09.

DEBATE

PORQUE O MAIS IMPORTANTE É A PERGUNTA

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Ana Pais, André e. Teodósio, Beatriz Cantinho, Cláudia Jardim, Cláudia Madeira, João Carneiro, Natacha Paulino, Mónica Guerreiro (moderadora).

[©Vou A Tua Casa/Projecto de Documentação, video stills.]

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INTRODUÇÃO

No rescaldo da “conclusão” da vertente performativa do projecto “Vou A Tua Casa“, com a apresentação do “Lado C“, terceiro e último, antecedendo um formato condensado e único a que chamará Trilogia, Rogério Nuno Costa imaginou um projecto de documentação do mesmo projecto, consistindo num conjunto de objectos editoriais: um catálogo e um documentário. Livro e filme têm como objectivo ser construídos a partir de materiais originais, especificamente concebidos para este propósito por um conjunto de pensadores e artistas que se sentiram particularmente impelidos pelo projecto e que se foram constituindo enquanto observadores privilegiados do mesmo. A esses foi feito o desafio de pensar a sua intervenção para o catálogo e, ainda, de convidarem uma terceira pessoa para provocar outra relação com este trabalho artístico. O convite, enquanto forma de nos endereçarmos a alguém, é um ponto inaugural deste projecto: o Rogério começou por aguardar o convite das pessoas para ir a casa delas. Prolongada assim a matriz conceptual da Trilogia, o “Projecto de Documentação” reúne uma série de ensaios, conversas, textos performativos, intervenções plásticas, fotografia e mais, em torno dessa questão. E hoje quisemos convidar-vos, também, para voltar ao centro, não em torno de mas sobre “Vou A Tua Casa”. Condições de produção, fórmulas, metodologia, passos em falso e gastronomia minhota à mistura, quis ouvir-vos, enquanto espectadores de algum modo também privilegiados (ou porque escreveram sobre isto, ou porque a dada altura participaram da sua concepção, ou porque criaram com isto um diálogo mais comprometido e intenso) sobre o que ficou do “Vou A Tua Casa”. Agradeço terem aceite o desafio, e começava pelo início, pela enunciação do projecto: “Vou A Tua Casa” como hipótese de teatralidade domiciliada.

[Em Setembro de 2007, realizou-se em casa de Mónica Guerreiro, e sem a presença de Rogério Nuno Costa, um debate em torno de várias problemáticas caras à trilogia “Vou A Tua Casa”; para além de Mónica Guerreiro, que moderou, estiveram presentes os críticos de teatro João Carneiro e Ana Pais, os actores Cláudia Jardim e André e. Teodósio, a bailarina e coreógrafa Beatriz Cantinho, a socióloga e investigadora Cláudia Madeira e a actriz e crítica de teatro Natacha Paulino. Mónica Guerreiro foi espectadora das três partes da trilogia e observadora de ‘Lado C’; João Carneiro foi espectador de ‘Lado A’ e ‘Lado C’, tendo publicado críticas aos dois espectáculos; Ana Pais foi espectadora de ‘Lado C’; Cláudia Jardim foi espectadora de ‘Lado A’ e participou na fase inicial de pesquisa para o ‘Lado B’, juntamente com Rogério Nuno Costa e o actor Victor Gonçalves; André e. Teodósio foi espectador e artista convidado de ‘Lado C’; Beatriz Cantinho foi espectadora de ‘Lado A’ e artista convidada de ‘Lado C’; Cláudia Madeira foi espectadora das fases experimental (2005) e oficial (2006) de ‘Lado C’ e escreveu sobre toda a trilogia; Natacha Paulino foi espectadora de ‘Lado B’, cobaia e espectadora das duas fases de ‘Lado C’, e publicou críticas sobre essas duas experiências. Um possível resumo do que se passou, a seguir:]

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I.

AO ALCANCE DE UM BRAÇO

[sobre processo & narratividade]

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Cláudia Madeira — Ver uma peça do Rogério é como “comprar” uma experiência. Comprar uma experiência diferente. Como quando vamos comprar uns ténis mais excêntricos ou fazer um corte de cabelo insólito. E nós hoje temos cada vez mais necessidade de comprar experiências novas. Lembro-me que ele me falou da segunda parte do espectáculo (‘Lado B’), no qual os espectadores escolhiam um sítio, e lembro-me que um dos espectadores escolheu um bar de prostitutas. Eu gostava de perceber o seguinte: porquê fazer um espectáculo num sítio que é já em si um espectáculo?

Natacha Paulino — Ao falar do ‘Lado B’, vou falar muito do que se passou comigo, porque só pode ser explicado assim. Ele disse-me o que era: um encontro num local público, uma performance só para uma pessoa… “Só para mim?”, pensei… E então escolhi um sítio que eu queria com movimento e com cheiros: o Mercado da Ribeira, às dez da manhã, de sábado. Um sítio com muita gente. E aquilo começou muito “à Rogério”: tu nunca sabes bem se está a ser improvisado ou se é mesmo assim. E ele chega-me com auriculares. Eu não tinha, e então fomos à procura de auriculares para mim. Andámos às voltas na rua de S. Paulo e eu só pensava: “Mas o que é que se está a passar?!…” Entrámos numa loja chinesa e comprámos uns auriculares. Voltámos ao Mercado e começámos a cruzá-lo em todas as direcções, a andar para a frente e para trás, com ele muito perto de mim, porque era ele que tinha o mini-disc e o cabo não era muito longo. Os dois muito perto, tínhamos que andar compassados… E porque eu estou ali, a pensar que tenho um actor só para mim, não posso olhar para o lado, porque ele está ali para mim e eu estou ali para ele. Cada movimento, cada solavanco, cada desaceleração do passo, tudo me fazia sentir o corpo dele. Parámos ao pé do peixe. Cinco segundos depois, saíamos.

Cláudia Jardim — Quem é que dirigia? Tu?

Natacha Paulino — Ele.

