem sequer de tempo. Quero (queremos) outra coisa. Isto é sobre querer (querermos) “outra coisa”. Estou aqui. Não estamos ali. De acordo? A custo, começa o “teatro”:

Primeiro texto_

“Estou nervoso, não sei se vá. Ir a tua casa implica sempre a delineação de um plano ultra-complexo e intricado, como justificação. Tenho preparadas as coisas para te dizer ao telefone, mas desta vez o plano parece-me pouco coeso, incredível, penso mesmo que ineficaz. Não sei se vá. Tenho medo. Tenho medo até de me enganar no número da porta. Lembras-te quando eu me enganava sempre no número da porta? Mesmo tendo em conta que vivia aqui e que entrava e saía de casa em média duas vezes por dia… Enganava-me sempre. Lembras-te das outras vezes? Nunca percebi se cheguei a convencer-te ou não, nas outras vezes. Parecia sempre que percebias tudo muito bem, que me apanhavas logo ao primeiro telefonema. Mas depois era sempre tão bom… Sabes: quando chegas a casa de alguém e estão lá mais pessoas do que aquelas que estavas à espera? Ou quando chegas a casa de alguém e sentes que és automaticamente rejeitado? Ou então que se instala uma enorme alegria, parecendo que toda a gente aguarda a tua chegada com impaciência? Ou então quando chegas e, mesmo não sendo rejeitado, sentes uma certa indiferença? As casas são todas iguais, o que muda é a maneira como olhamos para elas… E  novidades?”

Novidades; no Bairro Alto, a Joana diz-me: “Eu não quero que tu vás a minha casa”. Está bem, eu não vou. A lista de espectadores do Vou A Tua Casa aumenta aqui exponencialmente. E é por isto que isto não é teatro ao domicílio.

XIII

Encaixo-me no teu chão, depois da vandalização psico-emocional que foi o encontro com a tua parede. Inflexível. Respiro. Escondo a cara com as mãos. Continuo o “teatro”, a custo:

Segundo texto_

“Já passou. Deve ter sido do ar… Cá dentro há mais ar. Respira-se mais. Há mais cidade cá dentro do que lá fora. E depois eu ponho-me assim, a tentar descobrir as diferenças: não há, está tudo igual, não mudou nada. Há muitas maneiras de se chegar aqui. Há muitas maneiras de entrar, de ficar, de ir embora. Quando venho a tua casa, nunca levo nada… Mas tu ficas sempre com qualquer coisa. Porque é que eu te conheço? Por que é que eu te conheço a ti e não outra pessoa qualquer? Há tantas!…”

[mudança de posição do corpo, dos braços, ou só dos olhos, do foco; às vezes, é nesta altura que as mãos destapam a cara; muito raramente, é nesta altura que miro o anfitrião nos olhos, em jeito de quem chegou à festa sem convite, mas quer entrar:]

“Perco-me na tua casa. Nunca gostei da divisão das divisões. Sim, eu sei, que tudo são recordações. Eu sempre fui um bocadinho barata tonta. No início eras tu que me levavas à casa-de-banho, que me abrias o armário da cozinha quando eu procurava um copo. Lembras-te? Eu nunca gostei muito dos teus copos. Lembras-te de eu te ter ajudado a pintar algumas paredes? Conversámos imenso sobre o significado das cores. Tu achavas que não ias ficar cá muito tempo, mas mesmo assim querias mudar tudo. Lembras-te? Falavas imenso das tuas teorias em relação ao espaço, à ocupação do espaço. Era o teu espaço que estava em jogo. Nesses dias vinha a tua casa todos os dias, só para sentir o cheiro da tinta. Dava por mim sozinho, plantado em frente a uma das paredes, a admirar o amarelo-canário com que pintámos algumas das divisões. E depois tu chegavas e começavas a mostrar-me as diferentes intensidades de luz que era possível obter; custou-te os olhos da cara aquele sistema com interruptores em forma de botão rotativo. Lembras-te do dia em que me pediste para te pendurar aquela reprodução horrorosa do Dalì? Ainda me lembro de alguns objectos… E tu?”

