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PREFÁCIO

Vou A Tua Casa, No Caminho, Lado C

Luís Firmo

©José Luís Neves

A Trilogia “Vou a Tua Casa” e as diversas ramificações desenvolvidas como motivo/consequência da mesma por Rogério Nuno Costa, configuram um dos mais extensos diálogos e uma das mais envolventes e profícuas colaborações com um criador efectuadas até ao momento pela Transforma.

[Os primeiros diálogos com Rogério Nuno Costa remontam a 2003, altura em que na qualidade de observador participou na realização do Festival A8/Artes em Curso. Desde esse primeiro momento (de mútua descoberta!), foram desenvolvidas diversas outras colaborações em regularidade até à situação presente (Projecto de Documentação, 2007), sob variadíssimas formas — observação, escrita, conversa, workshop, residência, espectáculo, instalação, performance, conferência, internacionalização, documentação, guia de evento, entre outras.]

Talvez por ser este um projecto que pesquisa sobre possibilidades de diálogo, em toda a sua extensão, e muito em particular sobre diálogos que tomam a evidência da realidade e a sua percepção como matéria, questões tão relevantes para o trabalho desta organização.

Nas diversas acções desta Trilogia, Rogério Nuno Costa cria situações que se localizam artística e conceptualmente num território sem fronteiras claramente definidas, onde ficção e realidade, isto é, onde prática artística e vida quotidiana (a do criador e a do observador, em ambas as situações) se combinam e, sem hierarquias de género ou outras de qualquer espécie, se aventuram No Caminho da experiência reveladora do momento do encontro, acto de comunicação intenso que envolve uma particular percepção do tempo, do lugar e dos diversos aspectos que diferenciadamente os definem e compõem.

As diversas acções da Trilogia são pretextos e oportunidades para a consumação desse acto comunicacional. São providas de um radicalismo experimental que pressupõe a experiência do outro e/ou a experiência do lugar do outro (em simultâneo, quando ambas ocorrem), num qualquer espaço do seu quotidiano, e muito em particular quando Vou a Tua Casa. São acções/espaços marginais, de grande exposição e vulnerabilidade, em larga escala dependentes da co-humanidade e da participação desse outro, simultaneamente também transformado em observador/intérprete. São situações que pressupõem a existência de alguma forma de cumplicidade, onde o autor opera construindo intrincadas e persuasivas cadeias de significados que propõem uma outra experiência do mundo, qual Lado C aqui revelado por uma deslocação momentânea da percepção das mais elementares situações vivenciais do quotidiano de um qualquer ser humano. Neste contexto, mais do que questionar o observador sobre qual o seu lugar e qual o seu papel nos diversos momentos de desenvolvimento/apresentação da obra, e de o confrontar com outras noções de espaço e de tempo, Rogério Nuno Costa desempenha simultaneamente o papel de facilitador/indutor/revelador de uma outra relação com o nosso quotidiano (como se dele passássemos a ser intérprete), modificado pela sua acção em algo de surpreendente e raramente antes descoberto.

Aos diversos momentos da Trilogia é também subjacente uma quase alteridade disrupcional e subversiva das regras que são ditadas pelo género (teatro? dança? performance? instalação?) e pelas instituições da arte (teatro, museu, galeria de arte, instituição alternativa, etc.), e que povoam os diversos espaços onde as acções ocorrem, temporária e ocasionalmente transformados em local de acção/exposição, aspecto que expande e reforça o carácter experimental do conjunto da obra, sobretudo no que respeita ao acesso à experiência artística.

É precisamente neste âmbito que a Transforma opera, privilegiando assumidamente a experimentação e a inclusão de mecanismos facilitadores de participação nas práticas artísticas contemporâneas e afirmando a urgência de pesquisa nestes domínios. Intervir facilitando acessos e visibilidade, pesquisar propiciando a experimentação de novas abordagens e de outras formas de diálogo, e reflectir sobre os resultados obtidos com o intuito de averiguar outras possibilidades de encontro entre quem faz (criador), quem presencia (observador), o que é presenciado (obra) e o contexto onde estas diversas transacções ocorrem (lugar), são, precisamente, as linhas de orientação do trabalho desta organização.

Todos estes aspectos são abordados, de forma diversa, nos vários momentos de trabalho e nas muitas colaborações/ensaios/mostras/apresentações/discussões que, ora por convocação do Rogério Nuno Costa ora por sugestão da Transforma ou de outras entidades envolvidas no processo, foram ocorrendo durante os quase três anos e meio de desenvolvimento deste projecto. Esta é, para a Transforma, uma das preciosas mais valias desta colaboração, grandemente possibilitada pela proximidade e pelo estreito relacionamento permitidos pelos diversos períodos de residência efectuados em Torres Vedras e por uma cúmplice partilha dos diversos recursos existentes e/ou angariados para o efeito.

Este Projecto de Documentação é disto também um excelente exemplo. Ele retrata bem o modo como ao longo deste processo muitas foram as expectativas e as possibilidades de encontro consumadas…

[Convocadas enquanto observador, escritor, orador, formador, performer, encenador, fotógrafo, videasta, conferencista, produtor, facilitador, entre outros.]

…aqui através de um conjunto qualificado e diversificado de comunicações/contributos de outros criadores e de outras personalidades que acederam cruzar o seu universo criativo com o do Rogério Nuno Costa, num continuum criativo-reflexivo que, uma vez mais, projecta e expande as possibilidades da sua Trilogia. É um outro lado da Trilogia, absolutamente pertinente.

Neste Projecto de Documentação assim como nas restantes materializações desta Trilogia, existe uma complexidade conceptual e formal (física, espacial, relacional, temporal) à qual soube o criador sucessivamente responder, de forma enérgica e desenvolta, fazendo recurso de uma perícia inventiva e de uma aptidão comunicacional invulgares, que lhe permitiram angariar a simpatia e a colaboração participativas de pessoas e de entidades de origens muito diversas, muitas delas sem qualquer historial de proximidade face a este tipo de práticas/manifestações artísticas.

[Como cidadãos anónimos, funcionários de supermercado, donas de casa, professores e alunos do ensino secundário, professores e alunos de danças latino-americanas e respectivos familiares e amigos, artistas locais, críticos de arte e jornalistas diversos, outros profissionais anónimos de diversos ramos de actividade, programadores culturais e criadores de diversas áreas artísticas, entre muitos outros indivíduos e organizações convocados para de algum modo colaborarem no desenvolvimento deste processo.]

A originalidade deste projecto/investigação espelha a singularidade criativa e o comprometimento profissional deste criador, qualidades que, acreditamos, lhe permitiram uma afirmação crescente e uma merecida internacionalização do seu percurso artístico.

Possa o Rogério Nuno Costa fazer da sua criatividade, continuadamente, um “mapa-percurso” autêntico, entre um qualquer ponto ‘A’ de alguém, um qualquer ponto ‘C’ seu, e todos os pontos ‘B’ que existirão naqueles sítios impossíveis onde será por alguém ou por alguma coisa apanhado no meio. Em Portugal e noutros sítios por aí espalhados…

Possa a Transforma também continuar a fazer parte da sua experiência de si — do outro — do mundo, conjuntamente.

Luís Firmo

Presidente | Director Artístico | Transforma AC

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