Cláudia Jardim — Quando eu e o Victor Gonçalves nos juntámos ao projecto, ele estava numa fase ainda muito embrionária. O Rogério queria desenvolver um ‘Lado B’ e um ‘Lado C’, sem muita certeza do que isso poderia ser. Então trabalhámos em torno do encontro de várias pessoas em nossa casa e de qual poderia ser o caminho a partir daí. Dessas conversas de trabalho nasce a ideia de o ‘Lado B’ poder ser um encontro algures no caminho e o ‘Lado C’ ser fechado na casa dele. Começámos a trabalhar no ‘Lado B’ de uma forma muito independente, porque queríamos três solos, mas usámo-nos uns aos outros como cobaias, combinando encontros em sítios e fazendo experiências. Por exemplo: como é que eu promovo um encontro “real” ou “verdadeiro” com uma pessoa sabendo a priori que estou a construir algo para esse encontro?

Mónica Guerreiro — Mas um encontro “real” ou um encontro “performativo”? Eu fiz o ‘Lado B’: combinei com ele um encontro num sítio, fizemos um percurso, conversámos, sentámo-nos… Havia uma fronteira muito ténue entre estarmos “em representação”, ou estarmos simplesmente num encontro para um café. Até hoje continuo sem entender onde situar essa diferença, em que momentos é que ele estava a conversar comigo ou a pensar em representar o “estar comigo”.

Beatriz Cantinho — No ‘Lado A’ estamos em casa, confortáveis, e surge alguém que parece perdido: o performer está “perdido”. E vai descobrindo a casa, vai descobrindo as coisas devagarinho. Existe esse lado acidental. Não é tão premeditado como o receber as pessoas em sua casa e fazer um formato específico, como aconteceu no ‘Lado C’.

Cláudia Jardim — Eu não vi o ‘Lado C’, mas parece-me que o que havia de mais confortável no ‘Lado A’ era a tentativa de construção de uma narrativa. Essa narrativa permite-nos descansar enquanto espectadores, embala-nos. E isso é evidentemente mais cómodo.

Natacha Paulino — Tu tens o alcance de um braço para dali poderes fazer alguma coisa. E o alcance de um braço pode ser um acaso. Pode ser um “estou cheio de fome, vamos ali tomar o pequeno-almoço, vamos conversar”, e isso poder ser matéria para ele trabalhar, para ele transformar, para daí nascer qualquer coisa. Quando ele gravou o som do Metro em Londres (que eu ouvi na minha performance), não me parece que tenha pensado: “Vou gravar isto. Talvez depois seja interessante pôr um espectador a ouvir estes sons em Lisboa…”. Não me parece…

Cláudia Jardim — Eu lembro-me que num dos ensaios decidimos ir para o Aeroporto de Lisboa, para a zona das chegadas, ver como é que as pessoas se encontravam. Eu e o Rogério estávamos a beber cafés, mesmo em frente à porta donde as pessoas saem, e a tirarmos imensas notas os dois, e ele diz-me: “Estou farto das minhas notas, toma!”. E trocámos. E eu depois fiquei a ver as coisas que ele escreveu. Eu acho que as ideias nascem nele assim nuns sítios muito diversos: “Vou ver pessoas a encontrarem-se”, pronto. E há depois umas coisas que lhe batem, que lhe ficam a moer, mas que não têm uma função a priori. Embora não sejam inocentes.

Mónica Guerreiro — Ele encontra uma disponibilidade para estar aberto ao que vier, mas tudo o que vier pode ser usado.

Natacha Paulino — Pessoas inclusive. Ele usa o que a vida lhe oferece: situações, atrasos, autocarros que se perdem, a telenovela. Tudo pode ser trabalhado nas mãos dele: a tua presença, a tua confusão, a tua disponibilidade para estares a conversar sobre a tua vida…

Cláudia Jardim — Nesse sentido, os primeiros tempos de ensaios eram selvagens: “O que é que vamos fazer hoje? Hoje vamos beber copos para o pé do rio! Vai ser este o nosso ensaio”. E íamos para uma esplanada no Cais do Sodré, beber peaches, que é uma bebida alcoólica de pêssego que há lá. Ficávamos bêbedos, depois eu não queria conduzir, e então deixavamo-nos ficar a conversar durante horas. E aquilo era trabalho, realmente! E o facto de estarmos ali a “perder tempo” uns com os outros era material de construção. Depois chegámos a uma fase em que ele nos fez uma proposta: tínhamos que dar prendas uns aos outros. E eu tive que preparar um dia inteiro para dar de presente ao Rogério, ao Victor e depois aos dois. E cada um deles teve também que fazer a mesma coisa. Queríamos trabalhar essa ideia da partilha, e o que é que significa disponibilizarmo-nos para alguém. E eu lembro-me que esses foram os ensaios mais divertidos da minha vida! A prenda que o Rogério me deu foi um dia de tratamentos de beleza. A prenda que eu dei ao Rogério foi a festa de aniversário que ele não tinha tido no ano anterior. Esta ideia das “prendas” era algo muito ligado à génese do projecto, de como é que tu podes fazer algo de especial para alguém. Acho que acabou por ser até muito mais divertido preparar as surpresas do que recebê-las, porque o exercício obrigava-nos a perguntar: “O que é que esta pessoa quer? O que é que a faria mesmo feliz neste momento?”. Eram, nesse sentido, ensaios muito livres.

II.

MESMO QUANDO NÃO TE QUERES REVELAR, JÁ TE REVELASTE

[sobre identidade & autobiografia]

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Mónica Guerreiro — Portanto, tudo isso eram coisas emanadas da vida real. E o potencial performativo vem desse prazer real, dessa coisa que se sente realmente… Ou seja, ele quer sempre perseguir temas, motivos e obsessões que já fazem parte da vida de qualquer pessoa. Mas como é que ele transforma depois isso em matéria de espectáculo, sem que o espectáculo deixe de ser uma coisa construída, e continuando sempre a ser uma coisa com ele e sobre ele?

André e. Teodósio — Mas não é sempre? Eu não concordo que isso seja o objectivo. Eu não concordo que isso seja um tema… Quando eu enceno o “Romeu e Julieta”, eu enceno de acordo com aquilo que eu senti ao ler o “Romeu e Julieta”, ou o que eu pensei ao ler o “Romeu e Julieta”. Eu não vou encenar aquilo que o Shakespeare pensou, ou aquilo que tu achas que é o “Romeu e Julieta”. Em arte não podemos falar em autobiografia sem dizer que tudo é autobiográfico. É impossível… Mesmo uma coisa confeccionada até ao último pormenor é autobiográfica. Mesmo quando não te queres revelar, revelas-te sempre, porque estás a revelar um objecto em que tu não te queres revelar: já te revelaste!