[Continuamos a retroactivar a memória. Em 2003 e agora. É sempre a mesma linha condutora a correr-nos debaixo dos pés. Una e intransmutável. É por isso que isto não é teatro ao domicílio. É por isso que para fazer isto é mesmo preciso provocar o coma (vândalos!), fazermos de conta que nos esquecemos, para depois fazermos de conta que nos lembramos. Fazermos de conta que nos falta qualquer coisa, para depois fazermos de conta que nos importamos muito com isso. Alguém comenta: “Afinal não nos podemos furtar de espaço! Até Beckett era extremamente meticuloso nos seus cenários. Devia interessar-nos o espaço como conceito e não nas suas formas vagas…” [in www.vouatuacasa.blogspot.com]. Do teu (nosso) espaço, para o meu (nosso) corpo, em direcção aos teus (nossos) olhos. Isto é o performer a enfrentar com determinação o corpus humano que o legitima, que lhe dá de comer, que o compromete. O co-produtor dos seus actos psico-terroristas. És tu! A meio centímetro de distância:]

“Estás diferente… Os teus olhos cresceram, têm mais luz. O teu cabelo respira mais, tem mais ar. A tua pele está mais dura, mais quente. A tua boca tem mais luz, cresceu. O teu pescoço está mais forte, tem mais ar. O teu peito está mais quente, tem mais ar. Os teus braços cresceram, respiram mais. As tuas mãos cresceram, têm mais ar. Os teus dedos cresceram, estão mais fortes, mais quentes, têm mais ar, respiram mais, têm mais luz…” 

[Alguém que dá pelo nome de Violeta13 comenta: “Será da Primavera, por certo…” [ibid.]]

“Lembro-me perfeitamente do dia em que te disse que não me queria apaixonar mais. Tu riste-te. Disseste que isso era impossível e desataste a explanar, uma vez mais, a tua “teoria do fascínio”: ‘Tu és uma pessoa fascinante’ – disseste. ‘Tens muita luz à tua volta… E as pessoas apaixonam-se pela tua luz, em vez de se apaixonarem por ti!’ Acho que estou a começar a ficar bêbado…”

[Fico cheio de vergonha e começo a assobiar o “As Time Goes By”. Desaproximação. De novo o poder incomensurável dos objectos portáteis:]

“Lembras-te quando pedias para eu te ler, em voz alta? Dizias-me que eu tinha uma voz bonita, que articulava bem as palavras. Dizias-me que quando eu te lia tu percebias tudo muito melhor. Que até os textos que já tinhas lido, e relido, te soavam melhor. Dizias-me que quase conseguias ver aquilo que eu te lia, e que de noite sonhavas com as coisas que eu te lia, mas era sempre a minha voz que narrava nos teus sonhos, e que ouvias os meus dedos a mudar de página nos teus sonhos, e que quando acordavas acreditavas sempre que eu ainda ali estava, num capítulo qualquer que não conhecias. Mas eu nunca estava. No dia seguinte, tinha sempre que te reler o capítulo imediatamente anterior ao que tínhamos ficado, senão tu já não percebias nada…”

[Esvazio o saco: folhas de papel, fita-cola, post-its, cordel, tesoura, dois álbuns de fotografias, textos impressos, dictafone, etiquetas autocolantes, marcadores, CD’s, livros. Livros: “Do Espiritual Na Arte”, Wassily Kandinsky; “Frankenstein”, Mary Shelley; “1984”, George Orwell; “O Engenheiro do Tempo Perdido”, Pierre Cabanne & Marcel Duchamp; “Règles pour le Parc Humain”, Peter Sloterdijk; “Sermões”, Pe. António Vieira […]]

XIV

“Unidade 3”: é a tua vez. A caminho da resolução da dualidade geo-/ego-, começo a olhar para ti, transformo-me em espelho (na grande maioria dos casos, o da casa-de-banho), e a peça passa a existir reflectida no teu corpo. Não quero dizer que sejas tu a “fazê-la”; quero dizer que passas a ser tu a “revelá-la”. Acreditas em Deus, não és Deus. Este lugar e esta pessoa (neste lugar) só interessam enquanto existes tu e a tua capacidade de levantar o véu, descarnando todas as fachadas deste nosso empreendimento, e permitindo o vislumbre do seu interior. São as linhas com que tu te coses (sinopse), escrevo no guião. Semeias ventos, vais colher uma tempestade de folhas de papel colorido: CHAMO-ME ROGÉRIO. | ESTÁS AÍ? | LEMBRAS-TE DE MIM? | BEATRIZ! | E NOVIDADES?. Temos que fechar a porta; não a porta que já existe (nível um), nem sequer a porta enunciada na minha narrativa pessoal/mental (nível dois); queremos outra coisa. Tríade: inventar uma porta nova e destruí-la depois. É a partir daqui que temos “Teatro”. No domicílio. O teu. Se eu for o mestre d’obras, tu serás o arquitecto. Às vezes parece que trocamos, mas é ilusão. De óptica, pois claro! Assim: os alicerces são cordas entrelaçadas num espaço vazio à custa de pedaços bem medidos de fita colante e azulejo de parede; a fachada (argamassa) é de papel: nem conceito, nem função, “outra coisa”. Eu de um lado, tu do outro; separados pela vontade (precária como a parede) de voltar atrás. Não interessa se é verdade ou se é mentira. Existe, a parede. Temos fé… Poema litúrgico, em álbum (rasgo duas entradas na parede de papel e folheio-te o objecto portátil ao som de uma música qualquer). Eu de um lado, tu do outro; nem fora, nem dentro; outra coisa:

Capa: “Amor”
Págs. 1 e 2: (vírgula)
Págs. 3 e 4: “Eu estou aqui. Todo eu. Não vês?”
Págs. 5 e 6: “Eu pensei que vias. Tu só vês a luz. Não me vês a mim.”
Págs. 7 e 8: “Deixa-me entrar. Agora mesmo.”
Págs. 9 e 10: “Quero esculpir a tua imagem. No tecto.”
Págs. 11 e 12: “Esculpir a tua imagem nas minhas costas.” (rasgá-la)
Págs. 13 e 14: “Bisturizar-me. Todo.”
Págs. 15 e 16: “Um pedestal a ti (de carne). No meu quarto.”
Págs. 17 e 18: “Oxigenar-te o ar todo da casa. Para que respires. E te oxigenes por mim.”
Págs. 19 e 20: “Quero ser um coração enorme e oxigenado. Que tu possuas em tuas mãos.”
Págs. 21 e 22: “E que te enojes. Com o sangue oxigenado que te escorre pelos dedos.”
Págs. 23 e 24: “Quero ser a coisa… …Que mais te enoja.”
Págs. 25 e 26: “E te faça em ar. E te corrompa. E te mate continuamente.”
Págs. 27 e 28: “Deixas?”
Contracapa: (blank amarelo-canário)

Nesta altura, já estamos tão felizes, ou já estamos tão tristes, ou já estamos “outra coisa”, que decidimos comemorar! Música, champanhe, corte da fita no dia da inauguração: escrevo “NE ME QUITTES PAS” numa das folhas semi-rasgadas que se espalham ainda vivas no chão, passo-a por água e colo-a no espelho. Colo-me. Pensa o que quiseres. Bate palmas. Dança o vira. Cospe fogo. Foi o fogo de artifício final.

XV

“Unidade 4” — respirar: vazio, vácuo, vertigem. Depois da conta que Deus fez, é difícil seguir. Vendo os olhos com a própria roupa (camisa, geralmente; tronco nu; frio ou calor, dependendo da estação) e atiro-me de encontro à surdez da tua casa. Tacteio móveis, cortinas, vidros, objectos cortantes, roupas ou acessórios. Perco-me. Trinco qualquer coisa na tua cozinha (uma maçã, por exemplo, dependendo da estação), bebo água, desarrumo-te uma divisão propositadamente; agarro-me ao pouco que existe; faço por fazer… Escondo o osso sabendo que me vou esquecer do sítio depois. Em dois azulejos, escrevo a marcador os sub-capítulos “fazer-te” e “amar-te”. Pequenas catástrofes artesanais dentro da tua cozinha: maquetes a arder, estilhaços no chão, música pós-concreta, noise japonês em tempo (ir)real, filmes ampliados em largura “real” para que pareçam largamente “verdadeiros”. Mas mesmo sendo mentira, vais achar sempre que não estou a representar; ou é mesmo isto que queremos? A partir do instante em que começa a doer, dou por finda a performatividade retroactiva da tua (nossa) memória comum, e inicio novas hostilidades. Saio da cozinha. Estico duas faixas de fita-cola castanha e cruzo-as, fixando-as, em cada entrada de cada divisão. Portas fechadas; não as primeiras, nem as segundas, as terceiras [reler]. Mudo de sítio; mudamos de acto. No guião lê-se a ausência de linhas (sinopse): “Ó mãe, ainda falta muito para chegarmos?”. Pausa. “Para chegarmos onde, filho?”. Corredor fora, caminha-se para o fim… Primeiro epílogo religioso:

“Primeiramente só Cristo amou, porque amou sabendo (…). Para inteligência desta amorosa verdade, havemos de supor outra não menos certa, e é que, no Mundo e entre os homens, isto que vulgarmente se chama amor, não é amor, é ignorância. Pintaram os Antigos [o] amor menino; e a razão (…) era porque nenhum amor dura tanto que chegue a ser velho. Mas esta interpretação tem contra si o exemplo de Jacob com Raquel (…), e outros grandes, ainda que poucos. Pois se há também amor que dure muitos anos, porque no-lo pintam os sábios sempre menino? (…) Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar são duas cousas que não se juntam. A alma de um menino [é] (…) uma vontade com afectos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. (…) O amor deixará de variar se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos pintores do amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito ou a última disposição do amor é cegar o entendimento, daqui vem que isto que vulgarmente se chama amor, tem mais partes de ignorância; e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante.”

Pe. António Vieira, “Sermão do Mandato”, pregado na Capela Real em 1645 [in “Sermões”, pp. 73/74, Círculo de Leitores, 1978]. Guardo o livro e a seguir todos os restantes objectos portáteis. Saco fechado, janela outra vez. Última experiência de contacto alienígena com a Matrix exterior. A senha é proferida pela segunda vez: “Cá dentro há mais ar, respira-se mais, há mais cidade cá dentro do que lá fora…” Haverá lugar para uma terceira? Não sei se aguento. (Metabolismo giga-rápido. Prova de esforço.) Termino cobrindo uma parede branca com folhas brancas de papel e fita-cola transparente: redundância cromático-discursiva. Vou a tua casa para ser igual. Porque eu não sou a peça; mas também não tenho a peça. Revelo-a, desvelo-a; onde ela existir. Sou (és) uma pessoa. Quero outra coisa. Já estamos em 2004 e eu ainda estou aqui. No Bairro Alto, um anónimo diz-me: “Mas isso não é teatro”. Pois não; é teatro.

XVI

Escrevo “Unidade 5” na parede do quarto, numa folha branca de papel que vejo reproduzida até ao infinito, no meu braço esquerdo (a lápis preto de pintar os olhos), num word document do meu computador de 1995, no próprio computador de 1995 (a marcador vermelho de colorir livros de colorir), no vidro embaciado da casa-de-banho. Escrevi depois em suportes variados em todas as casas que visitei. Por exemplo: “Eu depois telefono-te” (sinopse). Precoces: o filme não acabou e já estamos a ver os extras do DVD! Somos exigentes (ou então gulosos) e queremos mais segredos; bónus; faixas escondidas; outras coisas. Os rolling credits correm em cima das folhas brancas de papel, ainda, projectados a cinza claro, lentos. Todos os espaços violados fechados agora a fita-cola grossa de fechar caixas de cartão. Impunes. Deixo-te sozinho na sala a olhar para os sub-capítulos marcados a amarelo-canário nos rodapés: “mandar-te fazer”, “mandar-te amar”. Adio o último epílogo religioso (tenho-o memorizado na cabeça, escrito em papel e gravado no dictafone), por tempo indeterminado. Daqui para a frente, és tu quem decide: A) fico contigo para sempre, ou B) vou-me embora para sempre. Não existem cambiantes intermédias. Não podes não saber. Não podes não responder. Agora é assim: não quiseste sair a meio, disseste que tinhas coragem, disseste que não tinhas medo, disseste que aguentavas, agora amanha-te! Estende-te; extenso. Nos entretantos:

Extra do DVD n.º 1:

Abro um mapa da Europa, gigante, e peço-te para apontares o lugar onde já foste, o lugar onde gostavas de ir e o lugar onde vais. Escondo-me atrás.

Extra do DVD n.º 2:

Atrás: digo que te amo em 37 línguas europeias diferentes. Adio o Português para tempo indeterminado. Não vês que tenho uma cábula? A tua casa é uma caixa do ponto, mas ainda não é (não será) um teatro.