João Carneiro — Acho interessante este tipo de experiência em que é possível existir ou não existir qualquer coisa parecida com um espectáculo e em que isso se desfaz por efeito, justamente, de uma grande proximidade entre quem faz e quem recebe. No caso destes espectáculos, continuo a achar muito interessante a ideia, mas continuo a ter muitas dúvidas sobre aquilo que se passou, porque não estou nada interessado na biografia do Rogério, como geralmente não estou nada interessado na biografia de ninguém. Eu posso virar isto ao contrário e dizer: ele está a afirmar, e eu não estou a querer perceber, que tudo na vida pode eventualmente ser transformado em espectáculo. Mas isso é uma banalidade de todo o tamanho!

André e. Teodósio — Apesar de compreender que determinados assuntos possam surgir de um lado autobiográfico – mas também que assuntos é que não surgem de um lado autobiográfico? –, não acho interessante insistir numa análise estruturalista de tudo o que está a acontecer: “Ele está a dizer isto porque, na sua vida privada, é o que diz…”. Não estou nada interessado na vida privada dele, ou nessa expectativa de que as histórias que ele conta possam ser verdade ou mentira. Ainda por cima são espectáculos que não têm uma linearidade em si. Não podemos dizer que o espectáculo é sobre isto ou aquilo; é sobre muita coisa.

Beatriz Cantinho — Eu senti que há um discurso que me surpreende e que me prende, mas que depois é tão nuclear que deixa de me interessar. Mas eu acho que não houve só um – esse nuclear –, acho que houve outro. Há um discurso do Rogério que é interessante e prende-me, porque são experiências várias, íntimas, que são partilháveis, quase como dádivas, e eu sinto-me bem em recebê-las.

Cláudia Jardim — Mas a autobiografia não é algo “discursivo” no espectáculo.

Mónica Guerreiro — No ‘Lado C’ é…

André e. Teodósio — Não é. A vida dele não interessa para nada. Eu não quero saber se ele vai mesmo deixar Lisboa a caminho de Amares. Eu quero é saber como é que em ficção ele encena essa informação. Porque ela até pode vir de um lado autobiográfico – ele não está a dizer que vai para a Lapónia… –, tornando-se assim mais credível, mas é algo que acaba por se tornar irrelevante. O que me interessa ali é saber quais são as possibilidades discursivas da informação, dentro daquele espectáculo, com aquilo que veio antes, com aquilo que veio depois e com a minha retrospectiva sobre o todo. Qualquer criador de arte é autobiográfico. Não estás a fazer com o corpo de outra pessoa, estás a fazer com o teu. O discurso biográfico é uma forma; é como pegares num texto. Ou como inventares uma máquina de cena. O ‘Lado C’ é completamente hermético, mas está recheado de sinais constantes. E ele abusa mesmo dessa tentativa de usar uma realidade, até porque, à partida, nós nunca iremos assumir aquilo como uma realidade. Em vez de usar ficção para chegar a uma realidade, mesmo que seja uma realidade de um chavão ideal, ele utiliza a realidade para a ultrapassarmos e chegarmos a uma ficção de determinados conceitos. Acho que isso é muito mais interessante, porque ele não é muito interessante como pessoa para estarmos a falar das coisas dele.

Cláudia Jardim — Parece-me que nem sequer há essa inocência no processo de criação dele, de achar que isso é suficiente.

Beatriz Cantinho — Não, não há inocência nenhuma.

Natacha Paulino — Eu depois no texto que escrevi falei disso. Porque para mim foi relevante a história do cabo que nos obrigava a ficar perto um do outro. Depois de sairmos, eu não sabia se já tinha acabado e ele pergunta-me: “Queres tomar o pequeno-almoço?”. E eu disse-lhe que já tinha tomado, mas fomos à mesma. E eu só pensava: “Mas o que é que se está a passar aqui?”. E então começámos a falar: ele fala-me dele, das opiniões que tem acerca de tudo, pergunta-me sobre mim, eu falo-lhe de mim, da minha formação académica, o que faço, o que não faço, etc. “Isto deve ter aqui alguma grande conclusão, mas que agora não me está a ocorrer…”, pensava. No fim levantámo-nos e eu disse: “Então adeus!”. E ele: “Não! Não acabou!”. E quando ele me diz que não acabou, eu percebi que tinha estado em cena e só pensava: “Mas a mim ninguém me pediu para estar em cena! Ninguém me disse se eu me importava de estar ali e ser algo mais do que público!”. É que eu tinha falado com um alguém em circunstâncias que não me faziam acreditar que estivesse a falar com o Rogério. E então fomos embora os dois, rua do Alecrim acima. Só que eu agora já não me consigo lembrar de nada do que ele me disse, porque ele falava, falava, falava, e eu só pensava em tudo o que me tinha acontecido antes: “Que violação é esta de me pôr em cena sem me pedir autorização?”. Quando chegámos à boca do Metro, ele põe-me os auriculares outra vez (com o tal som do Metro de Londres), e atravessámos o túnel todo até sairmos na rua do Ouro; ele tira-me os auriculares, diz-me adeus e vai-se embora.

Mónica Guerreiro — E isso foi um espectáculo?

III.

A EXPERIÊNCIA DO INSÓLITO

[sobre espectáculo & “não-espectáculo”]

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Natacha Paulino — Isto foi um acontecimento… Depois, claro, caiu-me tudo em cima: o que é espectáculo?, o que é teatro?, o que não é? Depois disso tive várias conversas com ele e escrevi dois textos sobre os seus trabalhos. Até porque ele quer sempre pôr estas coisas todas na mesa, em avaliação, levando-te a pensar, ou a repensar, os conceitos de espectáculo, performance, vida real… E tu tentas procurar fronteiras para te situares, por uma questão de segurança. Mas a verdade é que o meu ‘Lado B’ foi único, não se pode repetir com mais ninguém.