Extra do DVD n.º 3:

Ponho a tocar um clássico da Renascença de 1938 chamado “Na Minha Aldeia”, na sua versão de 1980 com voz de Florência. Versos: Silva Tavares. Música: Belo Marques. “No concurso a minha aldeia ganha o prémio, com certeza. Que nenhuma se arreceia porque é a mais portuguesa. São talvez muito mesquinhas mesmo as casas principais, mas no Verão as andorinhas fazem ninhos nos beirais. Na minha aldeia não há ódios, mas estimas. Tem-se amor pela vida alheia, todos são primos e primas. Sem ambições, cada qual seu pão granjeia. E à noite há serões à luz da candeia. Animais e criaturas dormem todos com afinco, pois não há lá fechaduras, fica a porta só no trinco. Junto à fonte há namoricos e aos domingos, pela manhã, veste a gente os fatos ricos: vai à missa e vem mais sã.” [Repete refrão]. A versos tantos, já dançamos juntos em cima do mapa, devagar, para não estragar a viagem.

Extra do DVD n.º 4:

Rio-me.

Extra do DVD n.º 5:

Mostro-te um segundo álbum de fotografias, azul, com todas as casas onde vivi. 1978-2003. Não me escondo, não tenho onde.

Extra do DVD n.º 6:

Embrulho em papel um objecto que já é teu e devolvo-to como presente (falsa surpresa = surpresa verdadeira). Como as pessoas que gritam histericamente quando andam na montanha russa, não porque sintam medo “verdadeiro”, mas porque faz parte da coisa gritar-se histericamente. Ainda continuamos a fazer teatro, portanto. Lugar onde.

Extra do DVD n.º 7:

Mostro-te a minha música preferida e ouvimo-la, sem falar. Solenes.

Extra do DVD n.º 8:

Janela. Pela terceira (última) vez: “Cá dentro há mais ar, respira-se mais. Há mais cidade cá dentro do que lá fora…” Prova de esforço — tradução, closing title: deixamos de ouvir o som dos carris do eléctrico 28, fechados na campânula de vidro que é já um espaço inaugural. Se desse, voávamos.

XVII.

Fui a tua casa. Leste-me uma página do livro da Marguerite Duras. Fizemos um desenho a quatro mãos. Brinquei com o teu gato. Ofereceste-me um candelabro. Tirei-te fotografias. Tiraste-me fotografias. Tirei-me fotografias. Ri-me. Disse-te coisas secretas ao ouvido. Bebemos chá. Esqueci-me da fita-cola. Manchei-te a parede. Filmaste-me. Repliquei uma performance do Paul McCarthy com restos de comida do teu frigorífico. Dormitei na tua cama. Pintei-te um quadro. Escrevi-te uma letra. Ofereceste-me de jantar. Parti-te um copo. Lavei-te a loiça. Cantámos os Parabéns. Dançámos o vira. Disse que te amava. Disseste que me amavas. Vi televisão. Limpei-te o pó. Desarrumei-te os livros. Escondi papelinhos debaixo dos tapetes. Chorei. Abracei-te. Ignorei alguns dos teus convidados propositadamente. Imaginei que pudesses ser um assassino. Deste-me um nome errado. Desmascarei-te. Acordei-te o vizinho. Tentaste enganar-me. Deste-me a mão. Deixaste-me tocar-te. Ouvi as tuas músicas. Vesti as tuas roupas. Calcei os teus sapatos. Usei o teu chapéu. Corrigi os teus testes. Pediste-me para ficar. Bateste-me palmas. Namorámos pelo intercomunicador. Choraste. Riste. Demos saltos na cama. Partimos cadeiras. Cobri-te uma parede inteira com post-its amarelo-canário. Envergonhei-te. Envergonhaste-me. Nunca mais te vi. Nunca mais me viste. Adeus e olá. Ao mesmo tempo. Terceira coisa. Outra coisa.

Rogério Nuno Costa e todos aqueles que conheci [Agosto 2003/Agosto 2004].

Interrupção voluntária deste texto [“Acontece Tudo”], que segue com apontamentos sobre a realização do espectáculo nas cidades de Torres Vedras e Londres, ainda no ano de 2004. Omitem-se de igual modo dois outros documentos que descrevem as duas últimas fases “evolutivas” do Vou A Tua Casa/Lado A: o primeiro [“Acontece Algo”] concentra-se nas apresentações realizadas nas cidades da Covilhã, Braga e Caldas da Rainha (entre Janeiro e Outubro de 2006); o segundo [“Não Acontece Nada”] abarca as duas últimas apresentações da peça, no Porto e em Hamburgo (entre Janeiro e Agosto de 2007). Os três documentos serão antecedidos por uma introdução (“Anunciação”) e por uma conclusão (“Prólogo”), só disponíveis na edição física deste “Projecto de Documentação”.

Rogério Nuno Costa, 2007/2011

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