Beatriz Cantinho — Eu devo dizer que não me preocupo nada com a definição disto ser ou não ser espectáculo. Mas, curiosamente, saí do ‘Lado C’ com a convicção de que era. Ainda não percebi muito bem porquê. Acho que tem a ver com questões formais: a disposição dos convidados, as tarefas… No ‘Lado A’ isso não existia; tratava-se, a esse nível, de um espectáculo muito depurado e mais acidental. E surpreendeu-me bastante por isso. Até porque a questão da identidade, que não me interessa particularmente, estava como que diluída, havendo uma partilha entre a identidade do Rogério-Rogério e depois o facto de ele ir a casa de alguém, que passava a ser uma “identidade” também a considerar dentro do próprio espectáculo. No ‘Lado C’, essa questão identitária já não aparece diluída e há um exacerbamento de Rogério. Se em alguns momentos consegue ser interessante, porque se trata de um “eu” que é universal e com o qual eu, Beatriz, estabeleço uma relação, outros momentos há em que o “eu” pertence apenas a ele, e ficamos com uma leitura quase ilegível. Por vezes, existe a felicidade de se conseguir partilhar essa intimidade, outras vezes não. E depois há toda a vertente formal do ‘Lado C’, que me irritou um bocadinho. Quando o Rogério vai a casa das pessoas, sujeita-se às condições da casa; quando vamos a casa dele, temos alguém a servir-nos, não podemos ir à cozinha… Eu quando vou almoçar a casa de alguém, enfio-me logo na cozinha para falar com a pessoa que me convidou! No ‘Lado C’ perdeu-se esse aspecto mais acidental, que existia no ‘Lado A’.

Cláudia Madeira — Não concordo inteiramente com a questão do modo como entramos em casa dos outros. Há sempre algum formalismo quando estamos na casa de pessoas que não conhecemos. Como é que se entra na casa do outro?

Beatriz Cantinho — Daí eu referir que, por conhecermos o Rogério, a questão está viciada à partida. Há uma série de regras que são implementadas e que são estranhas, mas que nós aceitamos enquanto parte de um contrato. Não aceitarias se tivesses ido a casa do Rogério visitá-lo.

Ana Pais — Para mim, o espectáculo levanta fundamentalmente a questão do encontro, relativamente àquilo que nós imaginamos e temos por tradição ser o teatro, que é um espaço físico mas também um espaço social e público, por oposição à casa como espaço íntimo e privado. A questão do encontro parece-me muito importante, tendo em conta que ele acontece por convite. O que considero interessante questionar em relação ao ‘Lado C’ é se ele se designa, precisamente, por espectáculo. O contraste entre espaço público e privado, que cria um espaço de encontro com o outro, suscita uma relação com o público que se deseja, no mínimo, diferente; relativamente à minha experiência, o ‘Lado C’ lança para a mesa uma expressão que é a “experiência do insólito”. Os dois universos contrastantes, público e privado, provocam essa experiência. E essa estranheza, que me parece estar inerente ao projecto, é um dos aspectos mais interessantes.

João Carneiro — O encontro é um conceito (e uma realidade, simultaneamente) muito material e que está no cerne deste projecto. Mas tem ainda a ver com uma outra dimensão, que é a dimensão da proximidade e da distância. A proximidade e a distância têm a ver não só com os diferentes espaços em que nós normalmente navegamos (ou nos quais elaboramos noções de espectáculo ou de representação), e que neste caso passam a ser espaços privados, mas tem também a ver com um tipo de dinâmica que, independentemente de os espaços serem públicos ou privados, é importante: o que é que se passa naquilo que nos estão a propor ou naquilo em que estamos a participar? No ‘Lado C’ em que eu estive presente, ele fez questão de referir que chamava a estas coisas espectáculos, e não outras coisas que nós quiséssemos eventualmente nomear. E eu achei curioso ele insistir nesse facto, porque não tanto no ‘Lado A’, mas claramente no ‘Lado C’, convivia um registo discursivo geral que me parecia muito próximo do discurso realista (autobiográfico), e eu não sabia justamente como me situar: devo considerar isto um espectáculo ou não?

Mónica Guerreiro — Houve aliás quem se referisse ao ‘Lado C’ como uma conferência/demonstração.

João Carneiro — Por exemplo!

Cláudia Madeira — A mim interessa-me neste objecto artístico, que tanto me importa que seja espectáculo ou não, a ideia do convite. Para que é que serve um convite? Por um lado, o que é que faz uma pessoa ter interesse em convidar alguém para ir a sua casa fazer um espectáculo, e o contrário: o que é que faz um artista achar interessante levar alguém a sua casa para ir ver um espectáculo? E depois, saber quem são essas pessoas. Nós temos todos um contacto muito próximo com o Rogério; a mim interessa-me muito mais saber o que é que o espectador comum acha de um objecto daquele tipo.

João Carneiro — Eu acho que estamos aqui a debater conceitos interessantes como proximidade, distância, espectáculo, espaço público, espaço privado, etc. Mas e depois, o que é que se passou? Gostámos ou não gostámos? Achámos que era ou não conseguido? Resultou ou não resultou? As perguntas que nós colocámos antes continuam a colocar-se e a ser pertinentes depois? Aconteceu alguma coisa do ponto de vista conceptual que seja realmente tão interessante como os conceitos e as questões que nós colocámos?

André e. Teodósio — Acho essa última questão muito mais importante, porque a mim não me interessa nada se o que aconteceu foi na rua, na minha casa, ou na casa dele. É uma forma: pode ser num bar ou pode ser num teatro.

João Carneiro — Foi por isso que eu desviei ligeiramente a questão do espaço público e privado para a questão da proximidade. Há uma certa altura em que se esgota um bocadinho o facto de ser ou não ser em casa de alguém, e isso torna-se indiferente.

André e. Teodósio — Para mim, o espectáculo tem a ver com as eternas questões teatrais: o que é teatro?, porquê o teatro?, o que fazer do teatro?. Isso pode ser ou não interessante, mas isso não é o espectáculo que ele fez. Não interessa o espectáculo que ele fez, nem ele quer que tu compreendas o espectáculo que ele fez. Na verdade, nunca compreendemos o espectáculo que nos é dado. Compreendemos o que queremos sobre aquilo que nos é dado.

João Carneiro — As questões são sempre as mesmas, mas podemos colocá-las de uma forma ligeiramente mais interessante de vez em quando. A questão da essência do teatro não me interessa nada, acho que é de uma frivolidade assassina…

Cláudia Jardim — A partir do momento em que ele nos coloca tantas dúvidas sobre se é ou não espectáculo, e quando ele frisa, no próprio espectáculo, que aquilo é um espectáculo, então isso já quer dizer alguma coisa.

André e. Teodósio — O questionamento teatral dele é: eu não tenho um teatro, eu não tenho um contra-regra, eu não tenho um ponto, e então vou usar-te para isto tudo, e passas tu a ser o ponto, passas tu a ser o contra-regra (que não é preciso…), passas tu a ser o encenador (quando é preciso…), passas tu a ser o actor, às vezes o figurante…

Natacha Paulino — És material dele… És material de estudo.

André e. Teodósio — Eu não acho que sejas material, porque se quiseres podes ir embora. Ele não te prende.

Mónica Guerreiro — Mas há um comprometimento. Há um tempo até o quereres ir embora; primeiro queres saber para onde é que aquilo vai.

André e. Teodósio — Depende, há pessoas que se vão embora passados dois segundos.

Mónica Guerreiro — Há dias em que é ele que se vai embora…

André e. Teodósio — Eu gostava de ter essa coragem, sobretudo perante uma audiência de pessoas que querem estar em todos os sítios menos ali… Às vezes gostava de ter a coragem ou a capacidade para parar o espectáculo, ou que as pessoas tivessem a coragem ou a capacidade para saírem. E isso às vezes faz muita falta. Nós não temos todos de gostar da mesma coisa…

Mónica Guerreiro — Mas se calhar há aí alguma sofreguidão… Ou seja, ele exige de nós uma espera, uma suspensão e uma disponibilidade que ele próprio depois não tem, porque está em constante construção, e em constante mecanismo de fugir para a frente, de fazer alguma coisa acontecer contigo. E quando apanha um espectador ou um interlocutor que quer fazê-lo passar por essa experiência, ele não a consegue encaixar, porque é ele que está a controlar…

IV.

O ESPECTADOR COMO CO-PRODUTOR

[sobre regras & controlo]

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Cláudia Jardim — Mas é ilusório pensar que as regras são as nossas… Isso não existe. É ele que vai invadir a tua casa e decidir por onde quer invadir.

Mónica Guerreiro — E tu deixas.

Cláudia Jardim — Tens a hipótese de suspender a coisa. Mas não sei se isso chegou a acontecer. Quando vou ver um espectáculo, vou com os seguintes pressupostos: “eu vou gostar disto”, “eu quero gostar disto”, “por favor, deixa-me gostar disto…”. Se abres as portas de tua casa, essa hospitalidade é muito maior. Estás muito mais permeável a receber coisas.

Mónica Guerreiro — E a autorizares coisas que se calhar recusarias se te fossem propostas. Mas aqui ele não propõe, ele invade.

Cláudia Jardim — Como no ‘Lado A’ a narrativa te engole tanto, tu deixas-te embalar pelas sugestões que ele te faz, e quando dás por ti tens o Rogério deitado na tua cama. E não travas isso!

Mónica Guerreiro — Não travas porque faz parte do espectáculo.

Cláudia Jardim — Justamente!

André e. Teodósio — A partir do momento em que tu pagas para assistir ao ‘Lado A’, imagino que não te levantes a meio para ires à casa-de-banho, porque não queres provocar esse momento “estranho” dentro da tua própria casa.

Beatriz Cantinho — É curioso! Uma das coisas que eu gostei mais no espectáculo foi precisamente essa, de me poder levantar a meio e ir à casa-de-banho. E o mais engraçado é que é ele quem te dá essa possibilidade.

Cláudia Jardim — Eu não senti nada disso. Andava pela casa atrás dele, feita louca, porque tinha presente a noção de que ele não estava ali por acaso. Eu paguei-lhe para ele vir aqui, portanto quero ver e ter acesso a tudo aquilo que ele vai fazer.

Beatriz Cantinho — As regras são determinadas por quem está a representar.

Ana Pais — Mas é sempre assim.

João Carneiro — Se não fosse ele a propor-me estas coisas, estas coisas não aconteciam na minha vida. A partir do momento em que eu aceito a sugestão dele, estou à espera que ele me proponha qualquer coisa. Posso não ter expectativas, mas tenho sempre uma: algo vai acontecer. Para mim, a formalização no momento em que eu vou a casa dele, ou que ele vai a minha casa, é exactamente equivalente. Eu vou a casa do Rogério, não o conheço, aceito um convite que é um bilhete, uma senha para a entrada em “alguma coisa”.

André e. Teodósio — O que eu acho mais interessante aqui é o espectador como co-produtor do espectáculo: tu estás a fornecer a tua casa, como teatro. Podes ser contra-regra e és figurante (quando ele te pede para vestires um colete, por exemplo), mas estás sempre a ser co-produtor. E no ‘Lado A’, se tu disseres “não podes entrar aí”, estás a dar uma deixa, logo, estás a ser o ponto.

Mónica Guerreiro — Mas sentiram que em algum momento do ‘Lado C’ estavam a contribuir ou a co-criar?

Ana Pais — Isto não tem nada a ver com co-criação, quando muito é participação.

Mónica Guerreiro — É que eu não me senti parte constituinte daquele espectáculo. Será que ele seria diferente sem a minha presença? A minha participação injectou no espectáculo algo meu?

André e. Teodósio — Durante o ‘Lado C’, tu não podes fazer aquilo que ele está a fazer. Tu estás a fazer com ele aquilo. Estão a fazer os dois.

Cláudia Jardim — Mesmo no ‘Lado A’, acho que há esse espaço. Ele está-te sempre a puxar para dentro daquilo, mesmo que seja para dentro de uma ficção. Ele convoca-te e sugere-te que tu fazes parte daquilo, e que o mecanismo depende de ti.

Mónica Guerreiro — Mas há sempre pessoas que não reagem…

Cláudia Jardim — Mas isso é salvaguardar o espectáculo. É como nos espectáculos ditos mais “convencionais”, em que se espera que o público reaja de determinada maneira, mas o público não reage dessa maneira, e tu continuas o espectáculo, não paras. E é o que ele faz. Mas acredito que se o input for mais visível da parte de quem vê, que pode acontecer muita coisa… Por exemplo: eu sou uma pinga-amor e choro por tudo e por nada, e então lembro-me que no ‘Lado A’ eu descompensei totalmente. Ele tinha um mapa e dizia “eu amo-te” em várias línguas, e depois punha uma musiquinha em que se cantava “na minha aldeia somos todos primos e primas”, e aquilo bateu-me numa zona que eu não vos consigo explicar! Eu chorava baba e ranho! E lembro-me do Rogério ter chegado ao pé de mim: agarrou-me, dançou comigo e deu-me muitos beijinhos. E acho que isso não tem só a ver com o facto de nós sermos amigos. De repente aquilo foi tão explosivo em mim, que ele teve que usar isso no espectáculo. Acredito que ele tenha tido experiências absolutamente diversas com públicos diferentes. Mas acho que o público profissional é um bocadinho tramado para este tipo de espectáculos, porque já vai a priori com um ponto de vista analítico e a pensar no que é que aquilo tudo quer dizer… E o ‘Lado A’ pede-te outras coisas, outro tipo de envolvimento, porque ele está a trabalhar com provocações e estímulos absolutamente sensoriais. A análise do que se passou parece-me que terá que ser feita a posteriori.

Mónica Guerreiro — O meu ‘Lado B’ foi um simples encontro, num sábado, ao meio-dia, na Feira da Ladra. Eu vivia mesmo ali ao pé; era muito conveniente para mim ir a um sítio onde passava todos os dias… À hora marcada, ele não apareceu, e eu resolvi voltar para casa. Quando cheguei a casa, ele telefonou-me a dizer que estava atrasado. E eu pensei: “Ou isto faz parte, a espera, o eu ter ficado aquele tempo todo a observar as pessoas na Feira, e isso é a performance, ou ele de facto atrasou-se”. Mas ele entretanto lá chegou. E então começámos a subir a Feira e a falar sobre tudo e mais alguma coisa. E aquilo não teve absolutamente nada de diferente (a não ser, lá está, o contexto e o que nos fez encontrarmo-nos ali), do que se tivesse sido um outro encontro qualquer. Para um café, por exemplo.

Cláudia Jardim — Nós trabalhámos muito em dois campos diferentes. Lembro-me que o Victor trabalhava coisas muito mais aparatosas, queria que saíssem coisas do casaco… Eu e o Rogério não; queríamos e procurávamos um “encontro real”. Daí que me faça todo o sentido que ele tenha ido tomar o pequeno-almoço com a Natacha e que tenham desatado a falar da vida um do outro normalmente. Mas na génese do projecto também houve espaço para coisas mais construídas, como essas gravações do Metro, por exemplo… Estávamos sempre a tentar tirar o tapete uns aos outros. Ou seja, ao mesmo tempo que acreditavámos que aquilo era um momento absolutamente normal entre duas pessoas que vão beber um café, de repente poder acontecer algo completamente programado, que nos tirava o tapete e que fazia daquilo novamente um “espectáculo”. E assim sucessivamente…

Mónica Guerreiro — Sim, e isso é que me fez pensar que ele quer que seja eu a construir. Ou seja, ele não provocou nada para me forçar a que fosse eu a criar sentidos. Se calhar, de facto, ele atrasou-se, e teve um problema qualquer, e não pôde preparar nada, e quis provar a ele próprio que era possível fazer o espectáculo na mesma. Que a vida conseguia, de alguma forma, dar matéria suficiente para se trabalhar um espectáculo.

V.

ENTÃO A DIFERENÇA ESTÁ NA INTENCIONALIDADE…

[sobre recepção & receptividade]

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Ana Pais — Gostava de voltar à pergunta do João: “O que é que aconteceu?”. Porque é para mim uma das questões mais importantes. E para responder volto ao meu adjectivo inicial e digo que o que me aconteceu foi uma experiência insólita. Agora, eu posso ver essa experiência insólita, para fazer um contraponto claro, de maneiras completamente diferentes. Mas também posso dizer que da minha experiência, e com todo o vício do espectador profissional, o que eu questionei mais nesse espectáculo foi: “Onde é que está a minha mais-valia como espectadora que reclama qualquer obra”? Precisamente por ser muito fechado sobre si próprio, não houve nesse espectáculo uma relação do particular com o universal. Parece que o espectáculo não dá esse salto. Não dá pistas sobre o tipo de trabalho especificamente teatral. Até podia ser péssimo artisticamente, mas eu podia pensar sobre ele de uma outra maneira, porque a questão é essa: é pensar a mesma coisa de outra maneira. A arte é só isso. É fantasticamente só isso.

Beatriz Cantinho — O que eu sinto de menos positivo no espectáculo tem a ver justamente com isso: dessa experiência íntima e privada não passar para o universal. Há momentos em que eu entro, mas há momentos em que fico de fora.

André e. Teodósio — Isso é uma eficácia de espectacularidade que não existe neste espectáculo. E isso é interessante, não existir um didactismo ou uma tentativa de orientação do pensamento.

João Carneiro — Tu estás a fazer coincidir a espectacularidade e o didactismo, que não existem neste espectáculo, com outra coisa, que é haver algo que se passe para lá de tu estares a comer uma refeição durante duas horas e a dizer meia dúzia de coisas de circunstância…

André e. Teodósio — Mas passa-se mais do que isso! Não há uma resposta para aquele espectáculo, como para nenhum espectáculo. Não é possível dizer-se que um espectáculo é sobre isto ou sobre aquilo. É possível, mas numa análise que ficaria entre a desconstrução – que eu abomino – e a verticalidade do próprio espectáculo – que eu também abomino.

Mónica Guerreiro — Então como é que se acede ao espectáculo, como é que se fala dele?

André e. Teodósio — Através do modo operativo do espectáculo. Sabendo que sou eu que estou a observá-lo e sabendo que há determinadas questões, ou determinadas matérias, que me são sujeitas: ou pelo conhecimento do autor, ou pelo conhecimento do Zeitgeist, ou dez mil outras coordenadas. Movo-me sempre no meio delas, por isso, passa-se sempre alguma coisa. É óbvio que se eu não tiver essa hospitalidade para poder entrar dentro do próprio espectáculo, nada se passará. Será uma mera autofagia. O que eu gostei no espectáculo foi, tal como disse, o ele ser um trabalho sobre o mecanismo teatral: vi um texto escrito, contemporâneo; vi uma apresentação tripartida de um espectáculo com uma evolução na descentralização do autor; vi uma cena em que alguém é convidado a expor alguma coisa… E é este o modo operativo do próprio conceito teatral. Pode ser interessante ou não. Eu acho interessante, porque há muitas questões sobre a arte, a cultura e o ser humano que ainda não foram respondidas ou retratadas de um modo convincente.

João Carneiro — A primeira coisa que eu faço num caso destes é tentar, mais ou menos conscientemente, saber qual é a intenção do autor. Portanto, eu posso tentar imaginar que seja qualquer coisa parecida com esse universo conceptual que tu estás a referir…

André e. Teodósio — Eu acho que se trata de um espectáculo conceptual.

João Carneiro — Ora aí é que “a porca torce o rabo”! Não basta dizer que é um espectáculo conceptual. Porque isso podemos dizer de tudo. E enunciar um universo de conceitos e um universo de preocupações conceptuais está ao alcance de toda a gente.

André e. Teodósio — Todos os espectáculos têm conceptualidade. Nem todos os espectáculos são conceptuais.

João Carneiro — Mas enunciá-los só por si não quer dizer nada. Nós chegamos lá, presumimos que ele quer enunciar, vagamente, um universo conceptual relacionado com a matéria do espectáculo, mas eu não consigo ver onde é que está a elaboração mínima para me fazer pensar para além de “este espectáculo é sobre o espectáculo”. Temos um universo infindável de arte conceptual que faz coincidir o real criativo com a realidade não artística e, no entanto, percebes que não é bem assim, e isso faz-te pensar. É justamente no momento em que tu pensas que os dois “reais” estão a coincidir que és apanhado na armadilha. Para além disto, não consigo perceber o que é que aquele espectáculo me propõe para além da subversão dos limites do teatro. Porque há uma tradição longuíssima sobre isso, nomeadamente em termos de espectáculos que vão a casa das pessoas. Não é uma novidade. E tenho pena de usar a palavra novidade, que é uma coisa que não quer dizer nada.

Beatriz Cantinho — Não creio que isso seja um problema. Quando vou ver aquele espectáculo, não estou à espera que seja uma novidade, nem o Rogério acredita que assim seja, evidentemente. O que está em causa é como os interesses particulares dele entram pelo espectáculo adentro. Ainda hoje estou confusa em relação ao que aconteceu no ‘Lado C’. No ‘Lado A’, pelo contrário, senti-me muito confortável, sem ter a cabeça a questionar constantemente sobre o que estava a acontecer a cada momento.

André e. Teodósio — Mas isso é a forma, não tem interesse nenhum. O que interessa é tentar perceber, com a condicionante de que ele está a fazer qualquer coisa e tu estás a observar, o que é que se passa ali. Não podemos só guiar-nos pela forma. Porque não há forma nenhuma que seja nova.

Ana Pais — O objectivo não é procurar uma coisa nova por si, ninguém está à espera de ter uma epifania. É fazê-lo de uma forma ligeiramente diferente.

André e. Teodósio — Ninguém fez o ‘Lado C’, aquilo é novo. Não entendo como é que não é novo, porque nunca ninguém fez aquilo, nunca existiu.

Mónica Guerreiro — Mas André, explica-me então qual é para ti a diferença entre eu encontrar-me com o Rogério no Sábado para tomar café e encontrar-me com ele no Domingo para fazer o ‘Lado B’. Não é uma questão de forma?

André e. Teodósio — É uma questão de intenção. Ou é voluntário ou involuntário. Quando é espectáculo, é voluntário que esse encontro no café produza um determinado pensamento, um determinado discurso. Quando vais só tomar café, é involuntária qualquer coisa que possa dali advir. Uma coisa é a acção, outra coisa é aquilo que essa acção produz.

Mónica Guerreiro — Portanto, a diferença está na intencionalidade…

Beatriz Cantinho — Mas não há uma grande diferença, independentemente de elaborações teóricas, entre dizer “amanhã vamos tomar um café” e “amanhã vamos tomar um café e eu vou fazer uma performance para ti”? Não há uma diferença?

Ana Pais — Se a tua performance me levar de um particular para um universal há uma diferença, senão fica a meio caminho.

Beatriz Cantinho — Mas eu não estou ainda a falar de conteúdos, apenas na enunciação. Dizer “vou-me encontrar contigo para uma performance” é ou não uma coisa completamente diferente?

Cláudia Jardim — Eu acho que é até uma coisa muito mais rebuscada, porque sou eu que te telefono e digo: “Vem encontrar-te comigo porque eu quero ver a tua performance”.

Mónica Guerreiro — Mas interessa-me falar do conteúdo, do que é que o performer faz nesse encontro. Porque tenho dificuldade em achar que a minha experiência do ‘Lado B’ tenha tido alguma diferença relativamente a um qualquer encontro casual.

VI.

DE UM PARTICULAR PARA UM PARTICULAR

[sobre participação & compromisso]

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Cláudia Jardim — Mas isso tem a ver com o lado perverso de nós sermos amigos do Rogério. Eu não fiz o ‘Lado B’, e não fiz por opção. Como eu conheço o Rogério, facilmente acedo a ir beber café com ele, e como há ali um limite de não se construir uma figura, vai ele. É ele que tem um encontro com as pessoas. E acho que é isso que faz com que algumas se sintam, possivelmente, “defraudadas”.

Beatriz Cantinho — Não concordo, não me sentiria defraudada, porque a enunciação está feita. Quando alguém me diz que estamos em performance, passamos a estar noutra situação. Mesmo que eu esteja a partilhar com outra pessoa uma experiência que me aconteceu, ela pode, de facto, ganhar o tal carácter universal de que a Ana fala, depende de como seja relatada, dos pormenores que envolve…

André e. Teodósio — Sobre essa questão do universal, diz o Slavoj Zizek, no Elogio da Intolerância, que aquilo que todas as grandes ideologias fazem é pegar no particular e transformarem-no num universal. E refere o socialismo russo, em que o particular do proletariado passou a universal, como se toda a gente fosse proletariado, ignorarando-se assim os problemas dos czares e de todas as outras pessoas. Os espectáculos do Rogério são de um particular para um particular. O interesse é o esforço a que o espectáculo te obriga para analisares um trabalho onde não é possível encontrares os chavões shakespearianos do “amor” e do “poder”, por ser, justamente, um trabalho sobre o particular.

João Carneiro — Mas eu digo, quando vou a casa do Rogério, que não cheguei a entrar em particular nenhum.

André e. Teodósio — Mas isso é aceitável, há coisas de que gostamos e outras de que não.

Natacha Paulino — Não se pode, e porque eu já passei por estas perguntas todas, olhar para o trabalho dele através de parâmetros de avaliação convencionais, porque são justamente essas as margens que ele anda a explorar. Por exemplo, no ‘Lado C’, eu fui uma das cobaias: cheguei a casa dele, ele serviu-me chá e bolo, demos uma volta pela casa e eu ajudei-o a lavar a loiça… Quando depois me ponho a escrever um texto crítico, deixo de ter bases para estabelecer uma comparação entre aquilo e um qualquer espectáculo “de palco”. Eu tenho que criar qualquer outra coisa que me permita perceber em que ponto é que aquilo deixou, ou não, de ser um espectáculo. O trabalho dele é essencialmente um trabalho de pesquisa, do qual tu também fazes parte. Eu já nem vou à questão da “vida real”!

André e. Teodósio — Eu acho que um dos problemas do Rogério é ele não ter bem noção da “realidade”. Ele faz os trabalhos a pensar que nós somos todos “amigos”. Que as pessoas do público são todas “amigas”. E não são. As pessoas do público não são “amigas”: querem uma explicação, ou querem uma orientação, ou querem entretenimento, ou então não querem ter que pensar. E isto é muito triste, isto de não sermos “amigos”. Vivemos todos numa Europa que tem o ideal do “és sempre inocente até comprovarmos que és culpado”, mas quando vamos a andar na rua, olhamos para o lado e toda a gente nos parece culpada… Eu não digo “amigos” no sentido literal, mas num sentido se calhar mais utópico: nos espectáculos do Rogério, se tu não vais com disponibilidade e humildade para ver, é difícil entrares naquele jogo e não chegas a perceber onde é que as propostas dele te levam, ou onde é que elas te podem levar.

Mónica Guerreiro — Eu acho que tens razão nesse aspecto, mas eu gostaria de contrapor outra coisa. Mesmo com essa disponibilidade e com essa abertura e com essa tentativa de se chegar ao cerne do porquê de ele estar a fazer aquilo, porque é que no ‘Lado C’ ele diz que “no ‘Lado A’ eu vou a tua casa e faço para ti, no ‘Lado B’ encontramo-nos no caminho e fazemos os dois, no ‘Lado C’ vens a minha casa e fazes tu”, para depois isso não chegar a acontecer?

André e. Teodósio — A ficção dele é que ele se vai embora, não é? Portanto, és tu que vais ficar a fazer o espectáculo! Ele vai-se embora!

VII.

É FILOSOFIA, NÃO É ACÇÃO

[sobre considerações finais]

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Natacha Paulino — Mas essas são as manobras do Rogério. Tu vais ver um espectáculo dele para ficares nesse estado: com dúvidas!

André e. Teodósio — Se ele te disser “a partir de agora qualquer palavra vai-te fazer lembrar riso”, e a seguir diz “candeeiro”, a palavra “candeeiro” vai-te fazer lembrar riso. Ou seja, a partir do momento em que ele diz “candeeiro”, está a condicionar-te para que penses que é a palavra “candeeiro” que quer dizer “riso”. É exactamente esta a proposta. Ele está-te a dizer que o trabalho lhe vai sair das mãos, que ao longo do espectáculo vai perder o controlo, mas trata-se de uma questão absolutamente teórica. É filosofia, não é acção!

Mónica Guerreiro — Queres dizer teórica no sentido de quase-“não real”?

André e. Teodósio — “Não real”, sim, é “não real”. É ficção.

Mónica Guerreiro — É construção? Num espectáculo em que um agente entrega uma acção a um grupo de espectadores? É a convocação de um pretexto, só?

André e. Teodósio — Exactamente. Na Agatha Christie, do Teatro Praga, a actriz Sofia Ferrão perguntava ao público: “O que é que vocês gostariam de ver aqui que ainda não viram?” Na verdade, o interesse aqui não é que o público responda, embora muitas pessoas o tenham feito! Trata-se de um questionamento meramente teórico.

Mónica Guerreiro — Mas o espectador sente sempre que está a ser interpelado e tenta sempre responder, só que vocês não querem saber…

Cláudia Jardim — Porque o mais importante é a pergunta, nem sequer é a resposta! O mais interessante é o dado que tu lanças: “A partir do momento em que eu começar a apresentar este espectáculo, vou deixar de ter mão nele”. Mesmo que isso, em verdade, não seja efectivado, ele constrói para te criar essa ilusão.

Natacha Paulino — No ‘Lado C’ ele cola-me um papel na testa que diz “espectadora-criadora”. Não lhe interessa o que é que eu vou fazer com aquilo, desde que aquilo suscite algo em mim. É esse o trabalho dele: manipular-me, independentemente da resposta que eu lhe dê. Porque posso não lhe dar resposta nenhuma.

André e. Teodósio — Por isso é que ele chama teatro. Quer dizer, o teatro é o sítio onde tu vês qualquer coisa. Tu estás ali para ver. Não é a “Passagem do Terror”. A tua condição ali é ver. Logo, é teatro, não é outra coisa. Havia aquele movimento na Alemanha dos anos 40, em que iam todos para a rua e faziam peças todos juntos… Não é nada disso! É teatro. Quando tu compras o livro do Foucault e lês o título O Que É A Filososofia?, é uma pergunta, não é? Mas tu não respondes ao livro. Tu compras o livro e lês. Pronto, é isso.

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